Discografia

Há 110 anos nascia Carmen Miranda

Convidada para o Rock in Rio Lisboa de 2018, Anitta entrou no palco vestida de Carmen Miranda ao som de um Tico-tico no Fubá eletrônico. Já na festa de 500 anos do Brasil, promovida pela rede Globo, coube a Ivete Sangalo equilibrar um chapéu de frutas na cabeça para cantar O que é que a Baiana tem?. Quatro anos depois, a baiana gravou Chica Chica Boom Chic para um especial da MTV. Na Copa de 1998, Elba Ramalho homenageou o país-sede do evento regravando Paris, de Alcyr Pires Vermelho e Alberto Ribeiro. Esta última contou com a voz de Carmen num dueto póstumo, aproveitando o registro original lançado 60 anos antes para celebrar a participação brasileira na Copa de 1938, quando nossa seleção ficou em terceiro lugar. E em 1989, Marisa Monte estreou em disco cantando South American Way, um dos clássicos americanizados da “brazilian bombshell”.

O fato é que, nos últimos 90 anos, é difícil falar de brasilidade sem citar o nome de Carmen Miranda. É enorme e crescente a lista de nomes que já recorreram ao seu repertório, e inclui nomes como João Gilberto, Elis Regina, Paula Toller, Adriana Calcanhotto, Caetano Veloso, Marília Pêra, Eduardo Dusek, Rita Lee e a cearense Lucinha Menezes. Suas cores e balangadãs também ocuparam passarelas e museus, estão eternizadas no cinema, viraram estampa de blusa e ainda são onipresentes no Carnaval. Ahh, o Carnaval… Carmen Miranda era o próprio Brasil fantasiado para o Carnaval.

No entanto, o Brasil de Carmen Miranda é a representação de um país feito de misturas. Nascida Maria do Carmo Miranda da Cunha em Marco de Canaveses, cidade portuguesa localizada a 355 km de Lisboa, ela veio bem pequena para o Brasil, já se instalando na região central do Rio de Janeiro, próximo a Santa Teresa. A menina de olhos acesos, que ganhou do núncio apostólico um beijo na testa depois de recitar uma poesia, nunca escondeu seu talento para as artes. Cantava enquanto trabalhava numa loja de gravatas e também fazia chapéus para madames. Sabedor desses talentos, em 1929, o deputado baiano Aníbal Duarte a levou a um festival no Instituto Nacional de Música, onde ela conheceu o violonista Josué de Barros que se apaixonou por sua simpatia e a levou para gravar um primeiro compacto na recém-inaugurada Brunswick.

O compacto demorou tanto, que ela foi levada à RCA Victor, outra gravadora recentemente chegada ao Brasil, por onde ela estreou em 1930 – ao mesmo tempo em que saiu a gravação feita para a Brunswick. E foi com a logo do cachorrinho que ela lançou, em 1933, o compacto com Pra Você Gostar de Mim, mais conhecida como Taí. O médico e compositor mineiro Joubert de Carvalho andava pela Rua do Ouvidor, quando um amigo o chamou para ouvir o disco de uma jovem cantora. “Eu notei que havia presença no disco”, comentou, décadas depois, ele que logo quis compor algo para a dona daquela voz. Pouco tempo depois, Carmen entrou na loja e Joubert ouviu do amigo: “Taí, é ela”. Estava dado o mote para a marchinha que se tornou uma epidemia no País e levou Carmen à imortalidade.

Ser levada foi uma constante na vida da “cantora do ‘It’ na voz e no gesto”. Apesar de ser cheia de talentos e ter vontade de seguir carreira na arte, pouco – ou nada – do que lhe aconteceu fez parte de um planejamento. O sucesso em disco a levou aos palcos, que a levou ao Carnaval, que a levou ao cinema, que a levou a Hollywood. Aí já não tinha mais volta, a lusitana mais brasileira do mundo começou a colonizar o planeta com seu sorriso. Tornou-se o cachê mais caro do show business, atuou ao lado de Dean Martin e Jerry Lee Lewis, cantou na Casa Branca para o presidente Franklin Roosevelt e cravou suas mãos na Calçada da Fama. A propósito, é a única latina – e a única portuguesa – a receber esta honraria.

