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O disband do Nervosa e suas implicações no heavy metal nacional

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Fernanda Lira (baixista), Luana Dametto (baterista) e Prika Amaral (guitarrista). Foto: Divulgação

Texto enviado pela jornalista Sâmya Mesquita

No último sábado, 25, Fernanda Lira e Luana Dametto confirmaram suas saídas da banda de heavy metal Nervosa. Em suas redes sociais, a baixista e a baterista, respectivamente, fizeram textos de despedida, mas pouco falaram dos motivos que teriam levado a esta decisão, dando margem a pensar sobre diversas questões que não só a banda vem enfrentando ao longo dos anos, como também todo o cenário nacional deste gênero musical.

A banda paulista é um dos principais nomes do heavy metal nacional da atualidade. Recentemente, fez uma extensa turnê europeia com mais de 60 shows e se apresentou no palco Sunset do Rock in Rio de 2019.

Em declaração nas redes sociais, Fernanda Lira, baixista, e Luana Dametto, baterista, disseram ser gratas por todo o tempo que estiveram na banda. Revelaram ainda que seguirão com suas carreiras musicais, mas fora do Nervosa. “Deixando bem claro que a decisão é pessoal e não tem nada a ver com cansaço de fazer tours, gravadora, nada”, disse Fernanda em sua conta no Instagram. Entretanto, podemos perceber algumas questões externas que podem ter agravado a situação da banda.

Por exemplo, de Doro a Simone Simons, o sexismo é uma constante no heavy metal. O machismo aparece de várias formas: na falta de credibilidade dada ao trabalho da mulher, no julgamento físico por um padrão de beleza, na falta de espaço em festivais e até em cachês financeiramente inferiores, comparados aos dos homens. No caso do Nervosa, frequentemente as integrantes, em entrevistas ou no palco, falavam sobre a desigualdade de gêneros dentro do heavy metal e como o machismo prejudica as bandas femininas. Fernanda já tinha revelado, em entrevista ao G1 por ocasião do Rock in Rio, que sofreu assédio de fãs a nível sexual por diversas vezes, ao vivo e em redes sociais: “Vira e mexe, nas redes sociais, recebemos nude e mensagem de cara fazendo pedido estranho”, relatou.

Também não é por acaso o rompimento da banda em plena quarentena, quando a principal fonte de renda, os shows e os festivais, estão temporariamente suspensos devido ao alto contágio do COVID-19. E é preciso frisar que as bandas que não têm sucesso no mainstream são as que mais sofrem.

O heavy metal nasceu revolucionário, nos anos 1960, mas, com o tempo, o gênero foi chamando a atenção de fãs de ideologias mais conservadoras. O Nervosa é um exemplo contrário: seja por suas letras ou por suas manifestações públicas, a banda é o símbolo da busca por políticas mais igualitárias dentro e fora do cenário.

“Há 2 anos o Nervosa não é o mesmo e todos tentávamos manter a banda viva, cada um de nós fazendo o seu melhor, sem exceções”, afirmou Prika em seu Instagram. O período coincide com o novo cenário político no País. A banda, por várias vezes, posicionou-se dentro e fora do palco contra o atual governo de Jair Bolsonaro (sem partido) e por isso sofreu represálias muito mais diretas do numeroso público conservador fã de heavy metal. “Quando a animação já não é a mais a mesma, por qualquer motivo que seja, não acho que seja honesto continuar fazendo, não seria honesto comigo, e nem com você que vem seguindo minha trajetória”, disse Luana em sua página no Facebook.

A junção de todos esses fatores – machismo, quarentena e cenário político -, além de possíveis desentendimentos internos, pode ter gerado desgaste e posterior disband. Contudo, a saída de duas das três integrantes não significa o fim. A banda afirmou em comunicado oficial que não vai parar: “os novos membros e muitas outras novidades serão anunciadas em breve”. É esperar para ver não só a nova formação, como também a continuidade desse trabalho revolucionário.

2 Comentários

  • Fernando Sertuella disse:

    Infelizmente, essa reunião de fatores vira uma mistura pesada e de difícil dissolução. Nervosa, em sua formação até então, mostrou a todos nós a essência do Heavy Metal: a revolução. Mas a revolução tem um preço e é mais difícil que o conformismo e a manutenção do status quo. Ser revolucionário exige que evoluções acontecem e esse – óbvio – não é o caminho dos conservadores.
    Triste notícia em um excelente texto.
    Lutemos!

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