Plínio Bortolotti

Novo presidente da Abraji explica conceito de jornalismo investigativo

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Fernando Rodrigues, presidente eleito da Abraji para o biênio 2010-2011, respondeu a três perguntas que lhe enviei sobre as atividades da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. Ele esclarece o conceito de jornalismo investigativo, expondo os principais objetivos da Abraji.

Rodrigues, que substituirá Angelina Nunes [O Globo] na presidência da Abraji,  é repórter da Folha de S. Paulo desde 1987; atualmente na sucursal de Brasília. Assina a coluna “Brasília” no jornal e mantém um blog no portal Uol.

1. Muitos questionam o termo “jornalismo investigativo”, alegando que o jornalismo é investigativo por definição. O que teria, então, a Abraji diferente de outras associações que se dedicam ao desenvolvimento do jornalismo?

Fernando Rodrigues. Se me permite, gostaria de ajudar a propagar o significado da expressão “jornalismo investigativo”. O termo deriva de seu congênere em inglês, “investigative journalism”. Assim como no Brasil, nos países de língua inglesa muitos também consideram essa designação um pleonasmo. Afinal, todas as atividades jornalísticas embutem alguma dose de investigação (do redator que liga para um cinema para confirmar o horário das sessões num determinado dia até o repórter que passa meses vasculhando a vida de um político corrupto). Ainda assim, o “investigative journalism” (ou o jornalismo investigativo) consolidou-se no mundo todo como sinônimo de bom jornalismo, de reportagens profundas, alentadas, que procuram esgotar um determinado assunto.

É importante ressaltar que o jornalismo investigativo nem de longe se restringe ao repórter que sai à rua para buscar a informação. Fazem parte indissociável do processo o pesquisador do banco de dados do jornal que prepara todo o material de apoio, o redator que ajuda na checagem de informações e na preparação de textos de apoio, os editores e subeditores que orientam os repórteres e depois arbitram sobre a distribuição dos textos pela página (no caso de meios impressos), os artistas gráficos e arte-finalistas que traduzem em material iconográfico a reportagem. Enfim, todos os envolvidos numa grande reportagem estão fazendo jornalismo investigativo. Não importa se é a cobertura de uma CPI no Congresso, de um megashow de rock no Maracanã ou de uma enchente no Sul do país.

É nesse contexto que a Abraji atua. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo deseja discutir, debater e encontrar sempre os melhores caminhos para que a profissão possa ser bem exercida, em todos os seus detalhes.

A Abraji tem sua missão claramente descrita em seu estatuto. Eis as Fernando Rodriguesatividades que desenvolve: “1) promoção e organização de cursos e seminários de formação, especialização e reciclagem profissional; 2) intercâmbio de informações e experiências profissionais, por intermédio de congressos, encontros, de sítios na internet, bancos de dados, bibliotecas e publicações; 3) estímulo ao jornalismo investigativo, mediante concessão de bolsas de estudo, financiamento de projetos de investigação e prêmios; 4) apoio ao uso dos recursos do computador (planilhas, gerenciadores de bancos de dados, ferramentas de pesquisa, etc.) na reportagem investigativa; e 5) defesa da democracia, do livre exercício do jornalismo investigativo e da liberdade de expressão.Entre suas prioridades estão a defesa da transparência nos negócios públicos e a garantia de livre acesso às informações dos órgãos públicos”.

A Abraji é totalmente sem fins lucrativos e nenhum tipo de vínculo político partidário. A Abraji também não é uma entidade sindical. A Abraji, entretanto, mantém excelente relação com a Fenaj [Federação Nacional dos Jornalistas], com sindicatos de jornalistas e com a ABI [Associação Brasileira de Imprensa]. Finalmente, a Abraji acredita que possa contribuir para procurar melhorar continuamente o padrão do jornalismo praticado no Brasil.

2. Qual a contribuição concreta pode dar uma entidade como a Abraji para o jornalismo brasileiro?

FR. Ao promover encontros, seminários e cursos, a Abraji pretende fomentar a discussão entre os jornalistas a respeito de quais são as boas práticas a serem seguidas no dia a dia do profissional da área. O uso de novas tecnologias tem sido fundamental para qualquer jornalista neste início de século 21. A Abraji se orgulha de ser pioneira nesse tipo de treinamento no Brasil.

