Leituras da Bel

Coluna Ao pé do ouvido: Baladas para Leitores e Rincon Sapiência

Por Lilian Martins*

Por aqui, a coisa tá preta! Logo, subvertendo o sentido negativo da expressão arraigada de preconceito, o que vem a seguir, nestas linhas, é algo muito bom. Se a cor preta já foi sinônima de fato ruim, hoje, é expressão de luta e resistência do movimento negro a fim de representar algo positivo e de alto valor estético e cultural. Se essa nova concepção – ainda – não chegou até você, eis o meu convite para conhecer e ouvir um dos seus principais adeptos, o artista brasileiro, considerado um dos mais promissores da cena rap, Danilo Albert Ambrosio ou, simplesmente, Rincon Sapiência, o Manicongo.

Escute: “A coisa tá preta”:

O paulistano da zona leste, de 31 anos, chegou para resfolegar a nossa música popular brasileira. Seus clipes já somam 6,7 milhões de visualizações no YouTube, seu disco de estreia Galanga Livre (2017) traz influências da negritude que vão desde a capoeira até o blues, passando pelo coco e pela tropicália, até o afrobeat. Funk, samba, tambor africano e batida eletrônica tudo misturado no melhor sabor brasileiro.

E já que o assunto é Brasil, o músico estampa a cara do país em sua mais dura realidade na canção: “Coisas de Brasil”. É a melhor e mais atual imagem de uma nação dividida entre ricos e pobres, omitida – propositalmente – pela grande imprensa em favor das classes dominantes: “Nem tudo é verdade na televisão”, alerta Sapiência e nos diz também sobre a influência norte-americana no país, seja na política, seja na cultura de massa. O rapper desconstrói o estereótipo da cultura brasileira reduzida a terra do “futebol e glúteo” e escancara, na real malandragem de quem é mais um subversivo, a vida dura e combalida do povo brasileiro.

Ouça: “Coisas de Brasil”:

A influência da literatura está na faixa: “Crime Bárbaro”, criada a partir de um conto de sua própria autoria em que relata a história do escravo Galanga, nome do álbum e uma alusão ao monarca africano que, escravizado no Brasil, conquistou a liberdade e se tornou Chico Rei, símbolo da afirmação do povo negro. As leituras do artista são muitas, ele é um apaixonado declarado por anime, mangá e quadrinhos nacionais. Pelo teor literário de suas canções, repletas de posicionamento político-ideológico, Rincon Sapiência já foi criticado de “MC acima da média”. Mas, ele surpreende mesmo é na forma como articula essas referências, que incluem também cinema e MPB, com as da Cultura Pop e de massa de forma nada tradicional e caprichosamente atraente para esses públicos supostamente tão diferentes.

Observemos o exemplo da canção “Vida longa”: “O gueto sempre quis / Que chore só guitarras / Tipo Jimmy Hendrix / Onde há fogo, há fumaça / Sinto pelo faro / Infelizmente Bolsonaro não é tipo raro”, uma mostra de que a rima de Sapiência é inteligente e mordaz, suas letras investem na crítica social, na luta contra o racismo e no combate a apologia da violência. A luta de classes estampada no verso: “Batemos tambores, eles panela” de “Ponta de Lança” é uma crítica direta aos manifestantes que bateram panela pró-impeachment no Brasil. Na mesma música contra o assédio e a favor dos direitos das mulheres, Manicongo canta: “Se tem permissão, tamo dando sarrada”, ou seja, sexo só com consentimento, é essa permissão que evoca a conquista e não o abuso, é uma ode pelo fim da cultura do estupro!

Rincon Sapiência

Ao conclamar “Os preto é chave, abram os portões!”, o músico não só ressignifica o movimento “Black is Beautiful” como faz de sua voz o eco das periferias, do povo excluído nas baixadas e nas comunidades de norte a sul deste país, antenado na última série da Netflix, e que se movimenta, através das redes sociais, exigindo seu espaço de sociabilidade com os rolezinhos e faz dos saraus, nas periferias, seu próprio centro cultural. Onde o Estado não chega e as facções proliferam seus tentáculos criminosos, Sapiência estende mão fraterna e língua afiada contra as injustiças sociais, mostrando ao “pivete” que ele pode ir mais além, que o tráfico de drogas não é a sua única opção e que a saída para sua ascensão social existe na batalha de quem conquista o outro extremo da ponta de lança.

Escute “Ponta de Lança”:

Aumenta o som e boas Leituras.

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Confira também nossa playlist no spotify:

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*Lílian Martins é jornalista, tradutora, professora, pesquisadora e militante em Literatura Cearense. Mestre em Literatura Comparada pela UFC com a dissertação: “Com saudades do verde marinho: O Ceará como território de pertencimento e infância em Ana Miranda”, vencedora do Prêmio Bolsa de Fomento à Literatura da Fundação Biblioteca Nacional e Ministério da Cultura (2015) e do Edital de Incentivo às Artes da Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor) em 2016. É uma apaixonada por rádio, sebos, pelos filmes do Fellini, os poemas de Pablo Neruda e outras velharias…

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