Fora da Ordem

Cinco filmes para assistir de graça no Petra Belas Artes À La Carte

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O sádico coveiro Zé do Caixão de À Meia Noite Levarei Sua Alma, clássico do terror

A Petra Belas Artes À La Carte, plataforma de streaming do Cine Belas Artes, cinema/cartão-postal paulista, chegou no mercado como uma opção perante às empresas que apostam no conteúdo de massa e produção original, como Netflix, Prime Video e Globoplay.

Ao invés de blockbusters e séries populares, o foco aqui são filmes na maioria das vezes de baixo orçamento, mas cultuados pela importância e diversidade cinematográfica, de narrativas e de origem. Os cinemas alemão, francês, russo e brasileiro, por exemplo, estão bem representados.

Fica melhor: até o próximo dia 29 de abril, o catálogo é aberto para não assinantes. Para aproveitar esse momento, o blog Fora da Ordem listou cinco indicações disponíveis na plataforma com a colaboração dos jornalistas e críticos de cinema André Bloc e Hamlet Oliveira, membros da Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine).

Vamos às dicas!

À Meia Noite Levarei Sua Alma
José Mojica Marins, 1964

O fato de À Meia Noite Levarei Sua Alma ter inaugurado o terror no Brasil já faz dela uma obra necessária para entender o gênero e suas possibilidades. Principalmente, levando em consideração o cinema marginal que marcou a carreira de José Mojica Marins (1936-2020) e o seguiu durante décadas.

Perseguido durante a ditadura, Mojica experimentou o preço da censura ao apresentar um personagem averso às convenções sociais, livre de conceitos religiosos e distante de qualquer moral. Por vezes caricato, Zé do Caixão foi perturbador e, por isso, impactante o suficiente para incomodar e criar uma experiência que passeia do sadismo à fantasia com personalidade.

O longa escrito, dirigido e protagonizado pelo cineasta estabeleceu no imaginário popular o monstro mais reconhecido do cinema nacional. Forjado em uma técnica irremediavelmente imperfeita, abriu ainda uma trilogia que levaria mais de 40 anos para ser concluída. (Rubens Rodrigues)

Vá e Veja
Elem Klimov, 1985

Um dos principais longas produzidos no período final da União Soviética, Vá e Veja explora alguns dias na vida do jovem Florya durante a Segunda Guerra Mundial. Morador de uma pequena vila na Bielorrússia (hoje Belarus), o rapaz sonha em conseguir uma arma para combater o exército nazista que devasta o país. Após entrar no grupo de combatentes da resistência local, Flyora passa a vivenciar todos os horrores da guerra.

Pela perspectiva de Florya, o expectador acompanha um dos retratos mais tristes da história humana. Fazendo uso extenso de closes, a modificação no rosto de Florya, que passa de um jovem sonhador a uma pessoa marcada por cicatrizes físicas e emocionais, Vá e Veja aborda a experiência de um conflito por um ângulo pouco explorado no cinema estadunidense, principal produtor de longas do gênero.

Em Vá e Veja Aleksei Kravchenko é Florya, um jovem separado de seus comandantes durante a Segunda Guerra Mundial

Para quem está habituado a cenas de combate e glorificação do herói de guerra típicas dos filmes americanos, o longa de Elem Klimov provoca uma experiência oposta. Aqui, o íntimo dos personagens e a sutileza do dia a dia em uma situação apavorante dão um tom melancólico durante toda a duração do filme.

Originalmente concebido para se chamar “Kill Hitler”, Vá e Veja foi remasterizado em 2019. Filmado durante nove meses e na ordem cronológica das cenas, a produção utilizou moradores de Belarus como figurantes e poucos atores profissionais. (Hamlet Oliveira)

Sangue Ruim
Leos Carax, 1986

Sombrio e fosforescente, Leos Carax é um diretor de poucos e estranhos filmes. O tema costuma ser o mesmo de tantas gerações de artistas. O amor e a tentativa de fuga do clichê sobre o tema mais batido. O francês, porém, tem uma assinatura própria. Tudo é meio sujo e escondido, mas ao mesmo tempo vibrante e forte.

Sangue Ruim, de 1986, surge desse choque, que ganha força no belo casal de protagonistas Denis Lavant — eterno alter-ego de Carax — e Juliette Binoche. Envelopado por uma trilha sonora da mais empolgantes, a obra é a essência do diretor. É estranhamente familiar, ainda que mantenha seu lado obscuro.

Para quem é fã de Frances Ha (2012), de Noah Baumbach, certa performance para a inesquecível “Modern Love”, do inesquecível David Bowie, talvez dê mais um matiz de familiaridade do amor ruim de Anna e Alex. (André Bloc)

Denis Lavant e Juliette Binoche são Alex e Anna, protagonistas de Sangue Ruim

Bagdad Café
Percy Adlon, 1987

A turista Jasmin sai de Rosenheim, na Alemanha, e vai parar em um posto-motel depois de brigar com o marido e ser abandonada na estrada, no meio da Rota 66, no deserto de Mojave, Estados Unidos. É naquele lugar de pequena ou nenhuma expectativa, entre Las Vegas e lugar nenhum, que a heroína de Marianne Sägebrecht lança luz e se redescobre.

O filme se passa inteiramente entre o motel e a lanchonete comendados por Brenda, uma matriarca exausta da luta diária, que precisa cuidar dos filhos, do neto e dos negócios após mandar o marido embora de casa. Com uma interpretação crua e honesta, CCH Pounder (que pegou o papel recusado por Whoopi Goldberg) brilha na dinâmica conflituosa com a alemã. É bonito vê-las transformando as diferenças em algo extraordinário.

O cineasta Percy Adlon aposta em cores quentes com uma fotografia característica da própria filmografia – embora trabalhe com diferentes diretores de fotografia ao logo da carreira – e planos de câmera que reforçam do incômodo inicial de Jasmin ao autoritarismo de Brenda – quando filmada de baixo para cinema.

Original, Bagdad Café tem ares de cinema fantástico que lembra Mary Poppins e parece até ter influenciado indiretamente o cearense Inferninho, de Guto Parente, pelos personagens pitorescos e locação que ajudam a criar a atmosfera indie e nada pretensiosa. (Rubens Rodrigues)

Melhores Amigos
Ira Sachs, 2016

Ira Sachs nunca fez um grande filme. Não que ele não seja um diretor de ótimas obras, mas o talento do norte-americano é o intimismo. Tratar de grandes temas a partir de pequenas histórias. Assim, sem grandiloquência, o diretor construiu um bonito filão de obras.

Melhores Amigos marca pela profundidade dentro de sua simplicidade. É uma história de amizade entre dois pré-adolescentes, mas também é um pouco uma história de luta de classes. É um pouco história de amor (pré-adolescente). É sobretudo um estudo sobre cidades e especulação imobiliária.

A obra não precisa sublinhar nenhum dos temas e é isso que a faz ser, ao mesmo tempo, mais universal do que parece e menos marcante do que mereceria. A dupla de jovens atores, absolutamente antagônicos — o discreto Jake (Theo Taplitz), o expansivo Tony (Michael Barbieri) — e o eficiente elenco de apoio dão ao filme todo um equilíbrio. (André Bloc)

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