Discografia

10 músicas que contam quem foi Aldir Blanc

Foto: Divulgação

O Brasil não é fácil. Diariamente recebemos uma boa dose de motivos para alimentar nossa desesperança. Parece que andamos pra frente, mas sempre com uma pesada bola de ferro presa ao tornozelo. Pra nossa sorte, temos a música e pessoas como Aldir Blanc. Sua postura, expressada em palavras, é de um ser combativo, que sempre tem algo a dizer. Assim foi naqueles nebulosos anos 1970, quando ele deu voz à esperança com duas personagens tão corriqueiras, um bêbado e uma equilibrista – se parecem distantes, ambos precisam se esforçar muito para ficarem de pé.

Mas o corriqueiro não é banal na caneta de Aldir. Das costumeiras noitadas de um boêmio (Me dá a penúltima) à solidão da mulher que o espera em casa (Bodas de prata). E ainda o cansaço dos casamentos que duram mais do que deveriam (Siameses). Tem ainda o vazio dos concursos de beleza (Miss Sueter), o envelhecer comum a todos (Resposta ao tempo) e o crime nos grandes centros (De frente pro crime). Um cotidiano tão comum a todos, mas que Aldir Blanc lança seus holofotes e faz daquele instante o retrato de um Brasil imenso. “O Brazil ainda não merece o Brasil”, mas que felicidade saber que o brasileiro mereceu Aldir Blanc.

Aldir Blanc Mendes, carioca nascido em 2 de setembro de 1946, faleceu nesta segunda-feira, 4, vitimado pelo coronavirus. Justo ele que largou a medicina para se dedicar, exclusivamente, às palavras cantadas e escritas. Sorte a do público que passou a conviver com tantos sucessos. No entanto, ao lado dos clássicos populares, algumas canções ficaram perdidas nos sulcos dos LPs. Não menos geniais, seguem algumas delas.

1. A nível de… (João Bosco/ Aldir Blanc)

Entediados com o casamento, dois casais decidem fazer um troca-troca pra ver no que dá. A proposta agora é “cada um come o que gosta”.
(Comissão de frente, João Bosco. 1982)

2. Nada Sei de Eterno (Aldir Blanc/ Silvio da Silva Jr.)

Taiguara defendeu esta canção no Festival Universitário da MPB, além de gravá-la no seu segundo disco. “Vi o amor chorar pra depois mudar/ Igual a chuva que se curva em arco-íris”, diz a letra.
(Hoje, Taiguara. 1969)

3. Caos Brasil (Guinga/ Aldir Blanc/ Paulo Emilio)

Um drible esperto entre palavras que descrevem um Brasil feito de histórias que mais escondem do que contam. Desde princesas que dão pro Ganga Zumba, até cobras e lagartos na zona militar.
(Grande Tempo, Fátima Guedes. 1995)

4. Crescente fértil (Ed Motta/ Aldir Blanc)

Um Ed Motta diferente de tudo que já se ouviu.
(Aldir 50 anos, Vários. 1996)

5. Feliz ano novo (Roberto Menescal/ Aldir Blanc)

Este bolero com um pé blues embala um breve caso de amor com Iemanjá, à beira-mar do Rio de Janeiro. Leila Pinheiro em grande momento.
(Outras caras, Leila Pinheiro. 1991)

6. Maçã tatuada (Moacyr Luz/ Aldir Blanc)

Um retrato da prostituição nas grandes cidades. Cru e poético. “Chamava-se Moema, era morena e tinha apenas 13 anos”, canta Fátima Guedes com sobriedade.
(Aldir 50 anos, Vários. 1996)

7. Popó (Chico Pinheiro/ Aldir Blanc)

Em parceria com o violonista Chico Pinheiro, Aldir usa o boxer Acelino “Popó” para medir um nocaute diferente: uma traição. Quem canta é Maria Rita, estreando nessa função.
(Meia-noite, meio-dia, Chico Pinheiro. 2002)

8. Preta-porter de tafetá (João Bosco/ Aldir Blanc)

Brincando com os sons do português e do francês, Aldir faz seu samba-enredo bem humorado e convida François Mitterrand pra dança.
(Gagabirô, João Bosco. 1984)

9. Siri recheado e o cacete (João Bosco/ Aldir Blanc)

Uma história qualquer, de um almoço para receber um amigo. Aldir só precisa disso pra marcar presença na galeria dos inesquecíveis.
(Bandalhismo, João Bosco. 1980)

10. Picadinho de macho (Tavito/ Aldir Blanc)

Numa rara incursão pelo RAP, Aldir assina uma vingança das mulheres contra os machos. “Vamos cobrar, e não vai ser barato. Fazer esses trapos de gato e sapato”, Sandra de Sá canta se divertindo.
(Trilha da novela Quatro por Quatro, 1994)

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