A estreia de Carmen em território norte-americano levou apenas seis minutos. Ao lado do Bando da Lua, ela integrou o elenco do espetáculo da Broadway Streets of Paris, produzido por Lee Shubert, cantando quatro músicas. No dia seguinte, era a sensação do momento, estampando inúmeras capas de revistas. No entanto, a poderosa estrela que só crescia também tinha seus pontos fracos. Ela até podia comprar uma mansão na North Bedford Drive, em Beverly Hills, conhecer Frank Sinatra e cantar acompanhada da orquestra de Benny Goodman, mas nunca conseguiu ser mãe. Na única vez em que engravidou, sofreu um aborto espontâneo. A bela morena de 1,52 metro, que quando revirava os olhos verdes levava o mundo masculino ao delírio, sonhava com uma vida tranquila, ao lado do marido, cercada de filhos e cuidando de casa.

A mulher mais cortejada do mundo naqueles anos 1940 era também uma moça recatada, que aprendeu a esconder mais do que mostrar. Getúlio Vargas nunca negou sua paixão, mas nunca consumou seu desejo. Seus figurinos feitos de longas saias coloridas e corpetes cheios de babados e lantejoulas pareciam deixar a barriga à mostra. Pareciam, porque ela usava uma proteção para cobrir o umbigo. Ainda assim, durante as gravações de Aconteceu em Havana (1941), ela estava no camarim quando foi chamada às pressas para uma sessão de fotos com seu parceiro de cena Cesar Romero. Sem avisar, o ator – conhecido no Brasil por viver o Coringa da série de TV Batman e Robin – levantou e rodopiou Carmen no ar. A atriz não tinha colocado a calcinha e o clique foi feito na hora mais imprópria. Alguns negativos foram destruídos para preservar sua imagem, mas algumas fotos vazaram e ganharam as revistas.

O primeiro namorado de Carmen foi Mário Augusto Pereira da Cunha, campeão de remo do Flamengo. Apaixonados, trocaram inúmeras cartas assinadas como “Bituca” e “Bituquinha”. O relacionamento acabou quando ele foi representar o Brasil nas Olimpíadas de Los Angeles, em 1932. Conta-se que o desgosto de Mário foi tão grande que ele nunca mais se relacionou com ninguém e quase todas as cartas se perderam. Décadas depois, já famosa, Carmen conheceu nos EUA o assistente de produção David Sebastian com quem manteve um casamento cheio de problemas. Ele era alcoólatra e a explorava de inúmeras formas, inclusive financeiramente.

O sonho não realizado da maternidade, o casamento mau sucedido e o excesso de trabalho levaram Carmen Miranda a um fim triste. Assim como foram os últimos anos de Marilyn Monroe, a brasileira já não estava feliz com o cinema e imergiu numa depressão aguda. Se a loura norte-americana estava insatisfeita com seus filmes por sempre representar a mocinha ingênua e sedutora, Carmen já não se satisfazia com as comédias em que tinha de interpretar uma “latina” de país nenhum que falava um inglês cheio de erros (ela já morava nos EUA há 16 anos). Pra piorar, ambas abusaram de remédios para dormir e acordar. Era famosa a inseparável malinha de comprimidos usada por Carmen, que em 5 de agosto de 1955, foi encontrada morta em casa, vítima de um colapso cardíaco. Sete anos depois, naquele mesmo dia, morria Merilyn vítima de uma overdose ainda mal explicada.

Coube a Heron Domingues, do Repórter Esso, dar a notícia. “Atenção, atenção, Beverly Hills, Califórnia, faleceu Carmen Miranda. Beverly Hills, Califórnia, o falecimento de Carmen Miranda ocorreu ao amanhecer de hoje em sua residência, momentos depois de se despedir de amigos que a levaram em casa após um último show de que participou na televisão”. O show havia sido no programa de Jimmy Durante, onde cantou, dançou e sorriu, como sempre fazia. Um ano antes, a “pequena notável” havia acertado as contas com seu país. Depois de uma primeira visita ao Brasil, em 1940, onde foi recebida com frieza, ela achava que já não era amada por seu povo por ter se tornado “americanizada e não suportar mais o breque do pandeiro”. Quatro anos depois, meio a contragosto, ela veio tratar da saúde no Rio de Janeiro, e foi recebida de forma calorosa pela multidão que se acumulou no aeroporto do Galeão. Estava ali selado um pacto entre o Brasil e Carmen: de que um jamais esqueceria do outro.

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