Plínio Bortolotti

Mister Rodoviária

Coluna “Menu Política”, no caderno “People” do O POVO, edição de 16/2/2014.

Arte: Hélio Rôla

Arte: Hélio Rôla

Mister Rodoviária
Plínio Bortolotti

Há um segmento estridente da elite que considera inaceitável que outras pessoas possam desfrutar de alguns confortos que eles têm como “direito de nascença”

Em artigos recentes comentei a dificuldade das classes A e B em aceitar a presença dos pobres, a chamada “nova classe média”, nos tradicionais locais de consumo da “elite”. Abordei o tema em Onde guardamos o preconceito?, artigo que escrevo às quintas-feiras para a editoria de Opinião (3/1/2014) e A elite se assusta com a democratização do consumo, nesta coluna (2/2/2014). Um dos exemplos que citei foram os comentários que se ouve de pessoas da “elite” se queixando que os aeroportos viraram “rodoviárias”, devido à popularização das viagens aéreas.

Pois bem, na semana passada aconteceu um caso que exemplifica de modo fiel os argumentos que levantei. Em sua página no Facebook, a professora Rosa Marina Meyer, do Departamento de Letras da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), publicou a foto de um passageiro de camiseta sem mangas, bermuda e um tênis aparentemente sambado, lanchando no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Ao lado da foto ela escreveu: “Aeroporto ou rodoviária?”

Outro professor, o reitor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Luiz Pedro Jutuca, foi no mesmo tom, comentando: “O glamour foi pro espaço”. Mário Meyer (provavelmente parente da professora) também opina: “Isso é só uma mostra do que tenho visto pelo Brasil ”. Volta a educadora Rosa Marina: “O pior é que o Mr. Rodoviária está no meu voo! Ao menos, não do meu lado! Ufa!” E outra professora da PUC-Rio completa: “Hehe [risos na linguagem da internet]. O pior é quando esse tipo de passageiro senta exatamente do seu lado e fica roçando o braço peludo no seu, porque – claro – não respeita (ou não cabe) nos limites do assento”.

A falta de escrúpulo da professora não ficou somente nos comentários. Ela publicou a foto de modo que era possível identificar a pessoa que ela depreciava. Acontece que Marina Meyer atirou no que pensou ter visto (um cidadão pobre) e acertou no que não viu: o “Mr. Rodoviária” é advogado e procurador da cidade mineira de Nova Serrana. Ou seja, uma pessoa do, digamos assim, mesmo nível social da professora da PUC.

Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo Marcelo disse que voltava de um cruzeiro internacional e, como o Rio é uma cidade muito quente, optou por usar bermuda e camiseta. Sobre a forma como foi tratado: “Eu não gostei porque é uma forma grosseira de humilhar uma pessoa em determinada situação”. Perguntado se vai adotar alguma medida judicial contra a professora, ele disse que está “tomando providências”, mas não quis revelar quais seriam.

Não se pode, por óbvio, fazer crítica generalizante à classe média (antiga) ou à elite do país, porém, existe um segmento estridente desses setores que considera inaceitável que outras pessoas possam desfrutar de alguns confortos que eles têm como “direito de nascença”.

E, pensemos, que tipo de “elite” o país está formando? Educadores que se veem no direito de humilhar publicamente uma pessoa, baseados unicamente na sua aparência? Médicos que xingam seus colegas cubanos – boa parte deles negros – de “escravos”, devido a uma divergência política com o governo?

NOTAS

IPTU
Quem ficou mal nessa história de aumento do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) foi a Câmara Municipal. Os vereadores aprovaram reajuste de 35%, porém, a Prefeitura – driblando a lei – emitiu muitos boletos com percentuais acima de 100%. Até agora não houve nenhuma reação institucional por parte do poder Legislativo para fazer valer o que foi aprovado. E tudo indica que vai ficar por isso mesmo, com a “base aliada” aceitando passivamente o arbítrio do prefeito.

Mensalões
O julgamento do “mensalão tucano”, que vem de Minas Gerais, vai ser a primeira prova para verificar se o rigor utilizado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) será regra geral para punir corruptos ou se foi uma exceção para apenar os réus do homônimo petista.

Coisas que não entendo
Por que há tanta revolta quando o governo brasileiro negocia com Cuba e ninguém fala nada – pelo contrário elogia e incentiva – os negócios feitos com a China? As duas não são, do mesmo modo, ditaduras “comunistas”?

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