Do ponto de vista externo ao mundo exclusivamente jornalístico, a Abraji também lidera uma ampla campanha por uma lei de direito de acesso a informações públicas no Brasil. A entidade ajudou a fundar uma coalizão de mais de 20 outras associações da sociedade civil, o Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas. O Fórum atua desde 2003 como promotor do debate sobre esse tema.

3. Quais os principais trabalhos que a Abraji pretende desenvolver em 2010?

FR. O principal evento do calendário da Abraji é o seu congresso, cuja periodicidade pretende ser anual. É o que tem ocorrido nos anos recentes. Em 2010, a organização pretende novamente fazer do congresso um ponto de encontro para jornalistas de todo o Brasil, para autoridades interessadas em debater como se faz bom jornalismo e para convidados do exterior. Em 2009, cerca de 600 pessoas participaram do evento.

O Congresso da Abraji vem se tornando um grande fórum de discussão e também de treinamento de jornalistas, pois há várias oficinas práticas durante o evento. Tudo é realizado da maneira mais aberta possível, sem nenhum tipo de conotação político partidária.

Além do seu Congresso, a Abraji promove cursos e seminários sobre uso de computador em reportagens, seminários sobre direito de acesso a informações públicas.

No dia a dia, o associado da Abraji tem acesso à área reservada do site da entidade e também pode participar da lista de discussão entre os filiados. A lista de discussão é uma ferramenta útil para jornalistas. Profissionais de todas as áreas podem enviar uma mensagem perguntando como encontrar determinada informação e os outros colegas, em várias partes do Brasil, em geral se oferecem para dar dicas e sugestões. Há um nível de colaboração difícil de encontrar no meio jornalístico. Os associados da Abraji têm cada vez mais aperfeiçoado a colaboração e o respeito mútuos. [Grifei]

Conheça a nova diretoria da Abraji.

Presidente

Fernando Rodrigues, 46, trabalha na “Folha de S.Paulo”, UOL e rádio Jovem Pan. Está baseado em Brasília. É o atual vice-presidente da Abraji. Coordena o Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas. Na Folha, foi editor de economia e correspondente em Washington, Nova York e Tóquio. Ganhou quatro prêmios Esso.
Web: site www.politicosdobrasil.com.br;
blog http://uolpolitica.blog.uol.com.br/
Twitter http://twitter.com/fr_bsb
frodriguesbsb@uol.com.br

Vice-presidente

Marcelo Moreira, 40, é editor-chefe do RJTV segunda-edição, telejornal local da TV Globo no Rio de Janeiro. Começou a carreira como repórter no jornal A Notícia em 1991. Em 2006, foi eleito membro do conselho da International News Safety Institute (INSI), ONG criada pela Federação Internacional dos Jornalistas e que trabalha para garantir a segurança dos profissionais de imprensa em todo o mundo.
marcelo.moreira@tvglobo.com.br

Diretores

Alon Feuerwerker, 54, é colunista do Correio Braziliense, editor do Blog do Alon e apresentador do programa Jogo do Poder, na CNT. Iniciou nos anos 80 na imprensa alternativa (Movimento, Voz da Unidade) e trabalhou depois na Folha de S.Paulo, Grupo Abril e UOL.
alon@blogdoalon.com

Angelina Nunes, 50, é editora assistente da Editoria Rio do Globo, onde coordena o grupo de Administração Pública. Entrou no Globo em 91, depois de ter trabalhado em produtora de vídeo, em rádio, em TV e no jornal O Dia. Tem vários prêmios, entre eles Embratel, Rey de España, Esso de Jornalismo, IPYS/Transparência Internacional (menção especial), SIP (categoria Jornalismo de Profundidade) e Vladimir Herzog. É a atual presidente da Abraji.
Web: http://notabuleirodaangelina.blogspot.com
twitter: twitter.com/angelinanunes
angelina@oglobo.com.br
nunes.angelina@gmail.com

