Leituras da Bel

Leituras da Bel entrevista: Maurício de Sousa

Maurício de Sousa (Foto: Divulgação/Prefeitura de Sobral)

Década após década, Maurício de Sousa continua sendo aclamado por crianças, jovens e adultos que descobriram o prazer da leitura através das histórias da Turma da Mônica. Criado no interior de São Paulo, a infância do menino foi repleta de referências literárias e lúdicas. Pai artista, mãe poetisa. Maurício traçou caminho entre as letras e as imagens para, ele mesmo, se tornar um ícone. De passagem por Sobral, Região Norte do Estado, para participar de um evento literário, ele foi aclamado por públicos de várias idades, que não acreditavam na presença do “pai da Mônica”. Na entrevista, Maurício fala sobre estratégias de crescimento internacional, do seus próprio percurso como leitor e desenhista, da influência de suas personagens no processo de alfabetização dos brasileiros, dos filmes live-action que estão sendo produzidos e ainda diz que o sobralense é “orgulhoso” e “vaidoso”.

Leituras da Bel –  A Turma da Mônica tem estratégias para driblar a crise econômica?
Maurício de Sousa – A estratégia é a gente administrar bem. A gente não gastar mais do que pode. Não entramos em coisas perigosas. E, ao mesmo tempo, sempre agimos com ética e honestidade na administração, no trabalho, nas ações. Como empresa, inclusive. É o que eu faço. De vez em quando o pessoal me acusa de crescer devagar. Por que eu não aceito coisas fora do esquema, da lei, da honestidade ou fora dos princípios adequados para uma administração. Realmente, em muitos momentos, na vida, alguns assessores falaram ‘faz igual todo mundo’.

Não faço! Tenho mais de 50 anos nessa atividade e nunca tivemos nenhum caso desonroso para a empresa. E vamos continuar assim, pois nosso trabalho é dirigido a um público sensível. Não só sensível. É humano, inocente, em formação. Nós temos que respeitar nosso público. Tenho que cuidar como se fossem meus filhos. Cada leitor é como se fosse meu filho.

Leituras da Bel –  É importante que esse público tenha o incentivo dos pais para a leitura?
Maurício – Sem dúvida. Eu fui alfabetizado pela minha mãe. Ela me mostrou letrinhas, sílabas e palavras com gibis. Eu não tinha entrado na escola ainda. Quando eu entrei na escola, eu lia correntemente. Depois do gibi, já que eu lia desde cedo, ele não me sustentava mais. Eu queria mais. E logicamente a gente quer o livro. Acontece com a maioria das pessoas que lê muito. O gibi acaba sendo uma coisa alternativa, que pode ser passada para trás com um bom livro. Comecei com os livros de aventuras, com Monteiro Lobato. Depois, os livros clássicos e literatura estrangeira. Com isso, fui chegando a um ponto que virei um leitor compulsivo. Nos meus 12, 13, 14 anos, eu lia um livro por dia.

Maurício de Sousa (Foto: Divulgação/Prefeitura de Sobral)

Leituras da Bel – E isso foi determinante no seu crescimento?
Maurício – Isso me ajudou em todas as minhas atividades no futuro. Me jogou por exemplo, antes de ser desenhista, no jornal. Fui jornalista. A leitura me ajudou pois eu era escritor e desenhista. Como a história em quadrinhos era muito mal paga, eu precisava ganhar como escritor e como desenhista. Isso ajudava no começo da carreira. Depois, naturalmente, fui me aperfeiçoando e criei a rede de distribuição de materiais para os jornais. E depois, as revistas. Fui fazendo um percurso de utilização das minhas criações, dos desenhos e das personagens por plataformas de comunicação. Com isso, hoje temos um estúdio com quase 300 artista. É um dos maiores estúdios do segmento no mundo.

Leituras da Bel – E como o senhor avalia suas obras, especificamente, no desenvolvimento da leitura?
Maurício – A coisa que mais considero como uma condecoração, minha medalha no peito, é a alfabetização que consegui com as minhas revistas. A Turma da Mônica é uma cartilha informal. Alfabetiza Deus e todo mundo. Cada criança que pega uma revista não tem paciência de esperar que alguém leia. Se ninguém lê, ela vai garimpar sozinha o entendimento das palavras, das letras, das sílabas. Milhões e milhões de brasileiros foram alfabetizados pela Turma da Mônica.

