Plínio Bortolotti

As novas mídias e o velho e bom jornalismo

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Ilustração de Carlus

O texto aspeado, abaixo, é um trecho de meu artigo publicado na edição de hoje (11/7/2010) do O POVO, caderno Vida & Arte.

Foi escrito para reportagem do jornalista Pedro Rocha, no qual ele aborda a transformação pela qual vem passando a mídia com o surgimento da internet.

Veja a matéria de Pedro Rocha, O amanhã é hoje, onde há link para os demais textos, inclusive para uma entrevista com Eduardo Tessler, diretor para o Brasil da Inovation Media Consulting.

Trecho de As novas mídias e o velho e bom jornalismo

«A primeira, uma frase que deveria ser dita na aula inaugural de qualquer faculdade de jornalismo e, depois, repetida diariamente: a notícia é um produto, mas não é um produto qualquer. Fizemos muito bem em abandonar as máquinas de escrever em favor do computador, mas não podemos abdicar de dar informação relevante aos leitores, pois essa é a essência do jornalismo e um dos esteios da democracia. Por esse critério, jornalismo, muitas vezes, é dizer aquilo que o público não quer ouvir.»

Leia o artigo completo.

As novas mídias e o velho e bom jornalismo
Plínio Bortolotti

Que o jornalismo passa por grandes mudanças – desde o surgimento dos novos meios eletrônicos de comunicação – ninguém duvida. Uma revolução equivalente àquela impressa, literalmente, por Johannes Gutenberg quando criou, nos idos de 1450, os tipos móveis de metal.

A internet é revolucionária: pela primeira vez na história da humanidade um único meio reúne texto, som, imagem e imagem em movimento. Ou seja, a internet é jornal, é rádio, é revista, é cinema, é televisão. É a junção desses meios em um único transmissor.

E, principalmente, é muito mais do que a simples soma desses fatores: a) o receptor/audiência deixa de ser passivo, também passa ser emissor – e o emissor/meio de comunicação, que se tornou também receptor, é obrigado a ouvir a audiência: a comunicação de mão única transformou-se em via de mão dupla; b) a audiência não está mais submetida aos critérios do emissor: lê/vê/ouve aquilo que quer, na hora que quiser e no formato que escolher: no telefone, no papel, na internet, no e-reader (leitor digital, pouco maior e mais espesso do que uma prancheta), no podcast (arquivo de som digital para ser ouvido em telefone ou aparelho apropriado) e em outras novidades que deverão surgir. O poder que a “velha” mídia tinha sobre o receptor (a audiência) reduziu-se de modo brutal.

De monólogo, a comunicação transforma- se em diálogo: um pouco áspero ainda, talvez pela falta de prática das partes em conflito. Dos jornalistas, pois não estavam acostumados a ser contrariados: podiam engavetar as reclamações, ignorar as críticas ou rasgar as cartas que eventualmente recebessem; dos leitores, talvez pela impaciência de quem, por tanto tempo, foi obrigado a ler e ouvir tudo calado, batendo em portas que não se abriam. Mas chegar-se-á ao equilíbrio: no começo, tudo é explosão, depois as coisas tendem a encontrar um leito por onde as polêmicas poderão correr de modo mais respeitoso.

Portanto, se a forma de transmitir notícia muda, se o leitor muda, obviamente a imprensa – aqui entendida como o conjunto dos meios noticiosos – também têm de mudar.

Mas, devagar com o andor.

A tecnologia não é panaceia para todos os males. Ela não vai superar, por si só, os problemas básicos do jornalismo, nem os que existem e nem aqueles acarretados pela internet. E, principalmente, não pode servir como desculpa para se desrespeitar os princípios básicos da profissão: ética, responsabilidade, compromisso com a verdade factual, contextualização, equilíbrio, espírito crítico e independência. Serão sempre esses os fundamentos do jornalismo onde quer que ele se expresse.

O que causa estranheza e incômodo é que muitos dos gurus da nova ordem em vez de dizerem: “O papel será superado por um suporte mais adequado, portanto pensemos alternativas quanto à forma e conteúdo relevantes”; parecem dizer: “Abandonem as notícias, pois isso é velharia”.

E gostam de dar exemplo mostrando como a carroça foi superada pelos veículos automotores. Apresentam como sucedâneo dos jornais uma mistura de notícia e entretenimento, que alguns teóricos chamam de “infotretenimento”: notícias que não incomodam ninguém (“beleza”, “saúde”, “variedades”, etc.) com uma profusão de imagens, infográficos e histórias em quadrinhos para substituir o texto. Não sou contra nada disso em medida adequada e em espaços específicos de um noticioso, seja no jornal, rádio ou TV.

