Plínio Bortolotti

(Des)entendendo o Black Bloc

Reprodução de artigo publicado na coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 27/7/2014 do O POVO.

Carlão(Des)entendendo o Black Bloc
Plínio Bortolotti

Na sequência de manifestações de junho do ano passado, quando fomos apresentados à “tática black bloc”, os seus críticos, eu incluído, eram instados a “entenderção” o movimento pelos que ficavam em cima do muro, sem apoiá-los claramente, mas evitando criticá-los, com medo de serem tachados de “conservadores”.

Por isso, ao tropeçar em uma livraria com o título Black Blocs, resolvi adquiri-lo. O autor do livro, Francis Dupuis-Déri, é “professor de Ciência Política e membro [sic] do Instituto de Pesquisa e Estudos Feministas da Universidade de Quebec” (Canadá). Mas, confesso frustração no intento de me ilustrar sobre o Black Bloc (o autor usa maiúsculas quando se refere ao movimento). O livro parece ter sido escrito por um entusiasmado garoto de 14 anos, que assistiu demais o seriado do Zorro (isto é, um menino de meados do século passado).

A maior parte da “obra” é uma monótona descrição dos feitos dos black blocs em alguns países, seguido de “análises” carentes de sentido. E não se trata de concordar ou discordar, mas observar que Dupuis-Déri descuidou-se da pesquisa, reproduziu platitudes, e compôs apenas um (mau) panfleto militante.

Por exemplo, ao comentar a oposição ao Black Bloc, dramatiza: “Assim, o círculo se fecha, desde o policial e o político até o comunista, passando pelo ideólogo capitalista, pelo bom manifestante, pelo porta-voz das forças progressistas, pelo editor, pelo repórter e pelo padre. Todos compartilham os mesmos sentimentos e chegam às mesmas conclusões (contra os black blocs)”. Poder-se-ia pôr as palavras na boca de um adolescente rebelde, não fosse o argumento típico de movimentos totalitários, que veem o universo conspirando contra a “verdade” da qual eles são portadores.

Dupuis-Déri, que pretende explicar o movimento Black Bloc,
não consegue nem mesmo vislumbrar que tipo de gente o compõe: “É difícil fazer um perfil sociológico preciso (…) minhas observações sugerem [sic] que eles são sobretudo jovens, embora alguns membros tenham mais de 50 anos…” O sociólogo tenta de novo tatear as figuras que o tantalizam: “Ser fã de música punk não é suficiente para fazer de alguém um candidato a black bloc. Por outro lado, um black bloc pode não gostar de música punk, ou estar em uma universidade”. Entendeu? Nem eu?

Para validar a tática da destruição dos “simbolos do capitalismo”, ele explica que o método do quebra-quebra se justifica por si, pois “o alvo é a mensagem”. Dupuis-Déri se vale da teoria de um conterrâneo dele, Marshall McLuhan, formulador do conceito de que “o meio é a mensagem”.

Estudioso da mídia, McLuhan afirmou que mais importante do que o conteúdo da mensagem é o meio (veículo) pela qual ela se expressa. Assim, apoderando-se da teoria de McLuhan (sem dar o crédito ao autor) Dupuis-Déri quer afirmar que o conteúdo da “mensagem” é a própria ação (a violência), e isso dispensaria os black blocs de qualquer outra explicação, e ele de esclarecer o leitor.

Assim, amigos, gastei R$ 34,90 e sai do livro do jeito que entrei, acrescida a sensação de que esses caras gostam mesmo é da gandaia, pois como declarou um deles: “Ações diretas geram um certo prazer”.

NOTAS

Editora
A editora do livro é a Veneta, cujo nome forma o logotipo sobre um fundo preto, ilustrado por uma bomba em explosão, caveiras, raios e caracteres * #, representando xingamentos.

Esotérico
O livro é cheio de declarações, digamos assim, esotéricos-emocionais para explicar a ação: a) “Formar um Black Bloc é um equalizador (…) não sou nada mais nem nada menos do que uma entidade que se move com um todo”; b) “Uma revolta, como o amor, nos permitirá aproveitar as oportunidades”; c) “Tive uma sensação infinetesimal de liberdade”. E por aí vai.

Banco Mundial
Existem ainda depoimentos como este, de um “coletivo de mulheres”: “O que é violência, quando o Estado está matando pessoas todo dia? E as pessoas no Banco Mundial comem bebês do Terceiro Mundo no café da manhã, então, se eles levam um tijolo na cara, bem… a culpa é deles”. Aqui não sei se é um problema de tradução, ou se os comunistas perderam definitivamente o posto de “comedores de criancinhas” para o Banco Mundial.

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