Plínio Bortolotti

“Marcha com a Família” – A tragédia e a farsa

Meu artigo publicado na coluna “Menu Político”, no caderno “People”, do O POVO, edição de 30/3/2014.

Arte: Hélio Rôla

Arte: Hélio Rôla

A tragédia e a farsa
Plínio Bortolotti

“Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Assim o filósofo Karl Marx inicia uma de suas obras mais famosas, O 18 de brumário de Luís Bonaparte (1869), ironizando o golpe do sobrinho, que tentou emular o tio, Napoleão.

A formulação acorreu-me a propósito da nova Marcha da Família com Deus pela Liberdade, ocorrida no dia 22/3/2014, e que pretendeu – como a sua inspiradora, a passeata de 1964 – incitar a intervenção dos militares, talvez para livrar o país dos novos “comunistas”, os “quilombolas, índios, gays, lésbicas e tudo o que não presta”, que estão “aninhados” no governo, na delirante declaração do deputado Luís Carlos Heinze (PP-RS). Veja aqui.

O tom farsesco dessas vivandeiras não poderia ficar mais explícito do que ficou em um vídeo da TV Uol, na qual apresentam-se alguns dos provocadores desse novo (e minguado) protesto autoritário, que juntou meia dúzia de áulicos da farda em algumas cidades do país, no sábado passado. É como se essa turma declarasse sua incapacidade de viver sem a tutela de uma “autoridade”.

Um dos “líderes”, apresentado pela Uol, é Bruno Toscano, figura conhecida por disseminar homofobia e ódio na internet, propondo campanhas como “cuspa na cara de um político, ministro e abutre togado” e sugerindo que “PTraíras” sejam “fuzilados em praça pública”. No vídeo, Bruno regurgita asneiras como “não votaria em alguém menos preparado intelectualmente do que eu” (vai ser facinho ele achar candidato).

O outro “líder” entrevistado pela TV Uol é Maycon Freitas, apresentado como “técnico em segurança do trabalho”, mas que é uma espécie de Bozó, maravilhado por ser dublê da Globo. Em um vídeo, sobrevoando em um helicóptero, ele bate no peito e diz: “Eu trabalho na Globo, é o melhor trabalho do mundo”. Na internet, ele já escreveu coisas assim: “Marcelo Freixo, vai dar meia hora de cu com o relógio parado e chupar um canavial de rola, seu filho da puta. Direitos humanos é o caralho” (Freixo é deputado pelo Psol do Rio de Janeiro).

Nem a TV Uol – e nem o texto publicado na Folha de S. Paulo traçam o perfil dos entrevistados e nem mostra que Maycon havia sido incensado pela revista Veja como uma espécie de líder das manifestações de junho do ano passado. A revista dedicou a Maycon as nobres “Páginas Amarelas”, sob o título “A voz que emergiu das ruas” (edição 2.328, de 3/7/2013), em que o rapaz é apresentando como uma espécie de herói dos protestos. Rapidamente, descobriu-se que o “guia genial” revelado pela Veja, nada mais era do que um deslumbrado puxa-saco, um Bozó da Rede Globo, um provocador barato. Também não se informou, na reportagem, sobre a ficha corrida de Bruno Toscano. Um dos mandamentos do bom jornalismo é a contextualização, que passou longe do material publicado.

De qualquer modo, a produção da TV Uol desnuda, a quem tiver um mínimo de olhar crítico, o intento ditatorial dos desqualificados líderes da “marcha”, que se repetiu como farsa no dia 22 de março – e que, para ficar de acordo com a situação, deveria ter sido transferida para o próximo dia 1º de abril.

NOTAS

Hitler
Assim mesmo, é bom ficar atento, farsas também podem ser trágicas: Hitler era considerada uma figurinha ridícula quando iniciou a sua jornada de ódio.

50 anos
Diferentemente de outros países da América Latina – como Argentina e Chile – o Brasil ainda não acertou contas com o seu passado. E criminosos, como os que mataram e sumiram com o corpo do deputado Rubens Paiva, continuam à solta. Enquanto a história não for passada a limpo, 1964 continuará a nos assombrar.

Bozó
Para os mais jovens que nunca ouviram falar em “Bozó”: o personagem saiu da cabeça privilegiada de Chico Anísio. Office boy, Bozó valia-se de um crachá da emissora e do bordão “trabalho na Globo”, para se apresentar como um importante diretor artístico da emissora. Aqui.

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