Fora da Ordem

Enrique Diaz fala sobre discurso tendencioso de O Mecanismo: “Não estou assinando o projeto”

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Série da Netflix retorna nesta sexta-feira, 10, com oito episódios inéditos. Criada por José Padilha e Elena Soarez, produção que ficou marcada por críticas promete temporada mais ampla

(Foto: Karima Shehata/Netflix)

O Mecanismo, principal aposta da Netflix no mercado brasileiro, não tem ideologia. É o que defende o criador da série, José Padilha, em uma evidente necessidade política de impor equilíbrio e enterrar a fama antipetista que o programa ganhou durante a primeira temporada. Com episódios inéditos disponíveis na plataforma, a série retorna com o mesmo hibridismo entre ficção e realidade que tanto incomodou no ano anterior, mas promete seguir a cronologia da operação Lava Jato.

Criada por Padilha (Narcos) com a roteirista Elena Soarez (Filhos do Carnaval), a produção é inspirada nas investigações do maior escândalo de corrupção da história do Brasil. A segunda temporada se passa logo após as eleições presidenciais, em 2014, pegando carona na bem sucedida força-tarefa liderada pela delegada Verena Cardoso (Caroline Abras) que resultou na prisão de 12 dos 13 principais empreiteiros do País. Chega a vez de mirar no empresário Ricardo Bretch, interpretado por Emilio Orciollo Netto, que ganha mais protagonismo ao retratar a versão de Marcelo Odebretch. Selton Mello, Enrique Diaz e Jonathan Haagensen também retornam.

A tensão política que pauta a série reflete na equipe do programa. De um lado, o elenco reúne nomes fortemente ligados à esquerda, como Enrique Diaz, que protestou contra o “desmonte das universidades públicas” e abriu a fala no lançamento da série, no último dia 7, no Rio de Janeiro, com grito de “Lula Livre”. De outro, o discurso contundente de Padilha sobre o ex-presidente Lula ter “traído a esquerda”.

“Sempre falei que o mecanismo não tinha ideologia, que era apartidário, isso não mudou, minha opinião é a mesma”, disse José Padilha. “Sempre falei que o PSDB era o mecanismo, que o PMDB era o patriarca do mecanismo, que o PT entrou para o mecanismo. Entre as condições necessárias que alguém tem de satisfazer para chegar à Presidência no Brasil está participar do mecanismo”.

Emilio Orciollo Netto, Jose Padilha, Selton Mello, Jonathan Haagensen, Caroline Abras e Enrique Diaz (Foto: Netflix / Bruna Prado)

A segunda temporada chega cercada de mudanças em relação ao ano anterior. Da abertura escrachada ao som de “Gente Bacana”, do compositor Ary do Cavaco (aquela que diz: “Se gritar ‘pega, ladrão’ / Não fica um, meu irmão’) à abordagem mais ampla dos personagens envolvidos no mecanismo. Até mesmo as críticas à voz de Selton Mello na primeira leva de episódios ganharam justificativa técnica. Padilha atribuiu a um problema de mixagem, já que, segundo ele, a qualidade de cinema Dolby 5.1 atrapalha quem assiste por dispositivos pequenos.

O calor do momento histórico que o País, contudo, nem sempre é positivo para a produção. Principalmente por abordar uma operação ainda em andamento. “Os atores foram atacados. Esse é o nosso trabalho: a liberdade de expressão não seletiva. E muita gente que levanta o punho pra defender a liberdade de expressão bateu na gente. Que liberdade de expressão é essa?”, questiona Selton Mello.

Para interpretar o delegado aposentado da Polícia Federal, Marco Ruffo, Selton Mello estudou cinema italiano. Uma das referências é o ator italiano Gian Maria Volonté, que interpretou personagens de diferentes matizes ideológicas. “Ele fez de tudo: um cara de extrema direita, um anarquista, um operário que lutava contra o sistema”, explica. “Achei um pouco triste e patético os atores serem atacados. Nosso trabalho é mostrar as dubiedades do ser humano. A gente vive numa época de muitas verdades. A gente não tem certeza de nada e a série mostra essas incertezas”.

Selton Mello (Foto: Netflix / Bruna Prado)

Reações controversas

Para Enrique Diaz, as reações controversas são resultado de um momento decisivo na história do País. A primeira temporada foi lançada às vésperas de começar a corrida presidencial, enquanto a nova leva de episódios chega após os conturbados primeiros meses do Governo Bolsonaro. “As pessoas precisavam gritar. A segunda temporada parece menos comprometida porque não está naquele momento específico, ela não tem a marca que a primeira temporada resolveu assumir enquanto dramaturgia”, pondera.

Diaz vê como delicado o fato de misturar eventos recentes com ficção, percebendo uma leve possibilidade de afetar a percepção das pessoas sobre a operação Lava Jato e o próprio curso da investigação. É inevitável, por exemplo, desassociar personagens como Janete Ruscov, vivida por Sura Berditchevsky, de sua referência original. Na série, ela é a versão da ex-presidente Dilma Rousseff, que acabava de ser reeleita.

Henrique Diaz (Foto: Netflix / Bruna Prado)

“A série entrou num lugar que teve uma tendenciosidade maior do que deveria naquele momento. A obra assumiu um lugar que apontou numa direção num momento perigoso”, continua o ator, que interpreta o doleiro Roberto Ibrahim (inspirado em Alberto Youssef). “Lidei sabendo que não estou criando o projeto, nem assinando, nem me colando em qualquer tipo de discurso que possa estar ali”.

Para o ator, a série triunfa ao fugir da dicotomia entre herói e vilão e mostrar a complexidade como os criminosos encaram seus atos. “Tem uma inteligência do roteiro que ajuda o personagem a ser desafiador. Vilão e mocinho tem que ser ferramenta para tornar isso mais complexo. Porque se não, você vai ser sempre o cidadão de bem que manda helicóptero voar e atirar na favela”, critica. O problema é que sempre o inimigo não é você. Quem precisa desse tipo de Messias que tá aí? Ninguém”.

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