Claudio Tognolli, 46, é professor da ECA-USP e da Unifiam-Faam, repórter das revistas Rolling Stone, Joyce Pascowitch e do site Consultor Jurídico. Trabalhou em Veja, Folha de S. Paulo, Rádios CBN, Eldorado e Jovem Pan, Jornal da Tarde, AOL. Foi correspondente da Folha nos EUA. Ganhou os prêmios Esso, Jabuti, Folha de Jornalismo e do Departamento de Estado dos EUA. É membro do International Consortium of Investigative Journalism e diretor da Abraji.
claudiotognolli@gmail.com

Evandro Spinelli, 37, é repórter da Folha de S.Paulo responsável pela cobertura jornalística da Prefeitura de São Paulo desde 2006. Já trabalhou nos jornais A Cidade (Ribeirão Preto), Diário da Região (São José do Rio Preto) e Bom Dia (São José do Rio Preto e Jundiaí), todos no interior de São Paulo. Ministrou cursos sobre RAC e cobertura da administração pública para jornalistas em eventos organizados pela Abraji e pelo Knight Center.
Twitter: twitter.com/evandrospinelli
evandro.spinelli@grupofolha.com.br

Ivana Moreira, 38, é correspondente do jornal O Estado de S. Paulo em Belo Horizonte. Foi correspondente por oito anos do jornal Valor Econômico, na mesma cidade. Entre 1995 e 2000, em São Paulo, foi repórter de Cidades e Política em sua primeira passagem pelo Estadão. Em 1998, foi repórter-intercambista do jornal americano The Miami Herald, da Flórida (EUA). Vencedora (em equipe) do prêmio Ayrton Senna de Jornalismo de 1998. É diretora da Abraji.
ivanamoreira@hotmail.com

Liège Albuquerque, 39, é correspondente há quatro anos do Estadão no Amazonas e professora de técnicas de reportagem na Uni Nilton Lins. Iniciou a carreira em jornais do Amazonas, como A Crítica e Amazonas em Tempo. Trabalhou em São Paulo e Brasília no Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, O Globo, Veja e Folha de S. Paulo. Há seis anos, de volta a Manaus, teve nova passagem por A Crítica e pelo Diário do Amazonas. É diretora da Abraji.
liegealbuquerque@gmail.com
liege.albuquerque@uol.com.br
liege.peres@grupoestado.com.br

Plínio Bortolotti, 53 anos, é diretor institucional do Grupo de Comunicação O POVO, onde entrou como repórter em 1997. Atualmente mantém comentário na rádio O POVO/CBN, escreve em um blog que leva o seu nome, e é articulista do jornal O POVO, do qual foi ombudsman por três mandatos [2005 a 2007].
Web: www.opovo.com.br
Blog: http://blog.opovo.com.br/pliniobortolotti/
Twitter: http://twitter.com/plinioce
plinio.pab@gmail.com

Marcelo Beraba, 58, é editor-chefe do Estado de S. Paulo. Trabalhou no Globo, no JB, na TV Globo e na Folha, onde exerceu, entre outras, a função de ombudsman. É um dos fundadores e foi o primeiro presidente da Abraji. Recebeu em 2005 o Prêmio Excelência em Jornalismo do International Center for Journalism (ICFJ). Atualmente é diretor da Abraji.
mberaba@uol.com.br

Mauri König, 43 anos, é graduado em Letras e Jornalismo, e pós-graduado em Jornalismo Literário. Atualmente é repórter especial da Gazeta do Povo, de Curitiba.
maurik@gazetadopovo.com.br

Conselho fiscal

Ana Estela de Sousa Pinto, 44, é editora de Treinamento da Folha (e adora esse trabalho). Foi repórter, redatora, editora-assistente, editora e secretária-assistente de Redação na Folha; foi secretária de Redação dos cadernos regionais da Folha e editora-chefe da Folha da Tarde. Tem uma filha de 12 anos (além dos 349 trainees que já passaram por aqui), uma cadela golden retriever e um marido (adivinhem?) também jornalista. É diretora da Abraji.
Web: http://novoemfolha.folha.blog.uol.com.br/
Twitter: http://twitter.com/anaestela
ana.estela@grupofolha.com.br

Luciana Kraemer, 39, é professora do Centro Universitário Metodista IPA e da Universidade do Vale dos Sinos (Unisinos), São Leopoldo. Trabalhou durante 15 anos na RBS TV – Núcleo Globo – Porto Alegre. Em 2008, ganhou Menção Honrosa no Prêmio Tim Lopes de Jornalismo Investigativo e uma bolsa para a produção de uma série de reportagens que mostravam a exploração sexual de crianças e adolescentes em cidades que receberam grande obras.
lukraemer@terra.com.br

