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Contos de Òrun Àiyé: brasileiro cria história em quadrinhos inspirada em orixás

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Heróis inspirados em orixás conduzem HQ lançada por artista visual baiano. Primeiro volume, que conta a história de Xangô e sua jornada por justiça, será lançado em agosto. Projeto Contos de Òrun Àiyé foi viabilizado através de financiamento coletivo.

O artista visual Hugo Canuto acredita que as histórias ligadas a herança africana devem ser contadas sem infantilizações que simplificam a cultura e criam estereótipos. Natural da Bahia, ele vivenciou muitos episódios de discriminação e combate às crenças que chegaram ao Brasil no período colonial. Alimentado pelo desconforto e tendo consciência do potencial artístico dos orixás, Hugo escreveu o argumento de uma história que aborda a cultura afro-brasileira em sua pluralidade e encantamento.

Assim nasceu o projeto Contos de Òrun Àiyé, que se desdobrou numa série de posteres com ilustrações de heróis inspirados em orixás e em uma HQ custeada através de financiamento coletivo. “Serão duas histórias, inspiradas nos mitos e lendas dos orixás. Uma delas será sobre Xangô e sua jornada heroica por justiça, junto a Iansã, Oxum, Ogum e Oxossi”, fala Hugo sobre o primeiro volume dos quadrinhos. As figuras, que habitam o imaginário popular brasileiro, ganham um novo tratamento a partir dos traços do artista visual. O projeto conta com a arte final de Marcelo Kina e com as cores de Pedro Minho. Além deles, Hugo fez questão de ter consultores ligados as religiões de matrizes africanas.

O artista visual ressalta que a influência africana é parte da nossa identidade. Não apenas no aspecto religioso, mas nos hábitos, na gastronomia, no modo de existir, nas concepções. “Com o tempo, me dei conta da importância que tinham aquelas entidades vindas de além-mar, cujas estátuas pairam nas águas do Dique do Tororó, na praia do Rio Vermelho, na arte de Carybé, nos mercados… Como artista, sempre busquei entender o papel dos mitos e das religiões como forças atuantes na formação das sociedades”, aponta.

A primeira história será lançada em agosto deste ano. Por enquanto, o artista visual permanece na fase de divulgação, com palestras e encontros com o público. É nesses diálogos que ele vê crianças saltando do colo das mães ao vislumbrar as ilustrações de Iansã. “É uma alegria ver que talvez nosso trabalho possa desconstruir, desde cedo, nas crianças, a visão demonizada e preconceituosa que se tem do povo de santo”, explica Hugo.

Crianças e adultos são convidados a ler e partilhar as aventuras das figuras fantásticas. Apenas uma parte dos orixás aparece na primeira publicação, que terá 90 páginas e formato americano. Além disso, explica Hugo, a série de posteres que deu o pontapé do projeto deve chegar ao número de 16 até o fim do ano. “Quando falamos das histórias em quadrinhos, se trata de uma linguagem global, presente do Japão à Argentina. Uma estética que permite múltiplas narrativas e reinvenções”.

A importância do projeto Contos de Òrun Àiyé, acredita Hugo, está em adaptar para a linguagem dos quadrinhos algumas narrativas que atravessaram o tempo e as distâncias, mantendo a mesma sabedoria e encantamento de quando eram contadas nas velhas cidades da África ocidental. “São parte da nossa identidade. É necessário valorizar um dos pilares do Brasil, que infelizmente ainda sofre com discriminação e preconceitos”, finaliza o artista visual.

Serviço
Uma nova campanha do projeto Contos de Òrun Àiyé será realizada, durante o primeiro semestre, para pré-venda da HQ. Outras informações no Facebook (http://bit.ly/2ls7YEN) ou na página oficial do projeto (http://bit.ly/2l2wwTX)

Saiba mais
As diretoras Jamile Coelho e Cíntia Maria fizeram uma animação stop motion (a partir de fotografias) para contar a história da formação da terra. Òruyn Àiyé: a criação do mundo tem 12 minutos e foi lançado em novembro último. No enredo, um avô conta para a neta como os deuses africanos Olodumaré, Orunmilá, Oduduwa, Oxalá, Nanã e Exú interagem para criar o mundo e os seres humanos. O intuito do projeto é valorizar a história, o legado e a cultura africana. A dupla baiana chegou a lançar uma campanha de financiamento coletivo para dar continuidade as produções, mas o aporte de R$ 50 mil não foi alcançado até a data limite. O valor seria utilizado para filmar o segundo episódio, intitulado Òrun Àiyé: As Águas de Oxalá. Para mais informações sobre o projeto: http://bit.ly/2l2vaZq

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