Discografia

Em entrevista exclusiva, Mona Gadelha comenta novo single produzido por Alexandre Fontanetti

Foto: Renata Alexandre/ Divulgação

A cantora, compositora, produtora, jornalista, gestora do Porto Iracema, pesquisadora cearense Mona Gadelha passou aperto durante a pandemia, como todas as outras pessoas sensíveis a tudo que aconteceu no mundo. Mas, pra ela, mesmo que respeitando as regras sanitárias e de distanciamento, não faltou o que fazer. E foi no meio desse cenário que ela lançou Essa Menina, novo single que contou com produção de Alexandre Fontanetti. O paulistano já é um nome experiente no cenário nacional e trabalhou com Mona em outros momentos.

Feito à distância, o single foi divulgado no finzinho de novembro, junto com uma série de vídeos com mulheres dançando a nova composição. Com forte apelo pop, Essa menina é uma canção solar, doce, leve como um passeio à beira-mar. Fontanetti produz, além de tocar baixo, guitarra e sintetizadores. Além dele, o single conta com Kiko Reiner. A seguir, Mona Gadelha conversa com o DISCOGRAFIA sobre o single e sobre um ano tão desafiador quanto este.

DISCOGRAFIA – Alexandre Fontanetti é um parceiro há muitos anos e já trabalhou com você em vários outros discos. Como começou essa parceria? Quando e como se conheceram?
Mona Gadelha – Conheci Alexandre em meados dos anos 1990. Fui apresentada a ele pelo Vladimir Ganzerla, técnico e produtor. O Vlá me falou sobre os trabalhos dele, especialmente do álbum e show Bossa and Roll, com Rita Lee, de 1991, entre outros. Então, antes de concretizar a produção e direção musical do meu primeiro disco solo, que fizemos em 1996, a gente conversou muito, descobrimos nossas afinidades, como a mesma paixão por diversas sonoridades. O Alexandre tem uma inquietude com a qual eu me identifico muito. E uma coisa que me chamou atenção foi sua vontade e disposição para convidar outros (as) músicos, agregar pessoas, abrindo mão de tocar guitarra e violão em várias faixas. Essa disposição acabou reunindo 23 músicos na produção do primeiro disco, uma experiência incrível. Ele tem a sensibilidade certeira nisso que se chamava antigamente de arregimentar músicos. Foi interessante, por exemplo, chamar Vera Figueiredo para a bateria de Ingazeiras. Ou convidar o saudoso Marcus Rampazzo, o “George Harrison” da Banda Beatles Forever, para tocar pedal steel em Fugitivo. Cada convidado desse disco tem uma história.

DISCOGRAFIA – Seu novo single tem uma clara pegada pop. Você é sempre reconhecida como uma figura do blues e do rock. Ouvindo seus discos, encontramos muita MPB. Que espaço cada um desses estilos ocupam na sua carreira musical? Existe uma hierarquia de importância pra um na compositora Mona Gadelha?
Mona Gadelha – Essa pergunta é maravilhosa e muito obrigada por fazê-la! O rock e o blues, assim como a canção brasileira – acho que nessa ordem, se formos falar em “hierarquia”, que eu diria mais de cronologia do que de importância – são as referências principais. Mas estou sempre seguindo minha intuição e inquietude, curiosidade, pesquisa – eu escuto tudo. Fiz um disco eletrônico em 2004, o Tudo se Move, com uma bossa (Saint-Denis-Ceará, de Valdo Aderaldo e Celso Gutfreind, presente em dezenas de compilações no mundo, do Oiapoque ao Japão, rs) e também com um samba-rock (Felicidade pra Mim, de Alvaro Fernando). Depois um álbum de voz e piano com Fernando Moura (Praia Lírica, um tributo à canção cearense dos anos 70), totalmente diferente de tudo que fazia, mas a referência blues-rock também está ali – é só procurar, rs. Então, como artista independente, tenho essa liberdade para passear por vários estilos e modos de fazer música. E mesmo quando estive em gravadoras, morando em São Paulo, as pessoas costumavam me dizer que não sabiam onde colocar minha música, em qual prateleira. O crítico Sergio Barbo escreveu que eu fazia uma “MPB não-ortodoxa”. Talvez seja isso.

DISCOGRAFIA  – O single “Essa menina” foi feito à distância, você aqui e o Alexandre em São Paulo. O que você achou dessa experiência? Quais foram as vantagens e desvantagens?
Mona Gadelha – Com o Alexandre foi a primeira experiência à distância, algo que na área da música já acontecia bastante e se radicalizou na pandemia. Mas no álbum Praia Lírica, de 2011, eu já havia experimentado algo assim, gravando Paralelas, do Belchior, com Fernando Moura estando no Japão e eu num estúdio em São Paulo. Mas eu preferia que fosse ao modo antigo, que é muito mais divertido e prazeroso. Acho que a vantagem é saber que podemos trabalhar mesmo nessas condições. No meu caso, sem ansiedade, dentro de um ritmo tranquilo. E a desvantagem é a ausência da convivência no estúdio, da troca de conversas e ideias, sem abraços e beijos.

