Leituras da Bel

Clássico de Dostoiévski, O Idiota é vertido para os quadrinhos

O trabalho de André Diniz nos últimos anos teve uma sequência de rasgos, reescritas, reconstruções e mudanças de ótica. O quadrinistra brasileiro radicado em Portugal é responsável por um dos produtos artísticos que mais tem chamado atenção da cena literária em 2018: a versão em quadrinhos do clássico livro O Idiota, escrito pelo russo Fiódor Dostoiévski. O processo, que começou em 2010 e só foi concluído em 2016, teve o resultado publicado pela Companhia das Letras.

 

Um traço difere a obra original de sua versão. Enquanto o livro publicado por Dostoiévski em 1869 chega a ter 688 páginas em algumas edições, a história em quadrinhos gestada por André Diniz possui número reduzido de vocábulos. “O maior desafio, sem dúvida, foi traduzir um livro verborrágico para uma versão onde quase que só os desenhos iriam contar toda a história. Passar do ‘contar uma história’ (literatura) ao ‘mostrar uma história’ (cinema e quadrinhos), e um ‘mostrar’ em último grau”, explica o quadrinista, que teve o primeiro contato com o escritor russo aos 14 anos de idade, quando leu uma reescritura de Crime e Castigo, feita pelo autor brasileiro Carlos Heitor Cony.

O Idiota

São 416 páginas na versão em quadrinhos de O Idiota e, destas, menos de 100 têm algum discurso ou diálogo. É na força das imagens, nas expressões e nos nuances que André segue contando a jornada do príncipe Líev Míchkin. “O desenho do quadrinho permite um grau de ‘expressionismo’ que ajuda a trazer emoções e sensações ao leitor não só mostrando ações e expressões, mas também com a distorção dos ângulos e perspectivas, com a irregularidade do traço, com a forma na qual os quadros e elementos ocupam a página”, aponta o quadrinista. E lembra: “no romance, as sensações são descritas. No quadrinho, o leitor precisa senti-las”.

Na história original, o protagonista fica trancafiado em um sanatório, localizado na Suíça, para cuidar de uma epilepsia. E, quando retorna ao país de origem, a Rússia, precisa conviver com as regras sociais da elite marcada pelo fim do século XIX. Quem já encarou a missão de ler a narrativa de Fiódor Dostoiévski sabe que Líev Michkin tem um nível de perturbação e de assombramento que chegam a assustar. Essas marcas do protagonista são trabalhadas com maestria com André Diniz, que utiliza o preto e o branco – com fortes referências à xilogravura – para reforçar as particularidades do personagem. É nos espaços vazios que André Diniz constrói as melhores partes de sua versão. O quadrinista cumpre a missão que se propôs em 2010: parte da obra de Dostoiévski para criar um objeto estético inovador, coeso, diferente e, ao mesmo tempo, mantendo o respeito pela obra original.

O AUTOR – ANDRÉ DINIZ

É carioca, nasceu em 1975 e tem mais de 30 obras no currículo. Destaque para Fawcett, 7 vidas, O quilombo Orum Aiê, Duas luas, Que Deus te abandone, Morro da favela e para o recente Matei Meu Pai e Foi Estranho. Reside em Lisboa, Portugal, onde se dedica a criação ficcional e a participação em festivais de arte.

SERVIÇO
O Idiota em quadrinhos
Autor: André Diniz
416 páginas
Selo Quadrinhos na Cia
Editora Companhia das Letras
Quanto: R$ 59,90

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