Discografia

João Gilberto, o número 1

Por Célio Albuquerque, jornalista

A primeira imagem que surge na tela é alguém caminhando segurando um violão e aquela voz única cantando Liechtensteiner Polka dos compositores alemães Rudi Lindt e Edmund Kötscher uma música tradicional alemã, numa versão assinada por Sergio Augusto Sarapo. Essa mesma música, segundo o pesquisador Cassio Gava, ficou 23 semanas nas paradas norte-americanas atingindo o 16º lugar na interpretação de Will Glahé em 1957.

Na sequencia, João sobe as escadas do Teatro Municipal de São Paulo. A sequencia de imagens é cortada com alguns frames, até João surgir no palco com o banquinho e o violão. Na sequencia, a orquestra, com arranjos de Eduardo Souto Neto, costura a levada João Gilbertena da canção. Conforme escreveu Aramis Millarch, no jornal Estado do Paraná, em 31 de março de 1991, eram “apenas 60 pessoas – 45 numa orquestra, 15 produtores, diretores e técnicos” com direção de Walter Salles Jr. e com fotografia de Adolfo Beato.

Tudo acontece em um minuto, sob a regência da agência de publicidade Fischer & Justus. Liechtensteiner Polka na verdade se transformou em “Pediu cerveja, pediu Brahma Chopp”. E João era a estrela do comercial que invadiu por algum tempo as TVs brasileiras. A parceria com a cervejaria acabou gerando alguns espetáculos de João pelo Brasil, como em Recife e no Rio de Janeiro.

Conforme escreveu Nirlando Beirão, na revista Status, de junho de 2012, quem foi escalado para convencer João a participar do comercial foi o publicitário e músico Claudio Carrillo. “Claudio foi para o Rio e ficou esperando que João se manifestasse. Um mês depois, João marcou, enfim, um encontro. De madrugada. Ficaram dando voltas na Lagoa Rodrigo de Freitas, uma, duas, 20 – sem falar nada da campanha. “Não é lindo isso aqui, Claudinho?”, era tudo que João dizia, enquanto descrevia, ao volante, curvas minuciosamente coreografadas”.

Em tempo: anos mais tarde, com um cachê de R$ 500 mil João Gilberto virou garoto-propaganda da Vale do Rio Doce, cujo texto inicial tinha a voz de Fernanda Montenegro em off. Na segunda parte do comercial aparece apenas João e seu violão cantando uma música composta pelo publicitário Nizan Guanaes, responsável pela ideia de colocar João de novo nos comerciais. A música chama-se . “Já Pensou” cuja letra segue:

Já pensou se eu nascesse no frio,
Já pensou se eu nascesse sem sala,
Já pensou se eu nascesse sem Sol,
Nascesse sem bola,
Sem Copacabana,
Já pensou se eu nascesse sem mar
Nascesse sem Rio ou sem a Bahia,
Já pensou se eu nascesse sem cor, sem esse sorriso e essa alegria
Já pensou se eu não fosse essa graça, não fosse essa raça, o que seria?
Já pensou se não fosse essa garra e essa coragem e essa energia,
Já pensou se não fosse essa fé, não fosse o que é, o que seria?
Já pensou esse País inteiro, que o melhor do Brasil, é o povo brasileiro

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