Plínio Bortolotti

Marina Silva, uma floresta no meio do caminho

633 6

Devido à postagem anterior sobre a possível candidatura à Presidência da senadora Marina Silva pelo PV, o leitor “Carlos” deixa o seguinte comentário:  “Tá dando uma de Irmã Jurema, é? Ou esse é o tal de jornalismo de prateleira?”.

“Jornalismo de prateleira”  eu confesso não saber o que significa;  “Irmã Jurema” é uma conhecida “vidente” de Fortaleza. Portanto, o leitor crê que eu estou me dispondo a prever o futuro.

Análise é diferente de adivinhação – e também se afasta de qualquer tipo de torcida – contra ou a favor.

E lembro que escrever um blog não é o mesmo que produzir uma matéria. Neste, está implícito, eu posso dar a minha opinião, respeitada a verdade factual. Ainda assim, não dei opinião na postagem anterior e nem vou dar neste: informei o fato e fiz uma análise.

Portanto, vamos separar as coisas:

1 – A verdade factual [o fato]: a senadora petista Marina Silva cogita a possibilidade de deixar o seu partido para filiar-se ao PV [Partido Verde] para concorrer à Presidência da República.

2 – A análise: a candidatura dela trará grandes dificuldades ao PT. Dificuldades maiores se a escolhida do presidente Lula para concorrer à Presidência, Dilma Roussef, tivesse de enfretar o outro candidato da “base aliada” que está se dispondo à corrida presidencial: Ciro Gomes [PSB].

3 – Algumas razões: a) Marina é militante histórica do PT e da causa do meio ambiente. O seu trabalho é reconhecido internacionalmente, basta ver a repercussão que causou a sua saída do Ministério do Meio Ambiente; b) em uma campanha, o PT não poderá atacá-la. Os outros candidatos não terão interesse em fazê-lo: mesmo se quisessem, seria difícil encontrar algo que pudesse atingi-la; c) Marina, por sua vez, não vai atacar ninguém, mas, por si só, os temas que ela levantará vão causar incômodo profundo, principalmente no PT; d) apesar da longa militância, ela será a “novidade” da eleição; e) ela vai atrair a simpatia de petistas desiludidos com os rumos do partido e de outros setores da esquerda, meio perdida, que encontrará um novo discurso para se revigorar e uma boa causa para defender; f) a candidatura dela vai atrair a simpatia de  organizações e militantes do meio ambiente do mundo inteiro – e a atenção da imprensa internacional.

[Existe também, ainda que muita gente possa desconsiderar – devido à brutalidade da política -, um componente psicológico; os laços pessoais e de amizade camaradagem que se formam ao longo do tempo, principalmente em relação a uma militante do estilo de Marina Silva que, por si só, representará um baque na militância do PT.]

É por isso que as principais lideranças do PT vêm se movimentando para manter a senadora no partido. E podem esperar que o próprio Lula, se o orgulho ferido não falar mais alto, vai entrar na turma do “fica Marina”.

Marina Silva, mesmo defendendo o PT; mesmo dizendo que o governo Lula fez mais do que qualquer outro pelo país; mesmo reconhecendo que o governo petista agiu para melhorar as condições de vida dos mais pobres; mesmo assim, a candidatura de Marina, por si só, será um dedo acusador – certo ou errado – em direção ao PT dizendo que o partido não está à altura das necessidades históricas – não somente dos trabalhadores – mas da própria humanidade.

Recomendado para você