Plínio Bortolotti

O que polui mais: um carro ou uma vaca?

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 31/8/2014 do O POVO.

Arte: Carlus

Arte: Carlus

O que polui mais: um carro ou uma vaca?
Plínio Bortolotti

Reportagem publicada na semana passada neste jornal (23/8/2014) informa que em um ano 3,8 toneladas de gases causadores de efeito estufa foram despejados na atmosfera de Fortaleza. O estudo refere-se a 2012 e faz parte do primeiro Inventário de Emissão dos Gases do Efeito Estufa na Capital. A gasolina utilizada em veículos automotores foi a grande causadora da poluição, respondendo por 61% da produção desses gases.

Não sei se quase quatro milhões de toneladas de gases poluidores é pouco ou muito e em que escala isso contribui para o avanço do mal, tomando-se o Brasil e o mundo como medida. De qualquer modo, há quem afirme – sem afastar os problemas causados pelo uso do combustível fóssil – que o carro não é o principal vilão emissor dos gases do efeito estufa.

No documentário Meat the true – Uma verdade mais que inconveniente (carne, a verdade), Marianne Thieme, deputada do Partido pelos Animais nos Países Baixos (Holanda), atribui à pecuária responsabilidade maior pelo aquecimento global. Segundo estudos apresentados no filme, uma inocente vaquinha holandesa expele (por meio de arrotos e flatulência) de 500 a 700 litros de metano por dia; em um ano seria o equivalente a um carro médio que viajasse 70 mil quilômetros (mais de uma vez e meia em volta do globo terrestre).

Enquanto os meios de transporte (carros, aviões, navios, etc.) respondem por 13% dos gases do aquecimento global, os animais produzem 18%. Desse ponto de vista, a pecuária seria mais perigosa para o efeito estufa do que os veículos automotores. Para Marianne, a imagem que o público tem do aquecimento global é distorcida: “Só vemos chaminés de fábricas e carros”.

A necessidade de, cada vez mais, aumentar os rebanhos leva a outro problema: o desmatamento para abrir áreas de pastagem (cita a floresta amazônica) e a se destinar cada vez mais grãos para o consumo animal. O professor Harry Aiking, da Universidade de Amsterdã, diz que 40% a 50% (soja 75%) de todos os cereais produzidos no mundo, que poderiam se destinar ao consumo humano, são comidos por animais. Sendo necessários sete quilos de grãos para produzir um quilo de carne – e dez vezes mais terra do que seria preciso para produzir vegetais.

Nesse ponto, Marianne – mesmo ressalvando a “contribuição importante” pelo alerta contra o aquecimento global – critica o filme Uma verdade inconveniente, do ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore (“Oscar” de melhor documentário em 2007). Diz ela: “A única vaca que vi na tela simbolizava apenas uma infância perfeita (de Gore) no Tennessee”; para ela, a pecuária deixou de ser mostrada no filme como responsável por emissão de gases do efeito devido aos compromissos de Gore com o agronegócio. Em 2006 relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), pela primeira vez, mostrou a relação entre a pecuária e o aquecimento global.

Vegetariana, Marianne aproveita para condenar o consumo excessivo de carne, e pergunta: “Você sabia que existem mais mulheres vegetarianas do que homens? Por quê? Claro, elas são mais inteligentes”.

NOTAS

Cowboy maluco
No filme, que pode ser visto aqui, um dos personagens mais interessantes é o “Cowboy Maluco”, um ex-fazendeiro industrial americano, “do pior tipo”, segundo ele mesmo, que se tornou vegetariano e ativista em defesa dos animais.

Carne
Entre 1950 e 2000 a população mundial passou de 2,6 bilhões de pessoa para seis bilhões. A produção de carne saltou de 45 bilhões de quilos/ano para 233 bilhões de kg/ano. Em 2050 a relação será de nove bilhões de pessoas e 450 bilhões de kg/ano de carne. Dados da FAO.

Mais carne
Um americano come, em média, 124 quilos de carne por ano, 44 kg a mais do que um holandês. Segundo Wayne Pacelle, presidente da Sociedade Humana, 10 bilhões de animais são criados para alimentação nos Estados Unidos.

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