Discografia

Parceiros de composição destacam legado e relembram convivência com Brandão

O compositor Brandão com Mona Gadelha, cantora e compositora (Arquivo pessoal)

Por Dalwton Moura, jornalista, compositor e produtor cearense

A música brasileira perdeu um de seus criadores mais discretos e, ao mesmo tempo, um de seus artistas mais intensos e singulares. O compositor Antônio José Soares Brandão, 73 anos, parceiro de artistas como Raimundo Fagner, Ednardo, Petrúcio Maia, Rodger Rogério, Ricardo Bezerra, faleceu ao fim da noite do domingo, 2 de maio. Seu corpo foi sepultado na tarde da segunda-feira, 3, no Cemitério São João Batista, no centro de Fortaleza, após velório restrito a familiares. Piauiense de Floriano, Brandão passou a viver em Fortaleza muito cedo, segundo relataram parceiros musicais.

Também arquiteto e artista visual, Brandão é co-autor de clássicos da música do Ceará para o Brasil, como Estrada de Santana, Pé de sonhos, Além do cansaço, Beco dos Baleiros – Papeis de chocolate (parcerias com o pianista Petrúcio Maia, 1947-1994), Vaila (parceria com Ednardo), Rodoviária (com Rodger Rogério) e Um real de amor (parceria com Raimundo Fagner, lançada no DVD com Fagner e Zeca Baleiro em 2004).

Rodger Rogério, outro grande mestre da geração de músicos que se tornaria conhecida por “Pessoal do Ceará”, após deixar Fortaleza para buscar espaços primeiro em Brasília, depois em São Paulo e no Rio de Janeiro no começo dos anos 1970, conta que o último encontro com Brandão, habitualmente discreto, recluso nos últimos anos, se deu na casa do artista visual e compositor Sérgio Pinheiro. “Foi há pouco mais de um ano. Ele não ia pra canto nenhum. Era mais reservado, há muito tempo… Esse momento na casa do Serjão foi bom demais”.

A única parceria gravada de Rodger e Brandão, Rodoviária, foi gravada no disco Chão Sagrado, de 1975, de Rodger e da cantora Téti. “Fizemos também um chorinho, que ele gostava muito. Mas eu não lembro mais. E não tenho a letra. Então, agora, foi-se embora…”, lamenta o cantor e compositor, que após ter dividido com Brandão os ensinamentos de uma tia-avó, encontrou o futuro parceiro “pra valer” nos anos 1960, no Curso de Arquitetura da Universidade Federal do Ceará, espaço de grande importância para o encontro de muitos daquela geração.

“Ele sempre foi muito bom. Desenhava muito bem! Muitas ideias originais. Nos conhecemos ali na Arquitetura. Depois, quando fomos pra São Paulo, ele não foi lá pra morar. Mas fez uma visita, foi pra lá com o Ednardo, que depois deixou ele lá em casa”, relembra Rodger. “Quando voltei de São Paulo (na segunda metade dos anos 1970), fui visitar o Brandão na casa da mãe dele, e era uma ruma de papel escrito! Ele escrevia muito, muito mesmo”.

Escritos muito valorizados, atesta Rodger, por Augusto Pontes, compositor, publicitário e um dos grandes “gurus” da geração do Pessoal do Ceará – autor das letras das emblemáticas Carneiro, parceria com Ednardo, e Lupicínica, com Petrúcio Maia, além de versos, frases, “boutades”, cartas e outros textos que influenciaram composições da geração do “Pessoal”.

Confira os depoimentos de Zeca Baleiro e de Joana Brandão, filha do compositor Brandão, clicando aqui

Resistindo além do cansaço

Calé Alencar que gravou em seu primeiro disco Além do cansaço, ao lado de Tetê Espíndola, guarda a recordação do Brandão que sempre foi vários em um. “O meu vizinho e o poeta, meu companheiro de banho de mar e o arquiteto, o boêmio e a criança… Uma pessoa só nesse monte de gente aí, que andou muito comigo em vários momentos das nossas vidas”, relata.

“Conheci primeiro a Fátima, companheira de Brandão, que todo mundo chamava de Astrinha. Era o codinome dela. Depois fui reencontrá-lo já como um poeta gravado, no primeiro disco do Ednardo. Em 1975, vi o Ednardo cantando Vaila, no Festival Abertura. Foi também quando mostrei minhas primeiras composições em um festival, ainda engatinhando na música”, associa.

“O que consigo falar é de um grande poeta. Desses incríveis poetas brasileiros que o Brasil inteiro não descobriu. Um poeta que através da música com Petrúcio Maia, Ednardo, Fagner grande parceiro dele, que difundiu muito a obra do Brandão, com o disco Beleza, poema maravilhoso do Brandão“, destaca, cantarolando: “Beleza só se tem quando se acede a lamparina. Iluminando a alma se entende a própria sina”.

A palavra do compromisso e da esperança

Da amizade de “acompanhar, torcer, comemorar sempre que saía algum trabalho”, surgiu a única parceria: Todo rio se entrança. “Foi a única canção que fizemos. Mas muita conversa, muita convivência. A gente ia à praia naqueles dias que ninguém ia, na Praia do Futuro velha, aquela parte que se liga com o farol, o Serviluz”, recorda Calé, enfatizando ainda a tristeza de a perda de Brandão se somar à de Gilmar de Carvalho, registrada pouco antes.

“Sempre que homenageio Petrúcio, escolho o repertório dele com o Brandão, que acho que é o que tem a palavra mais forte, do compromisso, da esperança… Ele sempre foi esse poeta que apontou um caminho da busca da liberdade, da esperança que a gente tem de que tudo vai melhorar pra nós e pra todos. Um cara de compreensão do social, do coletivo. Poeta combatente, que veio do começo dos anos 1970 com essa poética, essa força toda”, completa Calé. “Vamos fazer as homenagens que ele merece, e ele vai estar aqui. O que lamento é que o Brasil inteiro não conheça profundamente a obra maravilhosa do Brandão. Ele podia ser mais conhecido, porque é um poeta necessário”.

Cantando para resistir

Um dos episódios mais marcantes da convivência de Calé com a obra de Brandão se deu no Estoril, no início dos anos 1980. “Ou foi em 1980 ou foi ali pertinho. Muito perto daquela ebulição da Massafeira ou do Bazar 80. Naquele tempo em que o movimento, a circulação das pessoas no Estoril, o compromisso dessas pessoas com a arte, a questão política, estava muito mais evidente. A polícia cercou o Estoril, chegou lá pra intimidar, mandou fechar o bar. Eles queriam que saísse todo mundo, ficasse circulando ali pela praia, pra pegarem algum em alguma esquina”, conta.

“Na hora em que o pessoal começou a sair, me deu aquela vontade de cantar Além do cansaço. A música diz tudo o que era preciso dizer praquela repressão toda. Resolvi cantar enquanto saía, perto dos policiais, mesmo sabendo que podia ser preso. Aí cantei. Régis e Rogerio começaram a cantar também. Praciano, Rodger. E todos os outros. De repente estava todo mundo cantando. E como a gente estava cantando e saindo, a polícia foi também indo embora. A música e a poesia do Brandão nos protegeram”, encerra Calé.

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