Leituras da Bel – Próximo ano será filmado um longa-metragem live-action – modelo que utiliza atores e foi utilizado pela Disney em produções como Cinderela e Mogli – da Turma da Mônica…
Maurício – E o elenco já foi escolhido. A criançada é linda, maravilhosa. E, além disso, é nosso primeiro filme com atores. Mas vamos escolher também artistas da Turma da Mônica Jovem, que será outro filme também com atores. É um novo caminho que nós vamos trilhar. E é muito, vamos dizer, atraente. É uma sensação nova. Adoro que nossos estúdios estejam inventando coisa nova. Adoro pioneirismo. Dá trabalho. De vez em quando atravessamos períodos difíceis. Mas tem dado certo, ou eu não estava aqui falando.

Leituras da Bel – O estúdio está, a cada dia, mais inserido no mercado internacional.
Maurício – Tudo funcionou para dar o que deu, para dar um estúdio grande como o nosso. Que faz material para o mundo inteiro. Hoje, a Mônica Toy (série de vídeos do YouTube com os personagens em versão bebê), por exemplo, vai atingir três bilhões de visualizações. Países onde eu nem entrava com a Mônica são campeões de visualizações. A Rússia, por exemplo, está em primeiro lugar. Países que eu nem sonhava em entrar: México, Japão, Coreia. O nosso material hoje é universal. Sai dos lugares e é bem recebido pelas crianças do mundo inteiro.

Maurício de Sousa (Foto: Divulgação/Prefeitura de Sobral)

Leituras da Bel – Há algum cuidado especial as histórias e com os personagens nos outros países?
Maurício – Quando pensei na área internacional, fiz uma pesquisa para ver quais os assuntos tabus. Assuntos que eu não devo mexer nas histórias que pretendo exportar… Nós temos essa listinha: “isso aqui é melhor não mexer, isso aqui é melhor não falar”. Nós temos os nossos padrões de segurança para circular pelo mundo sem problema nenhum. De vez em quando damos uma topadinha, mas nada muito grave (risos).

Maurício de Sousa

Leituras da Bel – E qual a importância de eventos como feiras do livro no interior do Ceará?
Maurício – É uma das coisas mais importantes que podem ter acontecido aqui em Sobral. A cidade depois dessa primeira feira não vai mais ser a mesma em termos culturais, em termos de literatura, de histórias. Eu não sei quem criou. Já me disseram vários nomes (risos). Fico satisfeito pois Sobral é uma cidade muito agradável para mim. E fiquei feliz de estar aqui no começo do processo, que sem dúvida vai continuar, pois o sobralense é muito orgulhoso e vaidoso. Ele está vendo essa festa toda por leitura. Ele vai querer repetir. Ele vai querer fazer de novo. Ele vai em frente. E já estão discutindo quem vem para a feira no ano que vem.

Leituras da Bel – Todo mundo pode ser cartunista?
Maurício – Depende da pessoa, do talento. Eu acredito que há ambientes. Você cresce no meio de livros, histórias em quadrinhos e artistas, você pega o jeito. Eu nasci em casa cheia de livros com pai artista e mãe poetisa. Então, o ambiente faz muito. E, daí, a pessoa capricha, evolui, revoluciona, vai se transformar em um artista. Acho que em qualquer lugar a gente pode achar artistas que podem de alguma maneira fazer o que eu faço. Eu vi hoje o trabalho de um menino de dez anos, que se eu pudesse contratava hoje. Um menino de Sobral! Fui falar com a família dele, que faça o menino estudar bem, treinar bastante e daqui a seis anos levar para lá e eu contrato.

Eu já fiz isso no estúdio. Eu já vi crianças com desenho tão interessante que pedi para o pessoal voltar em alguns anos. Voltaram e se transformaram em grandes artistas e desenhistas. Tá cheio de artista bom por aí. Mas, às vezes, falta oportunidade e ambiente. Está cheio de artista por aí. Eu gosto de pensar que sempre haverá substituto para mim no futuro.

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