Plínio Bortolotti

O Carnaval nas enciclopédias

Texto para a coluna “Menu Político”, do caderno “People”, do O POVO, edição de 2/3/2014.

O Carnaval nas enciclopédias
Plínio Bortolotti

Neste período, caros leitores, vou poupá-los dos áridos assuntos que costumo tratar por aqui, e falar um pouco desta “folia que não tem hora para acabar”, como costumam escrever alguns redatores pouco inspirados, na esperança de que esta coluna possa ajudá-los a passar com alguma ciência o que o mesmo noticiarista chamaria de “tríduo momesco”. Depois de ler este texto, você saberá exatamente no que está se metendo (ou já está dentro), pois são muito elásticos os oficiais três dias de Carnaval.

Segundo fontes confiáveis, a origem do Carnaval está nas mais antigas festas orgiásticas da humanidade, como o culto à deusa Ísis, as festas dionísicas gregas, passando pelas celebrações dos bacanais, saturnais e lupercais, em homenagem aos deuses romanos Baco, Saturno e Lupércio (ou Pã), respectivamente, todos eles do barulho.

Na Idade Média, quando a sociedade encaretou, a festa correu perigo, mas foi salva pelo papa Paulo II. Tolerante, ele autorizou a algazarra na via em frente ao seu palácio: e lá os romanos fizeram a folia, com corridas de cavalinhos, carros alegóricos (bigas, imagino) e jogando ovos uns nos outros.

(Não foi a “festa pagã” que provocou a cisma entre católicos e protestantes, porém, para os evangélicos, o Carnaval, com sua origem no culto a deuses “falsos”, continua sendo obra do coisa-ruim.)

No Brasil, o Carnaval, ou melhor, “entrudo”, como era chamado na época, chegou no período colonial, pelas mãos dos portugueses, portanto não começou com samba, nem com Dodô e Osmar (logo, não é uma invenção baiana).

No início, era uma celebração violenta: consistia em atingir incautos passantes com farinha, cal, água e outros (suspeitos) líquidos. O bombardeio era tão feio, que foi proibido em 1904, pelo prefeito do Rio, Pereira Passos.

A imprensa, sempre alerta, também combatia os bisavós dos black blocs e seu “jogo selvagem”, fazendo campanha para dar um caráter mais “aristocrático” à arrelia. A partir de então, o Carnaval foi se tornando mais civilizado e, aqui no Ceará, substitui-se a farinha pela maisena, produto muito mais refinado.

Bailes em clubes, blocos, cordões, e outros rebuliços carnavalescos, começaram no Rio de Janeiro. A primeira escola de samba brasileira “Deixa Falar”, é carioca, fundada em 1928 ou 1929, dependendo da fonte. De lá também surgiu a primeira marchinha Abre alas, que Chiquinha Gonzaga compôs em 1899 – e com ela você canta e dança até hoje: “Ó abre alas, que eu quero passar…”

E, se o teu avô, vier com aquele papo de “hoje só tem pouca vergonha, no meu tempo havia mais respeito”, diga para ele esse negócio de homem se vestir de mulher, já vem de outros carnavais: com registros a partir de meados do século XIX, segundo algumas fontes, ou a partir de 1907, segundo outras. De qualquer modo, já tem algum tempo esse costume de sair do armário “só de brincadeira”.

Agora que você está bem ilustrado sobre o significado do Carnaval, tenho certeza de que aproveitará melhor a folia.

NOTAS

PALAVRA
Etimologia – a origem da palavra Carnaval – do latim: carnelevamen, modificado para carnevale, que significa “adeus à carne” (referente à quaresma, que vem em seguida, período em que os cristãos devem observar o comedimento e a abstinência de carne). Porém carnelevamen, também pode ser interpretado como carnis levamen, o “prazer da carne” ou seja o próprio intervalo carnavalesco.

FANTASIA PROIBIDA
As máscaras, de veludo e cetim, começaram a ser usadas em 1834, por influência francesa. A serpentina chegou 1892; o lança-perfume (hoje proibido), foi introduzido em 1911; nesse mesmo ano a Polícia do Rio proibiu o uso da fantasia de padre.

SEM INTERNET
Escrevi este texto também para provar que se pode viver sem internet: consultei apenas enciclopédias: a Nova Enciclopédia Barsa (1997), a Grande Enciclopédia Delta Larousse (1972) e a Grande Enciclopédia Larousse Cultural (1998).

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