Plínio Bortolotti

Holocausto na Coreia do Norte

Texto para a coluna “Menu Político”, do caderno “People”, edição de 9/3/2014, O POVO.

Shin Dong-hyuk

Holocausto na Coreia do Norte
Plínio Bortolotti

Que os regimes do “comunismo real” são genocidas, isso é de amplo conhecimento, pelo menos desde que, em fevereiro de 1956, Nikita Khruschov, o primeiro-secretário da antiga União Soviética, denunciou os crimes de seu antecessor, Josef Stálin, o ditador que governou o país com poderes absolutos por mais de 30 anos. Nessa conta de absurdos entra a “revolução cultural”, de Mao Tsé-Tung (China) e os massacres do Khmer Vermelho (Camboja), que são parte da história.

Porém, em pleno século XXI, sobrevive um regime cujos crimes nada ficam a dever em termos de brutalidade aos seus parceiros de ideologia: a Coreia do Norte, dirigida por uma dinastia “comunista”, atualmente nas mãos do “líder supremo”, Kim Jong-un, neto de fundador da “república popular democrática”, como consta no nome oficial do país.

No livro Fuga do Campo 14, o jornalista Blaine Harden, narra como o prisioneiro Shin Dong-hyur consegui escapar de um campo de concentração norte-coreano, no qual nascera. A pé, ele chegou à China e, depois, à Coreia do Sul. Shin consegui escapar em 2005, quando tinha 23 anos. A história dele nos lança nas profundezas do horror de um regime em que os líderes “eternos”, “supremos” e “queridos”, são reverenciados como deuses, sob o tacão de um Estado totalitário-militar.

A família se Shin era da casta mais baixa de prisioneiros – os inimigos políticos do regime –, por isso viviam em um “distrito de controle total”, o Campo 14, sem a mais vaga noção do que ocorria para além das cercas elétricas da prisão. Os prisioneiros eram tratados – e se consideravam – como animais. Tornavam-se capazes das piores indignidades em troca de um pequeno aumento na ração diária, que os mantinham semivivos e semi-humanos. O próprio Shin delatou a mãe, informando aos guardas que ela planejava fugir. Ficou “orgulhoso” e pediu como recompensa uma “ração completa de arroz”. Tinha 13 anos. Aos 14 foi obrigado a assistir a um enforcamento público e, depois, ao fuzilamento do irmão mais velho.

Os guardas tinham poder de vida e morte sobre os presos, que eram espancados violentamente por qualquer motivo – ou sem motivo. Os prisioneiros tinham de considerá-los “mestres” e “hostilizar” um guarda resultava em punição com a morte.

O fuzilamento imediato era a pena mais comum para quem descumprisse “As dez leis do Campo 14”, que tratava desde tentativas de fuga, impedimento do preso se reunir com mais de uma pessoa e proibição de “convivência entre os sexos”, além da obrigação de “vigiar uns aos outros e denunciar imediatamente qualquer comportamento suspeito”. As execuções eram públicas e até as crianças eram obrigadas a assisti-las.

Shin disse ao seu biógrafo que, antes de fugir, nunca ouvira a palavra “amor”, e que começou a se sentir humano ao perceber – experimentando a liberdade – que era capaz de chorar e de ter sentimentos.

NOTAS

HORROR
Conheci a história de Shin Dong-hyur em 2012, quando li o livro Fuga do Campo 14 e fiz um post em meu blog. Devido ao hermetismo do regime norte-coreano, o autor reconheceu as dificuldades em verificar todas as informações que lhe foram repassadas por Shin. De fato, eram histórias de tanta selvageria, que se assemelhavam a uma ficção de terror.

ONU
No entanto, recentemente, uma investigação conduzida pela Organização das Nações Unidas (ONU) confirmou a brutalidade dos campos de concentração na Coreia do Norte. Foram ouvidas 80 testemunhas – entre elas Shin Dong-hyur – e o trabalho resultou em um documento oficial da entidade. O relatório (em inglês) e outras informações (em português) podem ser vistos no portal do El País.

DIREITOS HUMANOS
Para Marzuki Darusman, investigador especial da ONU sobre os Direitos Humanos e coautor do relatório, a Coreia do Norte é “a imagem completa de um sistema totalitário sem par no século XXI”. Darusman disse que estão documentados crimes contra a humanidade equivalentes ao do holocausto, e diz que a comunidade internacional precisa agir para pôr fim à barbárie.

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