Fisioterapia & Saúde

“Erro médico”: os cirurgiões em época de trevas

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Escrito por Roger Normando. membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

O cirurgião, ao longo de sua história, teve de exorcizar verdadeiros fantasmas. A começar pelo nome, pois nasceu como barbeiro-cirurgião dado a habilidade que detinha com a navalha. Depois veio a necessidade de combater a dor e a infecção, tendo em vista que a morte era sempre prevista quando se adoecia.

Calar a dor cirúrgica seria curar o mais assustador dos sintomas e, ao mesmo tempo, dar o primeiro passo para aliviar a morte, o mais intrigante destino do homem. Neste período apocalíptico, as operações eram restritas às amputações.

Arrastavam-se os enfermos até o andar mais alto ou ao claustro dos porões, para que o mundo exterior não ouvisse os gritos. Depois de amordaçado e com os membros imobilizados, ou com vários brutamontes para conter a convulsão de uma dor, o médico retirava o membro em menos de três minutos. A dor física acabava rapidamente, pois os cirurgiões eram habilidosos no ofício, mas a mental permanecia pelo resto da vida. Foi época longeva e sofrida que, após a descoberta da anestesia, em 1846, cedeu lugar a tempos novos.

Mas um segundo desafio se aproximava: combater a infecção. Tal desafio sobrepujava a incessante necessidade de se lutar contra um miasma que acompanhava os médicos por desconhecerem as mínimas noções de contaminação. O obstetra húngaro Semmelweiss, também no ano de 1846, foi quem execrou esse miasma ao introduzir a lavagem das mãos, conhecida como assepsia. Posteriormente Joseph Lister demonstrou que o fenol era um efetivo agente anti-séptico. A soma das atitudes (assepsia + antissepsia) diminuiu significantemente a taxa de mortes por infecção puerperal. Quase 80 anos adiante, Alexander Flemming descobriu a penicilina e o combate às infecções ganhou outro aliado: os antibióticos.

Com a dor controlada e a infecção passível de combate, a cirurgia passou a ganhar cenário luzente na sociedade, mas os ex-barbeiros não imaginaram que um a mais estava por vir: o chamado “erro médico”.

O termo escancara os infortúnios de uma profissão repleta de imperfeição e deixa uma nesga de revolta na sociedade, que passa a afiar a lâmina para cortar a alma do cirurgião. Fora de sua arena de defesa, a parte inerente à natureza do risco, agora, muda de significado e passa a se chamar de “erro” diante do foro cível, e a sociedade o interpreta como verdade verdadeira, tal como um dogma.

Têm agora os mártires da vida a convivência assombrosa com a perda da ternura de seus pacientes e o risco de tornar a profissão um mundo dos negócios, transformando a responsabilidade civil do cirurgião em algo confinante e vil, de modo a remetê-lo ao babilônico código Hamurábi.

Diante deste terceiro desafio, universidade, associações e conselhos terão que blindar a ética e a moral, pois estas não poderão tomar rumos perniciosos e deixarem o exercício profissional órfão de Hipócrates e sob o risco de o Código de Defesa do Consumidor (CDC), com efeito, a planejar ao seu modo o exercício da profissão. Quererá o CDC ditar normas e impor pesados ressarcimentos para se criar a indústria do dano?

De onde então veio essa visão horrenda do médico? “Doutor Frankenstein” de Mary Shelley é o epítome do médico fabricado pela sociedade e consagrado na cultura popular como símbolo de perigo. Acontece que essa imagem não veio dos médicos, tampouco dos cientistas. Quem criou o monstro foi uma adolescente de 19 anos há quase dois séculos. “Frank” seria ironia ou antipatia derivada da sociedade por não conseguirem compreender a ciência? Seria esse erro de “dispersão estatística” a contra-senha que transforma os médicos em algozes para a sociedade? Ou seria a volta do miasma execrado por Semmelweis e cultivado Mary Shelley? Ou ainda: estaríamos nós por essa pajelança, reescrevendo a obra “O Médico e o Monstro?  

Assim, pois, quem vai julgar a arte e a ciência da cura cirúrgica na sua falibilidade inata, sabendo que a mesma sempre imputará à sociedade, em suas benfeitorias, algum risco; em seus infortúnios, muito mais acertos… Quem?

FONTE: http://portal.cfm.org.br/

1 comentário

  • werlaine betania disse:

    Oi gostaria de dizer que a nossa legislação é vergonhosa como pode não existe um corpo clinico para julgar erro medico alguns casos quando vem julgandos entram pelo codigo de defesa do consumidor ou seja prestação de serviços.Acho que nos Brasileiros somos muito acomodados deveriamos lutar para temos um serviço medico de qualidade sem ter quer pagar como os paises europeus ex: Italia e França os medicos são otimos e vc não pagar nada porque ja pagamos importos é direito um atendimento de qualidade. Os medicos não podem trabalhar em 4 ou mais lugares somente em 1 hospital ah não podem abrir clinicas particulares saude no Brasil é um business…

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