Leituras da Bel

Leituras da Bel entrevista: Estevão Azevedo

Foto: Ivson Miranda/Itaú Cultural

Estevão Azevedo, escritor (Foto: Ivson Miranda/Itaú Cultural)

Por Jáder Santana (jader.santana@opovo.com.br)

Raduan Nassar é um autor de bibliografia enxuta. Além de Lavoura Arcaica (1975) e Um Copo de Cólera (1978), publicou na década de 1990 o volume de contos Menina a Caminho, lançado em celebração aos 500 primeiros títulos da Companhia das Letras. Em diferentes momentos de sua trajetória, publicou no exterior o ensaio A Corrente do Esforço Humano e o conto O Velho. Todos esses textos – e o conto inédito Monsenhores – estão reunidos no volume lançado recentemente pela editora, um presente aos leitores em seu aniversário de 30 anos.

Lidos em sequência, os textos do volume ilustram o vigor da prosa poética de Raduan e sua capacidade de trabalhar em diversas camadas de significado. O escritor potiguar Estevão Azevedo, Prêmio São Paulo de Literatura em 2015 com Tempo de Espalhar Pedras, estudou a obra de Raduan para mestrado na Universidade de São Paulo (USP) e é autor da dissertação O Corpo Erótico das Palavras: Um Estudo da Obra de Raduan Nassar.

Na entrevista a seguir, Estevão fala sobre sua pesquisa e comenta a presença e relevância dos conflitos morais e éticos na obra do autor. Também aponta a existência de temas universais na produção de Raduan e a espécie de coerência obsessiva que nasce dela. Por fim, explica o quanto reconhece do autor em sua própria literatura.

Leituras da Bel: Como você estudou Raduan?
Estevão Azevedo: Eu fiz um estudo da obra completa antes dos inéditos. Dos que saíram agora, um já tinha sido publicado em francês, o conto O Velho. Analisei a partir do texto em francês. Mas eu entrei na obra como um todo e fui ver o que encontrava.

Leituras da Bel: E o que você encontrou?
Estevão: Um eixo que encontrei foi o fato de que em Raduan os conflitos políticos, éticos, morais, as questões mais contextuais, referenciais, dizem respeito ao que está acontecendo no mundo. Sempre existe uma camada mais subterrânea. O primeiro plano leva a um conflito erótico, de poder entre homem e mulher. Existe o debate sobre a obra dele que pergunta se ela fala dos tempos de ditadura. E sim, ela fala, mas de uma forma bem indireta, subterrânea. Ele usa esse modo sinuoso como uma poética pra falar de qualquer assunto. E isso está ligado a uma tradição do hermetismo, dos alquimistas. São relações sinuosas que têm a ver com a tradição barroca, na qual ele bebe muito. É uma forma indireta de falar das questões, mas isso não significa que não estão lá.

Leituras da Bel: Raduan começou a escrever na década de 1960 e é autor de uma bibliografia muito reduzida. Em que medida ver essa produção assim, lado a lado, ajuda a entendê-lo como escritor? É possível falar de temas universais em sua obra, de traços agregadores?
Estevão: É possível. E acho que ler os textos na sequência ajuda. Facilita pro leitor identificar certas coisas. Uma delas é que é uma obra muito coerente. Do primeiro texto ao último, inclusive no ensaio, você vê questões que se repetem, estruturas verbais, vocabulário similar. Inclusive alguns trechos que são copiados de textos anteriores. É uma obra coerente, um bloco conciso, muito denso. Ele é um obsessivo. Você percebe que até nas entrevistas, às vezes, ele usa as mesmas construções, as mesmas metáforas.

