Leituras da Bel

“O dia em que matei o meu amor”, texto da escritora cearense Kah Dantas

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Ilustração: Fabiano Seixas Fernandes

Por Kah Dantas*

Eu matei o meu amor no mês de setembro. Usei arma branca, algumas mágoas e uma ferida recém-aberta, essas últimas combinadas em química venenosa e inominável, adicionada ao copo que ia sobre a mesa. Os cachorros uivavam para as sombras lá fora, sentindo o cheiro da morte e prevendo os espasmos de dor. Os meus e os do meu amor.

Aproveitei-me de uma bebedeira. Primeiro, eu o sufoquei até que ficasse inconsciente, minhas lágrimas empapando o travesseiro e toda a força que eu já tive na vida concentrada nas minhas mãos trementes. Quando ele estava desacordado, eu o fiz sangrar pela artéria, ouvindo o seu coração viver pela última vez e enquanto eu acabava de amá-lo.

Tive cuidado para não escorregar, que um amor assassinado sangra mais do que um querer comum ou morto por causas naturais – ou do que nós mesmos, quando ferimos isto que chamamos de corpo.

Arranquei-lhe o maior órgão à faca e deixei para trás o coração, puxando o couro com força, com força, para uma última missão.

 

Estirei no chão a pele pouca, parecia tanta quando estávamos um no outro!, e comecei a escrever nela, com a tinta vermelha abundante:

“Que triste, amor, que triste amor!
Que nem um poema você me deixou!”

E eu cantei com os olhos inchados das abelhas e de quem enxerga o mundo feito manchas.
Estava feito!

Enterrei os restos em lugar para onde não tem mapa e espantei os fantasmas em ritual com um espelho e alguns palavrões.

Deixei ficar apenas a pele riscada de lembrança, não em homenagem à sua vida e morte, mas à minha voz quando virou canção.

{Este texto foi escrito em uma madrugada insone, parido igualzinho a uma gravidez desconhecida e que se revela em hora mais inesperada. Era gato miando, galo cocoricando e cachorro latindo feito a peste, enquanto eu sofria, mais uma vez, por ter comigo pensamentos maiores do que a cabeça podia suportar. Então eu comecei a escrever.}

***

Kah Dantas é cearense, professora e escritora. É autora do livro Boca de Cachorro Louco, tem alguns contos publicados e premiados em concursos literários nacionais e apresenta seus textos nos canais intitulados Conta, Kah!, no blog Orgasmo Santo e aqui no Leituras da Bel.
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Fabiano Seixas Fernandes é ilustrador, tradutor e poeta. Fundador da tradizer: serviços de tradução. Entre 2012 e 2015, publicou o blogue pequeninos (poesia autoral); publica o podcast quase uma Bethania (recitação de poesia). Traduziu poemas de John Milton para o português (L’Allegro, Il Penseroso, excertos de Comus e Paradise Lost).
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