Thiago Herdy, 26, é repórter de política do jornal Estado de Minas. Formado em jornalismo pela PUC Minas, trabalhou no Diário da Tarde e no Diário do Comércio. Vencedor (em equipe) dos prêmios Esso 2008, categoria regional, e IPYS/Transparência Internacional 2009 (menção especial).
thiagoherdy@gmail.com

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7 Comentários

  • nelson castelo branco eulálio filho disse:

    Como se pode observar, a Diretoria é quase toda do eixo Folha/Estadão/Globo (e congêneres), e a julgar pelos artigos que esse senhor Fernando Rodrigues (juntamente com Clóvis Rossi, Eliane Cantanhêde e cia.) vem escrevendo na Folha e o novo (e, a meu ver, péssimo) caminho que a própria Folha de São Paulo resolveu trilhar, o mínimo que se pode dizer dessa nova administração é que se deve ficar antes como receio do que feliz com os rumos que pode seguir.

    Mas, enfim, eu não sou jornalista e não tenho nada a ver com uma Associação de jornalistas; me preocupa apenas os rumos que a imprensa (a grande imprensa) do meu país resolveu trilhar.

  • nelson castelo branco eulálio filho disse:

    “a circulação dos jornais no eixo Rio, SP, Brasília está estaganada; os jornais de outras capitais cresceram 41%; no interior, a taxa é ainda maior, 61%; no caso dos jornais populares, 120%; esse processo será alargado ainda mais com o plano nacional de banda larga que terá como objetivo levar a Internet de alta velocidade a todos os lares do Brasil […]

    quanto maior a inclusão digital maior será a demanda por conteúdo…a indústria da comunicação sempre trabalhou com um modelo vertical: alguns poucos escreviam e falavam para muitos que apenas ouviam, liam ou assistiam […]

    Havia um núcleo ativo de produtores e uma massa passiva de consumidores […] (com a Internet) o poder de interferência dos leitores que era quase nulo deu um salto espetacular. Os consumidores de informações estimulados por blogs passaram a formar redes horizontais construindo convicções tornando-se mais críticos e menos passivos […] não são pequenas as consequencias desse processo…. ele não ameaça o jornalismo — ao menos o bom jornalismo[ …]

    (espero que essa conferência] estimule todos os candidatos, inclusive os candidatos a Presidente da República [no ano que vem], a se manifestarem sobre o tema, a exporem suas convições, propostas e idéias […]”

    (Presidente Lula, trechos de seu discurso na abertura da Confecom; 14-12)

    http://www.cartamaior.com.br/templates/index.cfm?idioma_id=1&alterarHomeAtual=1

  • carlos anselmo disse:

    o nelson castelo branco está coberto de razão.
    essa associação , tal como a esclerosada abert, é uma piada de mau gosto. é sintomático que esse rapaz não falou uma vírgula da confecom que se realiza desde ontem em brasília. heheheh!!!!

    a grande imprensa precisa mais é redefinir o seu negócio, haja vista a queda da circulação e o avanço inexorável da blogosfera.
    particularmente, aposto mais na confecom, não que ela vai resolver os problemas das comunicações do país, mas sim, vai desencadear o processo de discussão da democratização da mídia.

    o resto é conversa pra boi dormir.

  • carlos anselmo disse:

    salve, bortolotti,

    me perdoe pelo seu entendimento.
    o “esse rapaz” que me referi é simplesmente o entrevistado, o jornalista “investigativo” fernando rodrigues.
    longe de mim, lançar dúvidas sobre seus posts que, vez por outra, comento.

    abçs

  • nelson eulálio disse:

    Caro Plínio,

    Eu havia entendido perfeitamente que o Carlos Anselmo estava se referindo ao Fernando Rodrigues. Mas parabéns por reconhecer que fez uma “leitura ligeira” e, também, pela forma elegante de se desculpar.

    Mas veja só a quantas anda nossa imprensa:

    http://www.youtube.com/watch?v=PUnhRmW5O8s

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