Plínio Bortolotti

E se o Exército resolver fazer greve?

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Meu artigo publicado na edição de hoje (5/1/2012) do O POVO.

"Extração do olhar", de Hélio Rôla

E se o Exército resolver fazer greve?
Plínio Bortolotti

Imaginem se integrantes do Exército Brasileiro resolvessem fazer greve; para potencializar o efeito, iniciariam o movimento em data que, hipoteticamente, as fronteiras do país estivessem ameaçadas. E, armados, passassem a invadir quartéis, retendo e danificando veículos de combate.

Aqueles que comparam a greve da Polícia Militar com o movimento de uma categoria qualquer estão convidados a pensar sobre o assunto e em suas conseqüências.

Não por acaso a Constituição de 1988, surgida após a queda da ditadura fardada, proíbe a sindicalização e a greve de militares.

Contraditório é que, a cada vez que se fala em desmilitarização da PM, lobbies acorrem para barrar a medida. Querem manter a condição militar, sem o ônus decorrente da escolha.

Dito isso, é preciso anotar que o governo do Estado tem sua parcela de responsabilidade na grave da PM, que deixou a população refém do medo. Faltou competência para ver os sinais que se avolumavam. Em dois artigos, que me foram lembrados por seguidores do Twitter*, afirmei que o governador Cid Gomes (PSB) estaria arranjando problema para ele mesmo (e para os cearenses) ao achar que a Secretaria da Segurança poderia ser tocada por um “pé-de-boi”. [O pênalti, a Secretaria da Segurança e o pé-de-boi e Secretaria da Segurança: o novo e o velho]

Alguns políticos acham que basta ser “bom gerente”. Toca-se a administração pública com lógica de engenheiro, esquecendo-se que a política (no sentido amplo e restrito) é muito mais complicada do que uma coleção de dados, números e obras.

Agora, tem-se de lidar com um péssimo exemplo: uma greve inconstitucional, com manifestantes armados, arrancou do governo, em cinco dias, o que professores não conseguiram em 62 dias de movimento.

Foi por água abaixo a máxima: “O governo não negocia com categorias em greve”.

Agora, é preciso sinais consistentes de que de haverá disposição para conversar abertamente com o funcionalismo. Caso contrário, ficará a impressão de que a violência é o melhor caminho para se arrancar reivindicações do Executivo.

*Os tuiteiros que me lembraram dos artigos citados foram: @hiranbrasil e @Magalhures, a quem agradeço.

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7 Comentários

  • Geraldo Sales disse:

    Plínio,
    Qual a categoria que tem maior poder de mobilização do que as da Segurança Pública, especificamente Polícias, Militar e Civil, Bombeiros etc? Quando qualquer categoria está em greve e alguns dos manifestantes praticam abusos, quem é que é chamada para coibir e reprimir, eu falei reprimir, os manifestantes que em muitos casos nem mesmo abusos praticam? A PM estando em greve, caso aconteçam atos de vandalismo, quem será chamado para coibir ou deter os vândalos? E mais, se na próxima campanha, descoberto o caminho das pedras, a PM entender que merece ganhar metade do que ganha um deputado, o que certamente toda a população achará que é justo, como será essa correlação de forças para a pauta ser atendida? E se o Poder Público ofercer 40 e eles entenderem que mercem 80, como é que fica? De modo que, a partir dessa greve de órgãos vitais para a segurança de uma nação – tomara que não ocorram fatos semelhantes noutros estados, ou como você mesmo disse, o exército não siga o modelo – espera-se que a polícia seja mais comedida na hora em que for chamada para reprimir categorias em greve.

  • Paulo Carvalho disse:

    Plinio,
    Seus argumentos, assim como o do Geraldo Alves que comentou, são muito fortes, quase irrefutáveis por completo.
    Mesmo assim, gostaria de fazer algumas ponderações, quais sejam: todos sabemos que nem tudo que é “legal” é “moral”; nem tudo que é “legal” é “justo”. Por outro lado nem tudo que é “ilegal” é “injusto”, concordas?
    Quando fazíamos greve – no setor bancário e público, também – você deve lembrar, o fazíamos imbuídos de bons propósitos e com a presunção de que consegueríamos benefícios para nós, para nossa f amilia, com também para o conjunto da sociedade. Esse sempre foi o nosso lema.
    Mas o que era determinante, quando nos confrontávamos com patronato, era o entendimento que tínhamos de que aquele ato seria o único e último que dispúnhamos. O meu conceito de greve é esse, além de podermos de batizá-lo também de “Pedido de Socorro”.
    Nesse instante, gostaria de igualar-me ao policiais militarares, mesmo sabendo das profundas diferenças de atribuições entre um policial mundo e um trabalhador bancário ou qualquer outro.
    Finalizando, eis o meu entendimento: a greve dos policiais militares pode ter sido “ilegal”, mas foi “justa”.
    É isso aí …

    • Plínio Bortolotti disse:

      Caro Paulo,

      Nunca escrevi, nem falei, que o salário que os policiais militares recebem é “justo”, pelo contrário. O problema é que greve de militares armados é perigoso para a democracia. Se nos apegássemos aos códigos militares, como O POVO demonstrou, a greve poderia ser chamado de motim. E mais, E o movimento não é apenas “ilegal” é anticonstitucional.

      Agradeço seus comentários,
      Plínio

  • Tales Augusto disse:

    Um ponto: A desmilitarizacao eh defendida pela maior parte da tropa, o lobby contra eh feito por oficiais que desejam manter determinado status, a esmagadora maioria dos pracas eh a favor da desmilitarizacao por que nao tem nenhuma vantagem em ser militar, eh importante que vc tenha isso em mente…

    • Plínio Bortolotti disse:

      Caro Tales,

      Isso é ótimo, que tal as associações que comandaram a greve usarem toda a energia de que dispõem para propor uma reformulação completa nas polícias, como propõe o editorial do O POVO de hoje (6/12/2011)? Envio-lhe o link, caso queira ler: http://migre.me/7qLsQ

      Agradeço seu comentário,
      Plínio

  • Raquel disse:

    os professores da bahia sabem que o salário de professor é defasado no entanto já estão formados alguns querem estabilidade outros estão pq gostam . ja os políticos já estão no poder .jeremias 10:23 Eclesiastes 8:9

  • gilson feitosa disse:

    É incrível essa sociedade brasileira, se mobiliza para passeata gay, carnaval, futebol, liberação da maconha, mas um trabalho que é voltado para ela como a “polícia ostensiva” PM, não tomam nem conhecimento, depois ainda querem uma polícia cidadã, que nem direitos têm, então durma com essa, fico aqui imaginando, não só os oficiais não querem a desmilitarização como o governo assim também o quer, pois somos fáceis de controlar. A copa do mundo tá chegando vai ser bonito!!!!!!!!

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