Discografia

Em Rough and Rowdy Ways, Bob Dylan olha o passado apontando para o futuro

Por Thiago Chaves, Professor da Unifanor-Wyden e colaborador do Discografia

Rough and Rowdy Ways é o resgate do velho Bob Dylan. Dono do cancioneiro mais importante da música americana do último século, seu 39º disco é um tributo a vários artistas que o influenciaram. Leonard Cohen e David Bowie estão presentes neste disco de forma que parecem até coautores do trabalho. Depois de ganhar o Nobel de Literatura por sua vasta obra poética, o bardo estava em silêncio e isso era incômodo para todos os amantes da música.

O fato é: ganhar o Nobel fez Dylan se aproximar ainda mais de um trabalho que lembra um conjunto de poemas musicados.

A temática do disco vai da finitude da vida (I Contain Multitudes), melancolia (I’ve Made Up My Mind to Give Myself to You) ao assassinato de Kennedy (Murder Most Foul), por sinal a primeira a ser revelada deste novo trabalho e trouxe uma grata surpresa: Dylan e suas narrativas repletas de referências sociais e políticas que recontam a história americana.

Curiosidade: apenas com essa música que Bob conseguiu algo também inédito em sua carreira. Pela primeira vez, ele foi o 1º na Billboard, algo incomum para uma canção de quase 20 minutos. Memória e morte são presenças nesse disco e não como algo pesado ou fardo, mas como natural e importante para cada ser vivo.

A recepção do disco vai de algo a “5 estrelas”, “um testamento do tempo difícil que estamos vivendo” ao “melhor trabalho em décadas de carreira”.

Se hoje somos assombrados por falta de esperança na atual conjuntura social e política do mundo pós-11 de setembro, na arte de compositores e mestres como Bob Dylan encontramos a fagulha de luz que ilumina esse caminho. Se olha para o passado para lapidar suas canções, é para o futuro que ele aponta.

“Eu viajei por um longo caminho de desespero
Não conheci outro viajante por lá
Muitas pessoas se foram, muitas pessoas que eu conhecia
Eu decidi me entregar a você”

Bob Dylan

Esse novo trabalho é um resgate para os antigos apaixonados da obra de Dylan, mas também uma oportunidade nunca tardia para novos ouvintes encontrarem uma nova paixão. Jovens, conhecer esse poeta moderno é fundamental. Esperamos ainda não ser a despedida, mas apenas mais um trabalho digno de se apresentar aos amigos.

Em tempos de pandemia, isolamento social e medo, a arte nos guiará pelo menos àqueles que desejam retirar a venda dos olhos.

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