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Coluna Mimi Rocha 18: Ainda existe originalidade na música?

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Matheus e Kauan, e Alok (Foto: Divulgação)

Verdade seja dita: nunca se produziu tanta música quanto atualmente. E isso não se deve só ao prolongamento dessa terrível pandemia que assola a humanidade. Basta entrar em qualquer aplicativo de streaming, em redes sociais e nos zaps da vida pra termos acesso a um novo single, novo vídeo ou relançamentos de discos com novas versões de alguma música.

Mas o que está sendo ofertado tem algum valor realmente estético, artístico? Peguemos os elementos básicos que formam uma composição musical:

  • Ritmo (a duração das notas, batida, groove…)
  • Harmonia (são as notas tocadas simultaneamente, como se você apertasse ao mesmo tempo várias teclas de um piano, gerando os acordes)
  • Melodia (geralmente é o mais perceptível, ou seja uma só nota tocada por vez por uma voz, uma flauta, sax ou algum instrumento monofônico)
  • Letra ou poema musicado, no caso de canções

Olhando as listas das mais tocadas no Brasil e pelo mundo afora no Spotify, Applemusic, Deezer e YouTube, que são a “Billboard” ou a “Parada de Sucessos” dos novos tempos, o que noto é uma avalanche de mais do mesmo e misturas no mínimo tendenciosas. Se você também acha que o forró que é feito já há um certo tempo, e que faz sucesso, não tem nada dos elementos do forró, assim vai valer para o sertanejo, pagode bacaninha, etc…

É uma salada mista onde entra o melhor e o pior de cada estilo se somando a tendências passageiras como a zumba, zouk, o technobrega e por aí vai.

A onda do “feat” (música com um convidado) também é “tendência”. Vou citar só uns que vi aqui: Alok (Dj de música eletrônica) com Matheus e Kauan (sertanejo); Anavitória com Rita Lee; e Barões da Pisadinha com quem estiver fazendo sucesso nesses estilos.

Eu, desde 2016 como coordenador musical e pedagógico do Festival da Juventude de Fortaleza, tive acesso ao material de no mínimo uns 400 projetos musicais locais. O foco era mais no autoral e em qualquer estilo.

Pra nossa grata surpresa, tirando alguns pseudos cover de artistas como Los Hermanos, Mettalica, Coldplay, Charlie Brown, Natiruts, Mano Brown, Racionais, a ampla maioria era trabalho autoral de qualidade, ainda que em busca de uma identidade forte.

São jovens, em sua maioria de bairros periféricos com renda baixa. Alguns nunca ouviram Beatles, Rolling Stones, Fagner, Milton Nascimento, Gilberto Gil, mas estão na contramão do que a mídia atual nos impõe. É sinal de que nem tudo está perdido.

Nos últimos anos o hip hop e o funk têm ganhado muita força nas comunidades periféricas atingindo também a classe mais abastada. Originalmente é um estilo calcado em sampler (amostragem de um trecho de música de sucesso, seja uma batida da bateria ou melodia do baixo que era Remixado, editado em trechos e camadas) e em cima dessa base é interpretado o rap.

No início, os temas abrangiam contextos sociais, críticas à sociedade que os excluíam, descambando depois para subgêneros como o “funk ostentação”, com apologias a sexo, drogas e criminalidade. Para os que torcem o nariz pra os remixes usados nesse estilo, essa técnica já vem de outras eras, validando a máxima de que “nada se cria, tudo se copia”.

Vou citar alguns exemplos de uma banda famosa de rock, o Led Zeppelin (que já gerou boas e longas conversas minhas com o editor desse blog). Eles, bem antes dessa turma nova, já copiaram trechos e cometeram até apropriação indébita de algumas músicas. Confiram:

  • Bring It On Home com a música homônima de Willie Dixon
  • Black Mountain Side com Blackwaterside de Bert Jansch
  • The Lemmon Song com Killing Floor do Howlin’ Wolf
  • Dazed and Confused com a homônima de Jake Holmes (a letra era diferente, mas ele ganhou a causa em 2010)
  • Stairway To Heaven com Taurus do Spirit (a famosa introdução é quase idêntica. Mas, por ter poucos compassos, não configura plágio. Essa banda, Spirit, abriu vários shows do Led e tocavam essa música, que Page gostava muito. O autor Randy California perdeu a ação que se estendeu até após a sua morte)

O feitiço do remix os atingiu anos depois com samplers da bateria da música When The Levee Breaks editados e remixados, porém creditados pelos Beastie Boys (Rhymin’ and Stealin’), Enigma (Return to Innocence) e Eminen (Kim).

Agora você “chupar” a ideia de quem já “chupou” antes também ocorre. Vejam o caso da cantora de soul inglesa Joss Stone na música Don’t Cha Wanna Ride, que usa como introdução, base, harmonia, metais e ideias de melodia da música Am I The Same Girl, de 1969, lançada pela cantora Barbara Acklin, que por sua vez usou a base da música instrumental Soulful Strut, de 1968, da dupla americana Young-Holt Unlimited. 

O dramaturgo americano Wilson Mizner dizia: “Se você rouba a ideia de um autor é plágio, se você rouba de vários é pesquisa”.

Boa audição e pesquisa então!

Mimi Rocha é músico e produtor. Ele escreve nesse espaço quinzenalmente

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