Fora da Ordem

Álbum de sambas, ‘Espiral de Ilusão’ é sobre se permitir, diz Criolo

Antes do show que faz neste domingo no Anfiteatro do Dragão do Mar, ele é uma das atrações do Vida&Arte Convida, que ocorre amanhã na Livraria Cultura

(Foto: Caroline Bittencourt)

“Lá vem você com seus lararás”, verso que abre o novo trabalho do cantor e compositor Kleber Cavalcante Gomes, o Criolo, anuncia o que vem pela frente. Afetividade que cerca a vivência do paulistano com o gênero carioca, os desamores e o tom de protesto marcam “Espiral de Ilusão”, seu quarto álbum de estúdio. O disco reúne 10 sambas, quase todos de autoria do artista que se consagrou como rapper no cenário nacional.

É com “Espiral de Ilusão” que ele chega, neste fim de semana, à Capital que lhe concedeu título de cidadão fortalezense no último ano. Filho de cearenses, Criolo participa de entrevista aberta seguida de sessão de autógrafos amanhã, 26, na Livraria Cultura, dentro da programação do Vida&Arte Convida. No domingo, 27, ele lança o novo álbum no Anfiteatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, dando continuidade à turnê que já passou por cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Belo Horizonte.

“O meu pai (o seu Cleon Gomes) escutava muito Martinho da Vila e Moreira da Silva. Tem muito dessa memória afetiva aí”, lembra. “Sempre achei uma coisa muito especial. O samba sempre esteve presente de um jeito ou de outro, mas nós não viemos de uma família de sambistas. Era uma música presente”.

Gravar sambas é um desejo antigo, tanto que o músico já registrou uma faixa ou outra do gênero em seus trabalhos anteriores. “Nó na Orelha”, de 2011, trouxe “Linha de Frente”, uma provocação sobre crianças e adolescentes envolvidas com o tráfico. Em 2014 veio “Fermento pra Massa”, no disco “Convoque seu Buda”, sobre o direito de greve dos trabalhadores brasileiros.

Produzido pelos parceiros Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, “Espiral de Ilusão” mantém a tão característica crítica social e política em músicas como “Menino Mimado” e “Hora da Decisão”, esta última escrita por Ricardo Rabelo e Dito Silva.

“Muito disso vem do olhar da minha mãe (a dona Maria Vilani). Esse olhar de indignação, de querer contribuir de algum jeito, é o legado dela. Sempre me vejo mais como espectador pra absorver o que passa ao redor”, diz. “Minha mãe passou muitos anos reivindicando uma série de coisas pelo bairro, lutando por educação. Ela juntava o máximo de professores que conseguia, uma boa turma de amigos, e montava um curso pré-vestibular na sala da minha casa. Da cozinha, eu escutava eles estudarem”.

Samba de bairro

Criolo diz que, até pouco tempo, não se via “à altura” para sustentar um álbum inteiro de sambas. “Esse disco significa se permitir a muita coisa. Existe muita energia ao redor disso porque não é uma coisa que você simplesmente senta e escreve. Pelo menos eu não consigo. Mas foi aparecendo, aparecendo e aconteceu”, continua.

Há pelo menos 15 anos, Criolo conheceu o compositor Ricardo Rabelo, do Grajaú, distrito de São Paulo onde Criolo mora com a família, em uma roda de samba. Rabelo é um dos fundadores do Pagode da 27, tradicional espaço que reúne músicos com seus violões e cavaquinhos, e que também revela talentos. O evento reúne agasalhos e cestas básicas para quem precisa, incluindo instituições que cuidam de crianças da região.

“O Pagode da 27 foi muito especial porque é o grande responsável de fazer eu sentir a parada na pele. E foi quando eu fiz música para o bairro. Foi um acolhimento importante”, afirma. “A vivência vem um tanto de um monte de coisa. Eu também fui aluno de instituição. É muita coisa que a gente vê, escuta, né? E essas coisas vão ficando”.

Ainda assim, por mais que o rap e o samba tenham nascido em países diferentes, a relação continua forte para o artista. “Se você parar pra pensar, é tudo batida de tambor, cara. Tem uma diáspora, um DNA cultural nessa batida”, justifica. “Por isso rola identificação. Existe uma ancestralidade”.

Serviço
Criolo lança Espiral de Ilusão
Abertura: Carlinhos Palhano
Domingo, 27, às 17 horas no Anfiteatro do Dragão do Mar (rua Dragão Mar, 81 – Praia de Iracema)
Ingressos: R$ 35 (meia), R$ 40 (meia solidária com 1 kg de alimento não perecível) e R$ 70 (inteira)

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