Plínio Bortolotti

Fruta feia contra o desperdício de alimento

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 7/6/2015 do O POVO.

CarlusFruta feia contra o desperdício de alimento
Plínio Bortolotti

Dia desses, no supermercado no qual faço compras, perguntei a um funcionário da seção de frutas e verduras o que eles faziam com os produtos recusados pelos clientes, devido à aparência ou a algum outro problema que não influi na qualidade, por isso ainda bom para ser consumido. Ele respondeu que eram doados para instituições beneficentes, porém, fiquei em dúvida se de fato o destino das frutas, verduras e legumes “feios” era esse mesmo. Ainda que esse supermercado aja desse modo, é apenas uma gota no oceano de desperdícios que ocorre no Brasil – e em todo o mundo.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o desperdício de alimentos no mundo chega a 1,7 bilhão de toneladas por ano – um terço de tudo o que é produzido -, suficientes para alimentar as cerca de 925 milhões de pessoas que passam fome todos os dias.

Esse mesmo estudo mostra que, no Brasil 26,3 milhões de toneladas de comida são jogados no lixo a cada ano. Se aproveitada, daria para alimentar todos os brasileiros que sofrem pela fome. O Brasil está entre os dez países que mais desperdiçam alimentos, jogando fora 30% de sua produção. O desperdício se dá de vários modos, no descarte de produtos ainda próprios para o consumo, no transporte e no armazenamento.

A FAO sugere que o Brasil forme uma rede de instituições – governamentais e ONGs – em torno da cadeia produtiva para evitar desperdícios, proposta que tem apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). O problema com a perda de alimentos não se restringe ao que é desperdiçado, também há impacto significativo nos recursos naturais, pois os alimentos produzidos e não consumidos estão desgastando, desnecessariamente, o meio ambiente.

Além da preocupação de autoridades, vem crescendo o movimento na sociedade civil contra o desperdício de alimentos. Normalmente, são essas pequenas inciativas que ajudam a sociedade a tomar consciência de problemas e contribuem para a sua solução.

Em Portugal, por exemplo, foi criada a Cooperativa Fruta Feia, que se propõe a inverter as “tendências de normalização (dar aspecto igual) de frutas e legumes, que nada têm a ver com questões de segurança e de qualidade alimentar”. A cooperativa compra e distribui para uma rede de associados as “frutas feias”, desprezadas por questões estéticas. O objetivo é criar mercado “que gere valor para os agricultores e consumidores e combata tanto o desperdício alimentar quanto o gasto desnecessário dos recursos utilizados na sua produção”.

Na Alemanha, aumenta o número de pessoas adeptas do “freeganismo”. A maioria estudantes – e não necessariamente pobres -, que vasculham as caçambas de lixo dos supermercados em busca de produtos jogados fora e que ainda são bons para o consumo: frutas, verduras, pães, salsichas. Depois da coleta, eles arrumam as caçambas, de modo a deixar o local limpo, sem nenhum rastro de sua passagem. Estimativas avaliam que na Alemanha se jogue fora 11 milhões de toneladas de alimentos por ano, equivalente a mais de 20 bilhões de euros, segundo o Deutsche Welle, portal alemão de notícias.

Dei uma vasculhada na internet e não encontrei nada parecido com a Cooperativa Fruta Feia no país; quanto a vasculhar latas de lixo, no Brasil é uma precisão à qual se submetem apenas os muito necessitados – não podendo ser vista como uma “ideologia”.

NOTAS

Jogando fora 1
Outra forma de desperdício é o descarte de produtos processados com prazo de validade próximo ou recém-vencidos, porém ainda próprios para o consumo. Entre a data de vencimento anotado na embalagem e o prazo real de o produto ser considerador estragado, há uma margem de segurança, exigida pelos órgãos de saúde.

Jogando fora 2
Porém, como no Brasil a legislação responsabiliza o doador, em caso de eventual distúrbio de saúde a quem consumir o produto, os comerciantes preferem jogá-los no lixo, em vez de doá-los para alguma instituição beneficente. (Há um projeto de lei no Congresso para isentar o doador dessa responsabilidade.)

Créditos
Cooperativa Fruta Feia, Portugal; Revirando o lixo contra o desperdício, no portal Deutsche Welle; estudo da FAO sobre o desperdício de alimentos.

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