Plínio Bortolotti

Comunidade do Trilho: “Não é justo perder tudo assim”, diz dona Maria, 82 anos

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Foto de Drawlio Joca, da série "Centro invisível", de Fortaleza (exclusivo para os leitores do blog)

Meu artigo semanal, publicado na edição de hoje (23/9/2010) do O POVO:

“Não é justo perder tudo assim”

Plínio Bortolotti

No domingo este jornal trouxe matéria mostrando o temor das pessoas que moram ao longo da Via Expressa (do Mucuripe à Parangaba), com a prevista instalação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), uma das obras prometidas para melhorar a trafegabilidade durante a Copa do Mundo de 2014.

São moradores pobres que ocuparam a área ao longo dos últimos 50 anos, constituindo-se um enclave – cercado por bairros “nobres”, em alguns trechos. A construção da Via Expressa ajudou a revelar a situação precária desses viventes, esquecidos pelo poder público.

O que eles temem? Temem aquilo que sempre foi regra nesse Brasil cabôco de Mãe-Preta e Pai João. Quando o “progresso” chega, os de baixo são deslocados para as periferias distantes, depois de receberem uma “indenização” pelos seus bens – sempre pequena, pois só se paga o valor material de suas modestíssimas moradias.

É fato que, quando se vive em sociedade, os interesses individuais – ainda que envolvam um grande número de pessoas – não podem se sobrepor aos interesses coletivos. Mas existem dezenas de formas de se resolver um problema: e a melhor saída – e não a aparentemente mais fácil – é a que deve ser procurada.

Pagar uma indenização e mandar que cada um se vire é romper a teia social e de solidariedade que os humildes sabem tecê-las tão bem. É negar-lhes o direito de viver em um lugar hoje cobiçado, mas que era inóspito e desprezado quando chegaram.

Uma das possibilidades, honesta e humana, é mantê-los próximos do lugar onde moram hoje. Se eles podem ser desapropriados, por que o Estado não pode desapropriar terrenos próximos para oferecer-lhes novas moradias?

“Construímos tudo, não é justo perder assim”, foi o que disse ao jornal dona Maria Jorge da Silva, 82 anos, uma das primeiras moradores a chegar à comunidade do Trilho, em 1958. Não lhes parece que ela tem razão?

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4 Comentários

  • Amigo Plínio,

    Concordo com seu artigo em muitos pontos, principalmente com relação a falta de oportunidade que a população menos favorecidade possui ou é ofertada em todos os níveis pelos governos.Entretanto cabe destacar que a questão da Comunidade do Trilho é muito mais complexa, primeiro porque ela surgiu após a fixação da linha férrea que data de 1941, e naquela época nem sonhava-se existir tal ocupação. Outro detalhe, a área em questão, ao longo dos trilhos e aí deveria existir uma margem de segurança para a população vizinha, é de propriedade do estado, não permitindo-se qualquer tipo de ocupação, seja pacífica ou conflituosa. Mas, como tudo no Brasil aplica-se a “Lei de Gérson”, quando da primeira desocupação para edificação da Via Expressa, muitos moradores foram indenizados, seja de forma injusta ou não, foram. Logo depois, voltaram a ocupar terrenos próximos aquela comunidade. É um processo vicioso, “eu sou indenizado, ocupo de novo, para novamente ser indenizado”. E aí, eu junto-me a vc por que nossos governantes não pensaram nisto antes, precisou surgir a oportunidade da Copa? Por que não criaram bairros próximos, com toda a infra-estrutura necessária que o cidadão tem direito por nossa decantada Constituição?

    • pliniobortolotti disse:

      Caro Eduardo,

      Não discordo que falta ação do poder público pode acarretar abusos. É por isso que a administração tem de funcionar, pois aqueles que agem corretamente não podem pagar pelos que, eventualmente, se aproveitam da situação.

      Agradeço seus comentários,
      Plínio

  • cristiano disse:

    sou morador do trilho ja faz 41 anos quando nao existia praticamente quase nada por aqui! o bairro aumentou e estamos cercado de shoppings e apartamentos de luxos aqui na aldeota! agora vem o governo de cod gomes e liziane lins com seu adeptos nos jogarem na rua como se fossemos cachocrros que gonvernantes sÃo esses que nos moradores do trilho colocamos no poder? saibam que estamos ciente de nossos diretos tem muita gente importante do nosso lado! principalmente a o posição, é bom que eles avaliem nossas casas com uma boa indenizaçao pra morarmos no mesmo bairro assim esta na lei que quando uma pessoa é indenizada tem o direito de comprar outa casa no mesmo local.

  • cristiano disse:

    quero dizer a todos, que estao dizendo, que moramos no terreno da uniao ! pois fiquem sabendo desde já que o iguatemi e todos os predios construidos dentro do parque ecologico do coco e o centro empresarial que o tasso construiu estao tambem dentro do terreno da uniao! iguatemi , ipioca, bech park, quero saber quem é o corajoso que irar desafiar os donos desses imoveis milionarios? quem pode me responder?

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