Plínio Bortolotti

Por que uma oficina “autorizada” pela montadora agem assim?

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Nem pretendia contar essa história, que aconteceu entre dezembro do ano passado e o início deste mês de fevereiro. Com um pouco de tempo sobrando devido ao Carnaval, descrevi a história – deixei para publicá-lo agora, pois a farra carnavalesca terminou: é hora de voltar aos assuntos sérios.

Talvez esse problema pessoal sirva de alerta a outras pessoas.

Pois bem

Mandei para conserto o veículo que uso, um carro Gol, da Volkswagem. Foi em uma oficina comum [não é uma concessionária da montadora], mas um lugar de minha confiança. O problema que o carro apresentava era falha no motor, afogando com frequência e demorando a responder à aceleração.

Pois bem, o mecânico revisou o de sempre: velas, cabos, etc., sem achar o defeito. Suspeitou que o problema fosse em uma peça chamada “unidade de controle”. Uma peça cara, custando cerca de R$ 1.000,00. Antes de simplesmente trocá-la, ele mandou testar a peça, que estava [está] em perfeitas condições. Ele entregou os pontos, não conseguiu localizar o defeito: sugeriu-me que pedisse diagnóstico de outra oficina. [Não cobrou nada pelo trabalho.]

Levei a uma “autorizada”. Pouco depois recebo a ligação de um “consultor” dizendo que o problema era na tal unidade de controle, que era preciso trocá-la, junto com as velas, cabos e outras peças. Disse-lhe que o problema não era nessa peça, que já havia sido testada. Ele insistiu, mandei então que me fizesse o orçamento, mas que não dava certeza de que faria o serviço.

Ele disse que, caso não autorizasse o serviço, eu teria de pagar as “horas trabalhadas” do mecânico, algo em torno de R$ 200,00. Pedi, então, que me fizesse o orçamento por escrito e autorizei um serviço menor [a troca de um sensor da luz do freio] para evitar o pagamento das tais “horas trabalhadas” no diagnóstico.

O orçamento que ele me entregou do serviço principal, mandando trocar várias peças [inclusive a tal unidade de controle e velas que eu já havia trocado há menos de três meses] importou em R$ 2.200,00 [incluindo mão-de-obra].

De posse do orçamento, voltei à primeira oficina. O mecânico reafirmou: o problema não era aquele. Pediu para que eu deixasse o carro que ele faria um novo exame. Pouco depois me liga dizendo que havia descoberto que o defeito era a bobina de ignição, que bastou trocá-la para o carro funcionar perfeitamente [como está funcionando até hoje]: preço total, peça e serviço: R$ 315,00.

O mecânico ainda me disse o seguinte: que tinha quebrado a cabeça pois, inicialmente, tinha posto uma bobina da marca Magneti Marelli – e que o veículo continuava falhando ou não pegava. Fez algumas pesquisas e descobriu que algumas séries do Gol só aceitam a bobina Bosch, que é a original.

Então

1. Observando o comportamento das duas oficinas, uma “não-autorizada” e uma “autorizada” pela montadora observa-se que a primeira agiu de forma muito mais – digamos assim – adequada. Reconheceu que não era capaz de fazer o diagnóstico preciso e encaminhou-me para outra oficina.

2. E por que uma uma oficina autorizada pela concessionária age da maneira que agiu, cobrando muito caro por um serviço desnecessário e mandando que eu trocasse peças que funcionam perfeitamente?

4. Não quero dizer, de princípio, que houve má-fé deliberada. O que eu penso é o seguinte: as concessionárias, para fazer o negócio circular mais rapidamente, talvez ajam como aquele médico que, frente a qualquer queixa de dor, receitam uma dose cavalar de Buscopan; diante de uma simples dor de garganta, mandam o “paciente” tomar um antibiótico ou um antiinflamatório que pode curar desde uma pequena inflamação até um tumor supurado.

5. No caso que contei, o pior é que o problema nem seria resolvido. Se eu mandasse fazer o serviço na “autorizada” teria gastado R$ 2.200,00 e o veículo continuaria com o defeito original. Ao voltar lá, tenho a certeza de que a concessionária não reconheceria o erro, trocaria a bobina [mais, no mínimo, cerca de R$ 300,00], isto é, se descobrissem o problema – e o prejuízo ficaria por minha conta.

