Leituras da Bel

Entre sentimentos e sobrevivências, a rapper cearense Má Dame lança o EP No Fio da Navalha

Quando ouvimos os versos de Má Dame, Fortaleza se transforma em “Guernica” – um dos quadros mais emblemáticos da obra de Pablo Picasso. O artista espanhol traçou os bombardeios e os horrores da guerra em 351 x 782,5 cm. É a medida exata para entender o horror de gentes, de paisagens e de dias dilacerados pela violência. Má Dame, por sua vez, cria do “país” Quintino Cunha, utilizou cinco músicas para expor a guerra que atinge Fortaleza todos os dias. A rapper lançou o EP “No Fio da Navalha” nas plataformas digitais, produção que vinha sendo gestada e aguardada no circuito da capital cearense desde 2017.

“Estar no fio da navalha é estar sempre por um triz, no limite da borda, à margem da margem. Acredito que a juventude de Fortaleza, assim como a de qualquer outra metrópole, esteja, sim, no fio da navalha. E até arrisco dizer que toda a juventude do Brasil está no fio da navalha, mais uma vez”, pontua Dame, em entrevista. A rapper faz parte de uma geração que se completa e se destroça através da própria produção estética. “Além de nossas experiências de coletividade serem bem próximas, seja através da literatura, da música e da produção cultural, temos uma boa relação e vamos transando nossas artes e vivências”, explica Má Dame.

Nesse grupo estão nomes como Talles Azigon e Mateus Fazeno Rock – artistas amplamente apresentados em matérias anteriores do Vida&Arte. São criadores culturais que utilizam Fortaleza como cenário orgânico para a produção de canções e de poesia. “Vejo o que vem acontecendo. E isso vai além da nossa Cidade. Cada vez mais temos buscado referências na nossa cultura, no nosso local”, diz Má Dame. A rapper se considera uma criação do movimento de saraus e rolezinhos.

É bebendo nessas fontes que o álbum “No Fio da Navalha” foi ganhando forma ao longo de anos. Muito mais tempo do que os ouvintes habituais da rapper gostariam de ter esperado pela obra – composta pelas músicas “Amitrila”, “Holocausto Capital”, “Lágrimas Maternas”, “Andanças” e “No fio da navalha”. “O EP apresenta uma Fortaleza marginalizada, caótica e incendiária que entre becos e avenidas, barracos e prédios, tenta sobreviver. A Fortaleza dos saraus, dos reggaes, das batalhas de rap e demais movimentos de cultura de favela que verdadeiramente resistem e insistem na arte, e seguem acreditando nela”, explica Má Dame durante a entrevista.

Mais do que reclamar das feridas de guerra, entretanto, o álbum mostra uma cidade composta por pessoas que sabem, sempre, equilibrar os passos para continuar vivendo dia após dia. Logo no início, a rapper anuncia: “Não é Rio de Janeiro, bem-vindos à Fortaleza”. E assim seguem as cinco canções – mostrando que o jogo não tem pausa para as populações que vivem em permanente situação de vulnerabilidade. Mas a rua é o escritório de Má Dame e, também, o lugar que mais ensina. Por isso, juntas, as cinco canções mostram a face esquerda de uma artista que não nega sua essência, não nega os seus, não degenera. E, acima de tudo, sabe transpor uma Cidade pouco vista e muito maltratada em forma de poesia e música.

“Tem acontecido uma onda de criações e expressões no cenário artístico de Fortaleza que tem nos permitido entender e, de fato, enxergar as diversas caras e cores dessa cidade – e os discursos que carregam. Seja por colagens, poesia, dança, estamos redesenhando tudo isso de forma mais nua, crua e original. Nossa gente está redesenhando!”, finaliza Má Dame.

No Fio da Navalha

O EP começou a ser idealizado ainda em 2017, quando as letras foram escritas. Desde então, o processo criativo acontece em paralelo com a criação de beats feita com o 777ad -, mixagem e masterização executada por IaFi e por Aurora, produção assinada pela GainLab Studios e direção executiva feita pelo trio Igor Rangel (in memorian), Yasmin Rocha e Shoshandra.

O single do EP foi “Holocausto Capital” – que estreou através de um lyric video executado por Kathead e que antecedeu o álbum.

A identidade visual do EP também foi pautada no quadro “Guernica“, de Pablo Picasso. Dessa forma, as imagens possuem vários elementos em recortes de cada faixa musical. Juntas, elas compõem uma única obra. A concepção é de Má Dame, que contou com a execução do artista visual Fluxo Marginal.

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