Futebol do Povo

Carnaval: ainda bem que acabou o sofrimento

Trila o apito do árbitro! Está encerrado o Carnaval. Alívio total porque você há de concordar comigo do imenso sofrimento que atinge quem não gosta do período momino. Isso me acompanha desde sempre e se estende de forma perene, inclusive aqui na Redação. Como um alienígena do presente, sou observado por olhares que variam de um estranhamento atroz até o de pena. O objetivo é tentar entender o mistério que eu carrego de não suportar o Carnaval. Me julgam como a pessoa mais infeliz do mundo, um Gargamel para os Smurfs ou um Felipão para os 7 a 1.

Além dos questionamentos públicos, é comum que eu seja chamado de lado por algum colega tentando me converter, missão quase religiosa que sempre termina fracassada. Neste ano até aceitei apresentar um programa que faço na TV O POVO com um adereço, mas para provar como o ser humano pode ser falso.No meu lado imperador, aquele que todo mundo tem, nutro o sonho de um dia ver o Carnaval acabar. Mas não é por mal ou imposição. É que a euforia efêmera e a histeria coletiva me causam compaixão. Mas como cada um tem um carma para viver, o desse pessoal certamente é achar que vale a pena.

As alternativas

Como vítima contumaz de uma sociedade autoritária e que faz questão de impor o tempo todo o Carnaval como o momento mais extraordinário que um ser humano pode experimentar, me resta apenas a opção da fuga. Minha alegoria foi boa comida. Minha evolução nas séries e filmes; no quesito fantasia, o videogame; meu enredo, a tranquilidade; em restaurantes e padarias sincronizei a harmonia e no trabalho, o conjunto.

Transitar por Fortaleza valeu a pena. Com menos gente, a Cidade ficou, paradoxalmente, mais humana. Foram grandes dias num lugar mais bonito, viável, com menos carros, mais bicicletas e sorrisos. Não por acaso a minha torcida é sempre para que o maior número possível de habitantes deixe a Cidade (não é verdade que eu tenha proposto levantarmos um muro para que quem saiu não volte). Mas o Carnaval em Fortaleza existe, veio forte e, melhor, não incomoda quem não gosta, fruto da iniciativa das pessoas na busca da legítima ocupação dos espaços públicos. Muita gente esteve no Mercado dos Pinhões, Aterro da Praia de Iracema, Gentilândia e Domingos Olimpio.

No mais, não peço solidariedade. Assumir que não se gosta de Carnaval faz parte de uma cruzada das minorias. Quero apenas o direito de não gostar em paz e desconhecer que a Val Marchiori quase saiu no tapa com a Geisy Arruda na TV ou que a destaque do Peruche surtou e ficou nua. Pode até parecer, mas não desejo impor meu gosto, como fazem comigo. A prova é tanta que tem uma menininha de três anos olhando para a minha cara (fala oi, Pilar) e me esperando para levá-la ao bailinho do prédio, com confete e serpentina. (Fernando Graziani é editor-chefe do Núcleo
de Esportes)

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