Fisioterapia & Saúde

Sobrevivente de Realengo contraria médicos e ensaia primeiros movimentos

 Por: Fabíola Ortiz
Especial para o UOL Notícias

Ela foi a última estudante a receber alta no hospital, dia 14 de junho, após a tragédia na escola Tasso da Silveira, em Realengo, zona norte do Rio de Janeiro, que ocorreu em 7 de abril. Foram quase dois meses e meio de internação no hospital estadual Adão Pereira Nunes com um período de coma induzido e 12 dias no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into). Hoje, depois de um mês e meio em casa, Thayane Tavares Monteiro, de 14 anos, anda de cadeira de rodas mas contraria a expectativa de muitos médicos de que não voltaria mais a andar.

 

A estudante Thayane Tavares Monteiro, 14, foi ferida no massacre de Realengo e perdeu os movimentos. Mas ela contraria a expectativa de muitos médicos de que não voltaria mais a andar…

 

Thayane vive com sua mãe Andreia, 32, e suas 2 irmãs, Tainara, 7, e Tamires, 12. Andréia deixou de trabalhar com costura e acompanha a filha 24 horas

Com intenso trabalho de fisioterapia, seis vezes por semana com profissionais no Into e com fisioterapia em casa, Thayane, que recém completou 14 anos dia 25 de julho, já consegue mexer os dedinhos do pé, e começa a ter algum movimento suave nas pernas. Ela afirma ter alguma sensibilidade em partes da perna.

“Quanto mais eu faço fisioterapia, mais evolução eu tenho. Faz umas três semanas numa fisioterapia que comecei a mexer os dedinhos. Na medida do possível eu estou bem. É ótimo estar em casa de novo, mas tem vezes que dá vontade de falar ‘ai desisto’. Parece que não vou conseguir andar nunca. Quando eu estou pra baixo, fico irritada, não quero falar com ninguém. Eu penso ‘ai que inferno a minha vida, queria morrer’”, desabafa Thayane.

O momento mais difícil para a adolescente que sonhava ser atleta foi saber que não sairia do hospital andando. “Eu não estava sentindo mais as minhas pernas. Os médicos fizeram uma tomografia e falaram que já era, não voltava mais. ‘Você não tem mais chance de voltar a andar’. Eu chorei tanto. Ele (o médico) disse que em cinco degraus, se eu subisse um seria muito”, disse ao UOL Notícias.

Mas a determinação e a vontade da adolescente de voltar a andar e retomar a sua rotina de ir a pé para a escola de manhã, frequentar o projeto de atletismo para crianças e adolescentes no Instituto Ideal Brasil em Sulacap, e iniciar o curso de inglês é o que tem motivado Thayane.

Nesta quarta-feira (27), ela viveu um momento emocionante, com a ajuda do fisioterapeuta, conseguiu ficar em pé com as talas amarradas às suas pernas que a sustentavam.

“Hoje foi a primeira vez que fiquei em pé. A sensação foi como se a qualquer momento eu fosse levantar e andar. Colocaram uma tala e me deixam em pé na prancha me segurando. Dói muito, é o peso do tronco na perna. Eu perdi toda a força na perna, dói o quadril, chorei muito hoje”, contou. Mas apesar do esforço e das dores, diz ter sido um momento especial.

 

Aos poucos Thayane tenta se adaptar à nova condição depois da tragédia na escola Tasso da Silveira, onde estudava há apenas um ano e cursava a oitava série. Ela vive com sua mãe, Andréia Tavares Monteiro, 32, o padrasto e suas duas irmãs menores, Tainara, 7, e Tamires, 12. Os cinco vivem num vila de casas em Realengo e dividem um único cômodo no térreo da casa que está em reformas. As dificuldades começam na própria casa que não é adaptada, assim como o banheiro que é apertado.

Ela ganhou uma cadeira de rodas nova e também uma especial para o banho. Mas a locomoção ainda é difícil, pois a família está sem carro e depende do transporte público que afirma ser bastante precário para receber um cadeirante.

‘Vi todo mundo morrendo’
Desde que recebeu alta, a adolescente não voltou mais para a escola. Ela diz que sente falta dos estudos, mas o trauma ainda é muito grande e não pensa em retornar para a Tasso da Silveira. Ela afirma que só volta a estudar quando recuperar os movimentos. “Não quero ir para a escola na cadeira de rodas, (se tiver que ir) eu vou andando como eu fui naquele dia com as minhas pernas. Chego a passar mal na escola. Com o trauma que eu tenho agora, eu não quero mais voltar”, disse.

No dia 7 de abril, por volta das 8h, o ex-aluno da escola municipal de Realengo, Wellington Menezes de Oliveira, 23 anos, entrou no colégio armado com um revólver de calibres 32 e outro de calibre 38, e invadiu duas salas fazendo dezenas de disparos contra estudantes que assistiam às aulas. Doze morreram e outros 12 ficaram feridos. Thayane foi uma das poucas que viu quase toda a ação do atirador. Ela estava numa das salas que Wellington invadiu no terceiro andar.

“Eu vi todo mundo morrendo na minha frente. Vi que ele saiu atirando em todas as garotas. Lembro como ele estava vestido. Ele entrou atirando já (na sala). Eu via e não acreditava. Para mim, não parecia ser real”, contou.

Naquela manhã de quinta-feira era aula de português para a turma de Thayane que tinha cerca de 40 alunos. Por volta das 8h20, ela disse que a turma escutou sons de tiros vindos da outra sala. “A minha colega gritou: ‘É tiro! É tiro! O cara tá aqui na frente’. Depois de cinco minutos ele entrou na sala e fez o estrago que fez. Ele atingiu muitas pessoas e nove da minha sala morreram.”

Thayane contou que mesmo tendo sido atingida no braço, viu toda a ação de Wellington e que quando chegou, o atirador foi para o final da sala. “Eu fui para frente da sala e me escondi. Ele falou: ‘você ainda não morreu não? Você vai morrer que você é muito bonitinha’ e tá, tá, tá, três tiros”, relatou.