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Tecnologia Educacional e a experiência de Giselle Araújo

Recycle Mapp foi o app desenvolvido por meninas de escola pública em um projeto de Tecnologia Educacional. A orientadora, professora Giselle Araújo, conquistou o prêmio Inovação Catarinense.

 

professora de tecnologia educacional

Giselle Araújo, cearense que vive em Florianópolis, vencedora do prêmio Professora Inovadora. Foto: divulgação

Tecnologia, garotas e escola pública são palavras que muitos diriam não caber na mesma frase. E essa conclusão não é de se espantar. Segundo o Centro Regional para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (CETIC), embora 98% das escolas públicas tenham computadores de mesa, apenas 59% usam esses aparelhos e 10% deixam o sinal wi-fi livre. Olhando para outro prisma, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) diz que somente 20% dos profissionais que atuam no mercado de computação são mulheres. Ou seja, esses números evidenciam o distanciamento desses três pilares na sociedade.

Mas estamos aqui para falar sobre outra coisa e mostrar quem vai na contramão desses números. Em Florianópolis (SC), a professora Giselle Araújo elaborou com suas alunas um projeto que visava ao desenvolvimento de um aplicativo para smartphones. A iniciativa consagrou à educadora o Prêmio Inovação Catarinense, da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação de Santa Catarina (Fapesc), na categoria professor inovador, e virou referência na cidade em uso de tecnologia como objeto para a aprendizagem.

A cearense Giselle

           Giselle Araújo e Silva de Medeiros é cearense e graduou-se em Pedagogia ainda em Fortaleza (CE). Foi na capital alencarina que começou a desenvolver seus primeiros projetos inovativos:

“Trabalhei na ong Edisca, na parte pedagógica. Lá, a partir das minhas aulas com tecnologia, percebi que as crianças tinham um brilho diferente com relação à aprendizagem. A aprendizagem fluía de um jeito inovador, trazia muita emoção e, ao mesmo tempo, um estímulo para construir novos conhecimentos”, relembra a professora.

           Foi a experiência na Edisca que a estimulou a procurar uma pós-graduação com foco em informática na educação, segundo ela, “pensando nas mudanças que eu percebia nas aulas ministradas”.

           Em 2007, a professora Giselle se mudou para o outro extremo do país, Santa Catarina. Em Florianópolis, trabalhou como pedagoga articuladora da TV Escola na Fundação Catarinense de Educação Especial – FCEE, dando formação para professores, onde também atuo como professora do NAAH/S atendendo a alunos com indicadores de Altas Habilidades/Superdotação. No entanto, foi somente em 2015 que se efetivou na rede municipal como professora de Tecnologia Educacional.

           “O professor de Tecnologia Educacional tem como uma das funções mediar práticas pedagógicas com as tecnologias digitais junto com aos professores de disciplinas específicas”, explica. Como professora do município, Giselle tem aulas fixas com alunos do 3º ao 5º ano  voltadas ao letramento digital, à cultura maker (mão na massa) e à introdução ao ensino de computação.

A ideia

           A professora Giselle Araújo é mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina e sua tese versou sobre o desenvolvimento de aplicativos para smartphone  por estudantes do Ensino Fundamental.

“Há uma estatística muito significativa de alunos que assistem muito a vídeos, conversam em chats, mas um número reduzido de crianças e adolescentes que desenvolvem produções.”.

             A pesquisa indicada pela professora foi realizada pelo Cetic em 2018 e indica que 91% dos alunos brasileiros nunca criaram jogos, aplicativos ou programas de computador.

A oportunidade de mexer nesse número veio a partir do projeto Technovation Girls, realizado pela ONG americana Technovation. “Girls” porque tem como objetivo possibilitar garotas de conheceram com mais profundidade a área da tecnologia e incentivá-las à criação de um aplicativo voltado para solucionar problemas da comunidade.

Embaixadoras do Technovation Girls palestraram na escola em 2015, apresentando dados sobre a inserção feminina na tecnologia e incentivando as alunas a descobrirem o seu potencial participando do projeto. “Este projeto para meninas desenvolverem aplicativos vem de encontro a emergência de desmistificar que a área de tecnologia é só para meninos.”, comenta a educadora.

As diretrizes da Technovation Girls indicavam que os projetos deveriam atender os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da Organização das Nações Unidas. Para isso, comenta a professora, “temáticas da ODS como a paz, a educação, a pobreza, o meio ambiente, a igualdade de gênero – tema muito forte entre as meninas – são discutidos na etapa de ideação”.

Para participar do processo, as equipes deveriam ser formadas por 2 a 5 alunas e todas elas seriam acompanhadas por profissionais de tecnologia, design, professores e até pais, quando possível.

 Recycle Mapp

recycle mapp

Recycle Mapp mostra onde coletar materiais e produtos não recicláveis. Foto: reprodução

E um desses projetos em tecnologia educacional realizados na Escola Herondina Medeiros Zeferino culminou no aplicativo Recycle Mapp, que garantiu o reconhecimento do seu trabalho e das suas alunas – Julia Sena e Julia Pinheiro. O Recycle Mapp apresenta um mapa interativo da cidade de Florianópolis em que são indicados os pontos de coleta de vidros, materiais tóxicos, óleo de cozinha, pilhas, baterias e remédios vencidos.