Mas, alguns consultores se esquecem de, pelo menos, três coisas.

1. A primeira, uma frase que deveria ser dita na aula inaugural de qualquer faculdade de jornalismo e, depois, repetida diariamente: a notícia é um produto, mas não é um produto qualquer. Fizemos muito bem em abandonar as máquinas de escrever em favor do computador, mas não podemos abdicar de dar informação relevante aos leitores, pois essa é a essência do jornalismo e um dos esteios da democracia. Por esse critério, jornalismo, muitas vezes, é dizer aquilo que o público não quer ouvir.

2. Cada meio tem sua linguagem característica, apropriar-se da linguagem do outro é perder a própria identidade. Imagine como seria chato se a internet apenas reproduzisse o texto do jornal ou como seria confuso se um jornal ou revista quisessem copiar o modo da internet de se comunicar com o seu público. Pense em uma TV com um apresentador usando a mesma narrativa dos locutores de rádio.

3. Há consultores que falam de um “novo leitor”, que supostamente busca ligeireza, superficialidade e fogos de artifício, mas desconsideram o leitor do presente. O que fazer com o leitor atual, que se habituou a um jornal tradicional, do qual ele se sente íntimo a cada vez que o folheia de manhã, tendo o conforto de encontrar o que procura, de forma ordenada e hierarquizada? Ou estou muito enganado, ou é esse leitor “conservador” que mantém e ainda manterá os jornais por um bom tempo.

A meu ver, inexiste oposição entre a “nova” e a “velha mídia”. Mais adequado é falar em complementaridade. As mudanças necessárias nos jornais devem ser feitas sem solavancos, de modo que se mire o leitor fugidio sem se esquecer daquele que, por décadas, delegou ao jornal de sua preferência a tarefa de entregar-lhe notícias confiáveis e relevantes.

PLÍNIO BORTOLOTTI é jornalista e Diretor Institucional do Grupo de Comunicação O POVO.

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2 Comentários

  • AURIBERTO CAVALCANTE disse:

    ” Após 119 anos de vida, Jornal do Brasil deixará de circular e só existirá na internet.”

    ” Terminará, em breve, a vida da versão impressa do Jornal do Brasil. Extremamente tradicional, o JB continuará existindo apenas na internet.

    Nelson Tanure, o atual proprietário alega que a internet é o futuro e que todos os jornais caminham para isso. Pode até ser, mas, no fim das contas, a realidade é que as dívidas causadas por sucessivas administrações equivocadas afundaram este veículo de tanta história.

    Por mais que o diário continue vivendo na rede mundial de computadores, não será mais possível folhear suas páginas, comprar suas edições nas bancas, manchar os dedos com sua tinta que se solta fácil do papel jornal onde foi impressa.

    O Jornal do Brasil estava presente nas revoltas do governo Floriano, no fim da política do café-com-leite, no Estado Novo, no suicídio de Vargas, nos anos JK, na ditadura militar, no impeachment de Collor, na implantação do Plano Real.

    Também levou aos leitores as informações sobre as duas grandes guerras, a queda de Hitler, as bombas de Hiroshima e Nagasaki, a guerra das Coreias e a do Vietnã, a queda do Muro de Berlim e a ascenção do dragão chinês.

    Quantos ícones do jornalismo se formaram na redação do JB? Quantos furos de reportagem nos foram trazidos pelas páginas deste veículo? Quantas pessoas marcaram suas manhãs durante toda a vida com a leitura do tradicional periódico?

    Em suma, é mais um pilar da imprensa escrita que se vai com o passar dos anos. Infelizmente é a ordem natural das coisas, mas estes momentos nos permitem ser saudosistas, por mais que o saudosismo remeta a tempos que se passaram muito antes do nosso próprio nascimento.

    Lamenta-se pela história.”

    FONTE: BLOG PERSPETIVA POLÍTICA – POR BRUNO KAZUHIRO
    http://perspectivapolitica.com.br/

  • Permita-me discordar em parte: A internet NÃO É jornal, NÃO É rádio, NÃO É revista, NÃO É cinema e NÃO É televisão. A internet é OUTRA mídia, mídia essa que usa alguns resquícios das ditas mídias tradicionais e os amplia, transformando-os em novas possibilidades, dando vida ao que, até então, era limitado. O papel deu o que tinha que dar. Obrigado, papel. Descanse em paz. Como distribuição de conteúdo no século 21 você é ultrapassado.

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