Leituras da Bel: Mas é uma coerência apenas de estilo? Ou também é temática?
Estevão: As duas coisas. Não dá pra separar. Uma coisa que ele faz, com os personagens, é demolir o conceito de verdade, de tudo o que é corrente filosófica, religiosa. Todo mundo tem um discurso categórico, mas os personagens demolem. E é uma demolição que não coloca outra coisa no lugar. Como os discursos e ideologias são feitos de palavra, já trazem em si uma contradição. As palavras têm histórias, podem significar coisas opostas, e ele usa muito dos sofistas nas entrevistas e nos livros, de forma clara ou velada. Mostra que você pode pegar o discurso de um personagem e voltar inteiro contra ele. Você consegue usar o discurso e a mesma frase pra causas diametralmente opostas. É uma demolição da verdade. A forma e o estilo também servem a essa preocupação, e por isso o estilo é hermético. São metáforas engenhosas e pro leitor pode ser difícil decifrá-las. Ele pega uma palavra e dá características de outra. Além disso, no estilo das frases, têm longos trechos sem pontuação. E outra figura que ele usa muito é a enumeração: ele vai descrever uma coisa e faz isso de quatro ou cinco formas diferentes, mostra que as palavras têm esse germe, servem pro bem e pro mal.

Leituras da Bel: Em Lavoura Arcaica, ele escreve que “o mundo das paixões é o mundo do desequilíbrio, é contra ele que devemos esticar o arame das nossas cercas”. No livro, o processo de posicionamento perante a sociedade passa muito pelo fortalecimento da identidade, pelo conhecimento do corpo, pelo reconhecimento das possibilidades de prazer. Enquanto o pai fala de pureza e vigilância à carne, o André vai embora para se livrar disso. São conflitos que sempre passam pela sexualidade?
Estevão: É bem isso mesmo. No Lavoura, o André tá sofrendo as restrições impostas pela cultura. A gente vira adulto e tem que controlar nossos instintos. O pai representa essa vida em sociedade. Ele dita as regras, impõem limites no círculo que criou dentro de uma propriedade fechada, na qual não cabe o desejo e a libido de André. O que ele faz é tentar alargar esses limites pra que neles caiba o tipo de sexualidade e desejo que ele quer experimentar. Além de não caber nesses limites, ele percebe que no círculo fechado do pai também existem rachaduras. Em uma das cenas, ele vai remexer a cesta de roupas sujas e encontra todos os odores da família. Ele defende que essa limitação que o pai impõe é uma convenção, uma regra social. Todos têm suas coisas secretas, mas nós vamos fingir que não tem, vamos sublimar. E ele tenta alargar esse círculo restrito. Aliás, a figura do círculo é muito importante. Na cena da dança, estão dançando em círculo, estão fechados e de mãos dadas. As frutas no meio, redondas. O que a irmã faz é romper esse círculo, partir as frutas. Todas as esferas estão ameaçadas. Costumam dizer que o André é libertário, mas não é bem isso. No final, ele não está pregando um regime de liberdade onde todos possam usufruir. Ele não quer abolir a ordem, o domínio, apenas quer que nessa ordem caibam os desejos dele.

Leituras da Bel: É possível encontrar algumas semelhanças entre teu Tempo de Espalhar Pedras e o Lavoura. Passa pela ambientação, pela linguagem que não é óbvia, pela prosa poética que não é piegas. No teu processo de escrita, Raduan esteve conscientemente presente?
Estevão:
Eu já tava escrevendo o Tempo quando li Raduan. Mas depois que li, com certeza vi que estava presente, foi um impacto. Não era uma referência prévia porque eu não conhecia, mas depois até inclui uma frase do Raduan. A partir daí, sim. Eu não o conhecia, mas a gente já se amava. Quando li, eu falei: ‘porra, é isso aqui’. No estilo que escrevo, talvez seja o que eu poderia almejar na vida. Tem a ver com o que eu faço, mas em um grau de qualidade absurdo.

Leituras da Bel:  Por que ler Raduan hoje?
Estevão: Primeiro porque é um dos maiores escritores brasileiros vivos e um dos maiores de todos os tempos. Também é interessante isso da linhagem, porque ele faz um tipo de literatura que não gerou muitos sucessores. Com o Rubem Fonseca, com a Clarice Lispector, você pode imaginar autores que vieram depois, mas com o Raduan é mais complicado. Eu mesmo sou muito mais realista. Ele é uma figura singular na literatura brasileira, até por sua história pessoal. Ele escreveu essas obras e decidiu espontaneamente não escrever mais e viver à margem do mercado do ego.

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