Discografia

Cainã Cavalcante celebra Garoto em novo disco lançado em junho

Na linhagem do violão brasileiro, aquele com influências que remontam ao início do século passado e trazem a tradição das rodas de choro, dos terreiros, erudição, alguns nomes ganharam destaque ao longo da história. São mestres como Raphael Rabello (1962-1995), Baden Powell (1937-2000), Laurindo Almeida (1917-1995), Dilermando Reis (1916-1977) e Nonato Luiz. E tem Aníbal Augusto Sardinha, que fez fama com o singelo apelido de Garoto. Paulistano nascido em 1915, era um mestre dos instrumentos de corda, famoso pela facilidade com que tocava qualquer um deles. Em sua curta carreira, tocou com referências como Dorival Caymmi, Carmen Miranda e até Carlos Gardel. Deixou um legado de composições ricas em técnica e beleza melódica. Diziam que fazia música para músicos e teve fãs como João Gilberto. Morreu aos 39 anos, vítima de um ataque cardíaco.

Seguindo essa linhagem musical, o violonista cearense Cainã Cavalcante reafirma seu espaço na história desse instrumento musical lançando Sinal dos Tempos – Cainã toca Garoto. Trabalho pensado, organizado, gravado e lançado durante o período da pandemia, o tributo tomou sete meses de feitura. As gravações em si, apenas três dias. Mais precisamente, três sessões de oito horas – o que daria exatamente 24 horas de um trabalho imersivo, concentrado e, ao mesmo tempo, sem pressa. “Geralmente, numa regravação, o músico chega com a partitura e executa. E quando você vê a obra do Garoto, a história dele, é uma coisa mais espontânea, muito aberta pra vida e pra música. Quando eu comecei a tocar esse repertório, uma coisa que eu entendi é que é do coração dele. Claro que tem uma preparação, algo de dor. Mas existe uma coisa poética, bonita nesse esforço. De tocar com naturalidade, pulsação, emoção”, justifica Cainã que chegou a conversar com o violonista Paulo Bellinatti, que também tem um trabalho dedicado a Garoto. “Ele disse que ficou três meses em Nova York pra fazer isso, todo dia. E eu tinha três dias pra fazer tudo, aqui no Rio de Janeiro”.

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Previsto para o dia 25 de junho, Sinal dos Tempos traz 10 faixas, incluindo clássicos como Duas Contas, Desvairada e Gente humilde, célebre parceria póstuma de Garoto com Chico Buarque e Vinicius de Moraes. Esta última, inclusive, é a única de violão solo no álbum. Nas demais, Cainã é acompanhado por Guto Wirtti no contrabaixo acústico e pelo lendário baterista Paulo Braga, que já tocou com gente do peso de Tom Jobim e Elis Regina. Contando ainda com Esperanza, Jorge do Fusa e Lamentos do Morro, o álbum revela algumas das muitas faces da obra do músico que ingressou na vida artística ainda bem criança. “Nesse repertório você vê essa linha musical, essa crescente brasileira das valsas, da bossa, no choro. Você começa a ouvir Jobim, Radamés… Você começa a ouvir um Brasil, um nacionalismo que eu acredito. Não é o nacionalismo fascista”.

A ideia de gravar com esse trio, na verdade, nasceu antes mesmo do projeto ser dedicado a Garoto. Cainã chegou a pensar em gravar a obra de Tom, já que o baterista do Maestro estava por perto. No entanto, estudando a linhagem de violão da qual descende, o cearense foi descobrindo tangentes, aproximações entre o que aprendeu na vida e o que Garoto já fazia décadas atrás. “Fiquei com uma coisa quase intuitiva de saber mais sobre essa linhagem de violão que eu sigo. O Raphael Rabello dizia que se não fosse o Garoto a gente não estaria aqui. E fui atrás dessas músicas, fui entrando nesse universo e foi uma coisa sem volta”, conta Cainã que ainda teve apoio de Lucas Nobile, biógrafo de Raphael Rabello e co-responsável pelo documentário Garoto – Vivo sonhando (2020).

“Foi muito bom poder realizar esse trabalho. Muito desafiador, tanto do ponto de vista musical e técnico. É um trabalho muito árduo, me preparei muito. Quase que diariamente eu ficava debruçado sobre a obra dele e todo o processo foi sobre o trabalho original dele”, conta Cainã, que gravou tudo ao vivo, no estúdio, e com direito a registro em vídeo. “O disco tem uma sonoridade, um ambiente, que ele só acontece de musicalidade, de estética, por que estamos tocando junto. Tem muito respeito entre os músicos, muito respeito na execução. Parte muito de mim de não ser um disco pra ninguém ficar agulhado, impaciente. Até as coisas que exigem destreza, a gente fez com tempo folgado, sem pressão. Tanto que antes de terminar o tempo de estúdio, ainda dava pra tomar uma cerveja. Tem música que foi gravada num só take”, celebra.

Sinal dos Tempos vem dois anos depois de Nessa praia, disco dividido com o acordeonista Adelson Viana, e três anos depois de Corrente, primeiro trabalho autoral de violão solo de Cainã. Ao mesmo tempo que ele cuida da obra de Garoto, que teve o primeiro single (Gente humilde) lançado no início de maio, ele espera também o lançamento de Paracosmo, trabalho dividido com o pianista Ricardo Bacelar, que chega às plataformas nesta sexta, 28 de maio. Ainda sobre gravar a obra de Garoto, Cainã destaca que essa é “uma reverência ao violão brasileiro, realmente de fazer parte disso, de forma efetiva. Vai ser muito bom fazer esse disco de intérprete, com o repertório desse cara, ser protagonista desse papel de violonista e nessa linhagem”.

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