DISCOGRAFIA – O single “Essa menina” é o anúncio de um novo disco?
Mona Gadelha – Achei interessante a possibilidade de lançar um single, sem o compromisso de fazer um álbum a curto prazo. Isso me lembrou o compacto simples vinil, que lancei em 1984 com lado A (Será que o Céu é Azul?) e lado B (Tédio Ancestral, de Ricardo Augusto e Zé Maia). Essa Menina é um “abre-alas” para lançamentos mais constantes, pois estava sem novos trabalhos desde o single de Outono (parceria minha com Ricardo Augusto, gravada em Fortaleza com Mimi Rocha e Herlon Robson), de 2014. Exceto a regravação de Cor de Sonho, com participação de Verónica Valenttino e violões de Mimi Rocha, lançada nas plataformas digitais em dezembro de 2019.

DISCOGRAFIA – Você já tem uns anos à frente do laboratório de música do Porto Iracema, além de seguir com alguns projetos de rumo acadêmico. Que espaço você tem reservado para o trabalho de composição?
Mona Gadelha – Pois é, eu sempre gostei de fazer muitas coisas, criar, produzir. E tenho vários amigos desse mesmo naipe. Não tenho exatamente um tempo reservado para a composição. Tenho caderninhos e ideias, rs. E sou muito levada por insights, que alguns chamam de inspiração. Ao mesmo tempo em que posso fazer uma canção de forma intensa e rápida, posso também ficar anos com trechos incompletos, canções esperando desabrochar um dia.

DISCOGRAFIA – Ainda no Porto e mesmo fora dele, você tem desenvolvido muitos trabalhos que unem a música e a importância de se defender bandeiras humanas, como o respeito à mulher, à negritude, à comunidade LGBTQ+. Que iniciativas você destaca hoje em Fortaleza que também fazem esse trabalho?
Mona Gadelha – Estamos vivendo um tempo em que todas essas causas e bandeiras precisam ocupar definitivamente o espaço que lhes foi (e ainda é) negado, boicotado. E muito mais agora, quando a cultura virou alvo de ataques de retrocesso, com censura à arte e desmonte. Em Fortaleza há coletivos de várias linguagens artísticas com vigor, força e beleza. Quando penso em nomes, logo me vêm à cabeça artistas como Luiza Nobel, Jocasto, Benjamin Arquelano, Lua, Moon Kenzo, Pulso de Marte, Angel History, Daniel Peixoto, Marta Aurélia, Selva Beat, Carolina Rebouças e puxa! Tantos outros nomes. Acompanho um grupo no whatsapp e Instagram que reúne mais de 100 artistas, “Mulheres na Música”, com Bárbara Sena, Jord Guedes, Simone Souza, Luh Livia, Gabriela Mendes, Nayra Costa, Beatriz França… É muito bonito (e necessário) ver as pessoas se juntando para ações colaborativas e de resistência.

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DISCOGRAFIA – Ainda sobre essa questão, hoje existe uma preocupação para que mulheres ocupem espaços que antes eram quase exclusivos para homens. Produção de discos, direção de gravadoras, trabalhos técnicos como mixagem, masterização, etc. No campo da música nacional, você já percebe uma mudança em relação a essas posições, desde sua estreia até os dias de hoje?
Mona Gadelha – A mudança tem sido lenta, mas já está acontecendo. Demorou, né? O festival WME (Women Music Event, que este ano foi virtual, mas em 2019 eu fui, e constatei isso) é um dos vários eventos criado e produzido por mulheres, todo ano mostrando a atuação feminina nas áreas que você citou. É chocante perceber o quanto já se boicotou compositoras, produtoras e técnicas ao longo de décadas. Muitas amigas me contam histórias de hostilidade e boicote que continuam a acontecer, o que é lamentável e precisa ser combatido. Acho que a nova geração não aceita mais calada essas coisas, vai à luta!

DISCOGRAFIA – O ano de 2020 foi tomado pela pandemia e seus muitos vieses, como o isolamento, a solidão, a economia, a educação, a política. Pra você especificamente, como passou o ano e como resistiu a ele?
Mona Gadelha – Que medo! Ainda não acabou! Esse ano me remete ao título do livro de Rimbaud, Uma Estação no Inferno. Tem sido muito doloroso acompanhar as perdas das pessoas e as nossas. A Giselle Beiguelman disse que nós vivemos uma “pandemia de imagens”. Como esquecer as imagens de escavadeiras nos cemitérios? Como não se emocionar e não ter empatia com a lista de números, que são nomes de pessoas que sucumbiram à Covid, cada uma com sua história de vida, encurtada, interrompida por essa doença, e a gente vivendo num país em que a ciência é atacada, questionada. Venho resistindo trabalhando muito,  profundamente triste com a situação do País, com a violência, com o teatro real dos absurdos que estamos vivendo. Esse ano parece uma década, quando inúmeros acontecimentos cruciais se encadeiam. Ao mesmo tempo, para não sucumbir à desesperança de uma realidade assustadora, acompanho os caminhos da arte, que salva e nos dá força para seguir. Trabalhos belíssimos foram lançados, inventividade em todas as linguagens artísticas, que podemos acessar no modo virtual.

DISCOGRAFIA – O que espera de 2021?
Mona Gadelha – Ah, eu gostaria que a realidade não fosse tão cruelmente real. Mas é. Queria, quem dera! que a gente pudesse iniciar a nova década abrindo a janela com o verso do Chico Buarque: “Meu Deus, vem olhar/ Vem ver de perto uma cidade a cantar/ A evolução da liberdade/ Até o dia clarear”. Espero a vacina para a Covid, a volta de uma rotina como era, a vida com aquelas coisas que, na pressa, a gente às vezes nem se dava conta – de se encontrar no cinema, nos shows, estúdios, nos teatros, nas praças, tomar café com os amigos, sem máscaras, trocar abraços e beijos.

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