O desafio, segundo a professora, seria grande. “Para criar um app, não é só aprendizagem de códigos, é fundamental a pesquisa, o design, o visual, a usabilidade. Será que esse app vai ser útil para minha comunidade? Será que já não existe um app assim? É fundamental o processo de que as meninas percebam do que elas estão falando. O que estão desenvolvendo, pensando?”

Para pôr a mão na massa, as meninas participaram de workshops/oficinas para conhecer o App Inventor – o ambiente de programação em blocos para desenvolver aplicativos -, de workshops de ideação, de oficinas de produção de vídeos para divulgação e explicação do app e de outras atividades que são requisitos para a avaliação do Technovation Girls.

O resultado foi muito além do que a premiação. O Recycle Mapp deu uma grande e importante visibilidade para o potencial dos alunos da escola pública.

“Eu fico muito feliz de pensar nesta trajetória e que hoje uma das meninas que participou da construção do app Recycle mapp, em 2017, está trabalhando como jovem aprendiz em uma empresa de tecnologia onde ela tem a oportunidade de desenvolver várias das suas potencialidades, assim como muitas outras meninas que participaram do Technovation Girls Florianópolis”, conta professora Giselle, que desde de 2018 se tornou uma das embaixadoras do programa em Santa Catarina.

            O Technovation Girls promove etapas regionais e uma mundial, nos Estados Unidos. O Recycle Mapp foi o campeão da etapa regional, mas não conseguiu se classificar para a “final” americana. Apesar disso, os resultados vão muito além de uma premiação internacional. O Recycle Mapp está disponível nas lojas de aplicativos.

Mudanças na sala de aula

Professora Giselle e alunos

A orientação de Giselle foi indispensável na construção do app pelas alunas. Foto: divulgação

Educadores da área de tecnologia como a Giselle gostam de reforçar que o olhar dos alunos sobre o tema muda à medida que eles conhecem melhor o propósito da tecnologia educacional.

A cearense conta que, quando começou a dar aulas de tecnologia educacional, o que mais ouvia era: “Professora, posso jogar?”. No entanto, com o tempo e a partir da divulgação dos projetos e seus resultados, as perguntas passaram a ser: “Professora, que projeto tem hoje?”, “Tem algum projeto para se inscrever?”.E surgiram muitos projetos, como o em parceria com o Instituto Federal de Santa Catarina, com a Iniciativa Computação na Escola INCoD/INE/UFSC.

“Eu fico muito orgulhosa disso, porque eles começaram a ver que as possibilidades das tecnologias digitais eram bem maiores que só jogar. A gamificação é importante; sendo trabalhada e mediada, é um lazer para as crianças, mas a gente precisa pensar que tem muito mais a ser feito no contexto escolar”, reflete.  

            Para a educadora, o prêmio Professora Inovadora foi uma confirmação de que “esse é o caminho”. “A gente precisa se reinventar, trazer novas possibilidades para as escolas. [O prêmio] virou um alimento para pensar em novas possibilidades dentro da escola”, conclui.

Os desafios da Tecnologia Educacional

A tecnologia aplicada à educação ainda é um grande desafio para professores de todo o país, porque boa parte deles ainda acredita no modelo do século passado, em que o aluno apenas assiste ao professor conduzindo a aula, recebendo – e muitas vezes não absorvendo – seus conhecimentos e pensamentos.

Giselle conclui: “alguns professores acham que os alunos sabem mais que eles sobre tecnologias, mas, na verdade, nós professores somo fundamentais no processo de mediação com o conhecimento”. E complementa: “Quando li as estatísticas sobre os alunos utilizarem as tecnologias e não produzirem tanto, pensei justamente isso: qual o nosso papel enquanto educador? Nós temos muito a fazer nesse processo de mediação.

Mas a pandemia do coronavírus tem sua contribuição nisso. Para a professora de tecnologia educacional, a quarentena acelerou algo que já estava sendo pensando e discutido:

“A gente tem muitos recursos que podem ser utilizados, mas muitas vezes eles nem são de conhecimento dos professores. Então, esse é o  momento de união dos profissionais, de um contribuir com o outro. Precisamos estar mais próximos ainda dos alunos, apesar do distanciamento social,  para poder orientá-los, ajudar a compreender esse processo que estamos vivendo, que é algo novo, mas que vai nos ajudar a reinventar a nossa escola. São muitos desafios, como o acesso dos alunos de baixa renda as tecnologias digitais, mas, diante da situação atual, estamos repensando a educação na era digital e ampliando as possibilidades na construção de conhecimentos.”

Este é mais um exemplo de professora nota 10. Temos aqui no blog outra experiência fantástica, dessa vez voltada para o ensino de robótica em São Paulo, com a professora Debora Garofalo. Confira aqui!

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