Fisioterapia & Saúde

Entrevista com Mauricio Garcia

QUEM É ELE
Maurício Garcia é fisioterapeuta, membro do CETE —
Centro de Traumatologia do Esporte da EPM-UNIFESP,
e gestor do Instituto Cohen de Ortopedia, Reabilitação
e Medicina do Esporte, pelo qual passam ou já passaram
Rogério Ceni, Leandro Amaral, Maureen Maggi, Bruno Senna, Lars Grael e até Pelé.

Mauricio

 

 

Que evidências podem indicar ao leigo de que algo
em seu corpo não vai bem?

A dor é a única forma que o corpo tem de se comunicar
que alguma coisa não está bem.

E quando existe dor, qual o momento de procurar
ajuda médica?

Existe uma escala analógica da dor que vai de zero a dez. Zero é dor nenhuma, dez é dor insuportável. Primeiro, portanto, é preciso graduar essa dor – por exemplo, a dor é grau três ou grau quatro. Outra aferição que podemos fazer é sobre a periodicidade e frequência dessa dor. Ocorre todo dia? É pela manhã, quando acorda e pisa no chão? É no meio da noite, durante o repouso? Ou apenas durante a prática esportiva? Ou seja, mensurando, você mesmo consegue identificar muita coisa. Se a dor ocorre no dia seguinte a um treino longo, provavelmente é por sobrecarga, o que em muitos casos pode ser resolvido com descanso de um ou dois dias. Agora, quando o grau de dor aumenta e a periodicidade e a frequência são grandes, mesmo com a suspensão da atividade física, procure um médico.

Soluções caseiras são recomendáveis?
Creio que todos nós temos uma farmacinha em casa, uma arnica, um analgésico, um gelo etc., além de alguns conhecimentos equivocados. Isso é algo cultural, não parece que vai mudar. O problema começa quando, mesmo não estando confirmado nenhum processo inflamatório, o indivíduo recorre aos antiinflamatórios – e foi por esse motivo, da automedicação, que vários desses medicamentos foram proibidos. Você dá um tiro de cartucheira para matar um pardal!

E quanto ao gelo e à bolsa de água quente?
Nas lesões agudas, recentes, de até três dias em média, a gente recomenda o uso do gelo, porque quando você tem uma lesão traumática, ocorre a ruptura de pequenos vasos que acaba por produzir o edema, que é o inchaço. O edema é péssimo para a lesão, porque inibe a contração muscular e o processo natural de reparo. Então, para evitar o inchaço, pode-se indicar o gelo de imediato, compressivo, de preferência elevando-se o membro lesionado acima da linha do coração. De maneira geral, quando a lesão acontece em regiões mais vascularizadas, como os músculos, o gelo ajuda (20 minutos, não mais). Quando são regiões menos vascularizadas, e superada a fase inflamatória, muitas vezes você coloca gelo e, na realidade, você precisa de um aumento de vascularização, processo que é inibido pelo gelo. Ora, 76% das lesões dos tendões não são acompanhadas de inflamação, são problemas degenerativos do tendão, e aí o calor é recomendável, para que haja uma tentativa de vascularização e de reparo. Nesses casos, o gelo pode trazer algum conforto, é verdade, mas não trata.

O senhor pratica atividades físicas regularmente?
Sou corredor de rua e faço musculação. Corro assessorado, totalizando aproximadamente 55 quilômetros por semana, naturalmente com alguns dias de reposição. Nunca me machuquei. Sentir dores, eu sinto, porém são fenômenos característicos do corredor, provenientes de mudança de planilha, esforço nas provas, troca de tênis ou até de treinos de qualidade, que são bastante intensos e que podem trazer algum sofrimento.

Quem são os “frequentadores” do Instituto?
Hoje há uma busca frenética pela qualidade de vida, como hábitos de dormir e comer bem, ter uma rotina social equilibrada e praticar atividades físicas. Só que muita gente vem se dedicando à prática esportiva sem orientação. “Mexa-se!” e ponto final. Houve um progresso na conceituação do que é uma vida saudável e as pessoas nos procuram em função de algumas afecções ortopédicas causadas por sobrecarga. Naturalmente, nos procuram também por conta de traumas, quedas, acidentes, problemas degenerativos etc., só que passaram a ter consciência de que as lesões por sobrecarga, que já foram denominadas como overtraining, poderiam ser evitadas com atividades preventivas – que, aliás, é parte do que realizamos em nosso serviço.

O que é lesão por sobrecarga?
É quando você exige de uma estrutura do seu corpo mais do que ela foi preparada para fazer, mais do que é compatível. Em geral, é viável a atividade que submete a movimentos estruturas como osso, músculos, tendões e ligamentos, mas você tem que preparar essas estruturas para o esforço a que você quer submetê-las. Então, aquele que põe na cabeça a idéia de, por exemplo, “eu quero, um dia, correr uma maratona”, precisa de uma estratégia, que é começar a dimensionar todas as estruturas para tal esforço. Num momento inicial, não importa a sua meta mas, sim, a estratégia que você faz para preparar sua estrutura diante da realização desse trabalho. Começar a correr sem assessoria de um especialista em treinamento e ir aumentando a intensidade sem fazer musculação, esquecendo-se do alongamento, sem dar ao corpo o repouso adequado, é quase certo que traga problemas.

Curioso, pois hoje dispomos de muita informação.
Exatamente, e isso nos leva ao segundo erro clássico. Surge uma dor no tendão, recorre-se a um amigo médico para obter um pedido para uma ressonância – o indivíduo lesionado, certo de que o especialista vai mesmo pedir isso, antecipa-se para evitar ir duas vezes ao consultório. E aí, o que acontece? Ele recebe a ressonância em casa, indevidamente abre e vai ver o laudo. Aí, cai a casa. Porque o médico radiologista é obrigado a colocar tudo o que vê, o histórico do que constatou. Ora, é um laudo grande, a pessoa
começa a ler e fala: “Nossa, tenho seis meses de vida!” Ou, então, vai para o final do laudo, descobre que tem uma tendinite patelar, por exemplo, e começa a tirar suas conclusões. Aí, vem o terceiro erro, que é ir a um médico muito famoso, que todo mundo conhece, chamado “Dr. Google”, que oferece 230 mil informações sobre o tema, grande parte delas muito subjetiva. Ou seja, ele tem acesso à informação, mas não ao conhecimento.

Qual parte do corpo tem maior incidência nas lesões
ortopédicas?

Em geral, o tornozelo, bastante sujeito a entorses. Mas, para os mais esportistas, o joelho é um vilão, por assim dizer, porque pode afastar o indivíduo da prática por um tempo prolongado e, muitas vezes, até incapacitá-lo para isso. O joelho machucado ou operado pode ficar pior ou melhor ao que era antes, mas igual, nunca.

Fonte: http://www.omint.com.br/portal_omint/jornal/1002/ideias.asp

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