6. E mais: por que as montadora não fazem uma alerta informando que determinadas marcas de peça não podem ser usadas em determinados serviços nos seus veículos? Por que alguns pequenos defeitos – que já são do conhecimento das montadoras e concessionáras – somente são informadas quando a vítima leva seu veículo a uma oficina? Em um caso desses, muitas vezes simples, pode acontecer de o sujeito cair em uma oficina desonesta e ser obrigado a pagar por um serviço que não é necessário fazer.

[Guardo os documentos que comprovam os passos que relatei acima.]

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6 Comentários

  • Paulo Marcelo disse:

    Caro Plínio,

    já sofri várias vezes com este tipo de situação ao levar meu Gol para a concessionária a fim de fazer a revisão semestral (que é obrigatória se você quiser continuar com a garantia de 3 anos do motor). Afirmam que é preciso trocar várias peças desnecessárias e cobram o absurdo. O problema é que eu não conheço oficinas de confiança, onde eu possa confrontar o orçamento da concessionária. Não sei se convém, mas se puder mandar para meu email o nome da sua oficina.

    Abraço e parabéns pelo seu blog.
    Paulo Marcelo

    • pliniobortolotti disse:

      Caro Paulo,
      Você vai me desculpar, mas evito fazer indicação por dois motivos: 1) sendo eu jornalista pode parecer algum tipo de publicidade indevida; 2) quanto se trata de serviços, muitas vezes, o que é bom para uma pessoa não o é para outra. Espero que entenda.
      Mas consulte amigos ou leve seu veículo para mais de uma oficina; se não lhe dão um orçamento por escrito, anote as peças e os serviços que estão lhe sugerindo e confronte com o orçamento de outra oficina. Como disse, estou convencido que – pelo menos algumas autorizadas – agem pelo caminho mais fácil – mandam trocar tudo quanto é peça; de algum modo eles acertam no problema.
      Agradeço o seu comentário,

      Plínio

  • francisco paiva disse:

    Senhor Jornalista,

    Ao não revelar o nome da concessionária que lhe prestou serviço tão porco e tão pouco honesto, voce deixa seus leitores com a pulga atrás da orelha… O que o bom jornalismo teria a perder com uma informação completa? Ao agir assim, desculpe a franqueza, voce deixa espaço para que pensemos que a concessionária é a partir de agora devedora de favor a voce…
    Espero que voce não repare este comentário de quem admira quase tudo que voce publica no blog.

    • pliniobortolotti disse:

      Caro sr. Francisco,
      Não revelei o nome da concessionária, como também não disse o nome da oficina que me prestou bons serviços. Não devo nada a nenhuma das duas e nem fiz o post na intenção de cobrar-lhes algo, no sentido que o sr. sugere.
      Em alguns posts do blog, como não ouço todos as pessoas e entidades citadas, prefiro, às vezes, não fazer algumas identificações. Em outros, quando comprovo o caso – como é o caso de empresas que ocupam calçadas, das quais faço fotos, cito os nomes.
      O sr. veja que não classifico o procedimento da concessionária de “desonesto”; como disse, pode ter sido um erro [grave] de diagnóstico: fica o benefício da dúvida.
      De qualquer modo, agradeço o seu alerta. Vou fazer algumas consultas com colegas para reavaliar a situação.
      Fico agradecido pelas suas observações,

      Plínio

  • erico disse:

    Depois você pergunta pro seu mecânico se ele foi buscar a informação que faltava na internet, nos muitos fóruns de mecânica que existem.

    Uma coisa que deve ser reconhecida é que as montadoras sempre recomendam peças originais.

  • Mircio Alves disse:

    Não sei como é que ainda existem pessoas que entregam seus carros para as tais concessionárias. Só faço isso na primeira revisão e para constar no manual. Na verdade, apenas troco o óleo. Não aceito nem um outro serviço. Eu não diria que é roubo. É exploração de incautos.

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