Leituras da Bel

Ao pé do ouvido: Baladas para Leitores e Djamila Ribeiro

Por Lilian Martins*

Quem tem medo do feminismo negro? A pergunta aparentemente ingênua é uma provocação, sobretudo, aos “especialistas em opinião”, sujeitos que falam muito sobre tudo e não sabem de quase nada do que dizem. A indagação incômoda que não quer calar nestes dias, cada vez mais intolerantes, envolve dois temas extremamente necessários para se entender o lugar de fala das minorias: racismo e feminismo. Dada à complexidade que os envolvem, ambos não passam imunes em quaisquer conversas sem antes atrair polêmicas e cisões.

Mas, afinal, quem é essa mulher negra, de origem humilde e proletária, responsável pela obra que traz como título um dos atuais questionamentos mais difíceis da sociedade brasileira? Ela é Djamila Ribeiro (1980), autora do livro: “Quem tem medo do feminismo negro?”. A obra lançada, este ano, pela Companhia das Letras, questiona a linguagem eurocêntrica e denuncia, definitivamente, as máscaras do patriarcado sobre cada uma de nós, mulheres, em uma linguagem simples, sem academicismos e a partir de situações recentes da história brasileira.

Djamila Ribeiro

O livro rompe com o silêncio de mulheres secularmente oprimidas e ridicularizadas pela cor de sua pele, mulheres estas que não toleram mais outras pessoas falando por elas, pessoas brancas como eu! Por isso, peço licença a Djamila e a tantas outras mulheres estigmatizadas por serem mulheres e negras para falar de como a música ajudou a autora entender e reconhecer o feminismo em sua vida e de como essas músicas constroem uma narrativa melodiosa por cada página, entoando um ritmo forte e corajoso ao passo que a leitura avança.

Escrito a partir da compilação de artigos publicados no blog da Carta Capital, entre 2014 e 2017, a obra traz uma introdução autobiográfica e inédita, da própria Djamila, que deixa qualquer opressor com dor no fígado de tamanha náusea. Aliás, náusea é o início de toda essa história que evoca o desconforto Sartreano que somente tinha como lenitivo Billie Holiday.

Ouça “The man I love” de Billie Holiday:

 

Djamila Ribeiro

Tal qual o filosofo francês, Djamila tem sua náusea dissipada quando escutava e desfrutava da companhia de sua avó e, posteriormente, com Alice Walker (1944), autora de “A cor púrpura” (1982), quando Djamila passa a desenvolver uma relação forte com a música e aprende o significado de sisterhood que quer dizer irmandade entre mulheres, ao ouvir “Miss Celie’s Blues”:

Segundo a própria Djamila: “o que aprendi com cantoras e cantores de blues e samba foi mais profícuo do que o que aprendi com muitos textos”. Desta maneira, a escritora cita uma lista de canções sobre a luta dos direitos civis que assim como lhe serviram de inspiração, também nos trará: “uma força encorajadora de luta”. O set list inclui: “A Change Is Gonna Come” na voz de Otis Redding; “Respect” na de Aretha Franklin; “The Greatest Love of All” na de Whitney Houston e “Conselho” na de Almir Guineto.

Ouça “Respect” com Aretha Franklin:

Na interpretação de Almir Guineto, ouça o samba “Conselho”:

Essas canções foram cuidadosamente selecionadas do documentário: “Cantando a Liberdade” (2009) do qual Djamila cita em seu livro, bem como também constrói a sua asseveração quanto feminista negra a partir da compreensão da “música como afirmação metafísica da liberdade”. Para os amantes do samba e do blues e, principalmente, para os desejosos em aprender mais sobre como se desconstruir dessa educação eurocêntrica, machista e arraigada em uma série de estereótipos não condizentes com a realidade da cultura e do povo brasileiro,

Djamila Ribeiro é a minha indicação bibliográfica!

Aumenta o som e Boas Leituras!

*Lílian Martins é jornalista, tradutora, professora, pesquisadora e militante em Literatura Cearense. Mestre em Literatura Comparada pela UFC com a dissertação: “Com saudades do verde marinho: O Ceará como território de pertencimento e infância em Ana Miranda”, vencedora do Prêmio Bolsa de Fomento à Literatura da Fundação Biblioteca Nacional e Ministério da Cultura (2015) e do Edital de Incentivo às Artes da Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor) em 2016. É uma apaixonada por rádio, sebos, pelos filmes do Fellini, os poemas de Pablo Neruda e outras velharias…

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