Plínio Bortolotti

As filhas do traficante e o Estatuto da Criança e do Adolescente

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, do O POVO, edição de 26/7/2015

CarlusAs filhas do traficante e o Estatuto da Criança e do Adolescente

“Ainda pouco popular no Brasil e caracterizado por ser uma misto de tênis e vôlei de praia jogado com uma peteca e uma raquete, o badminton tem sua origem indefinida, mas a modalidade que se conhece hoje teve início na Índia. Nascido sob o nome de poona, o esporte ganhou força quando, ainda no século 19, oficiais britânicos em missões na Índia, após terem entrado em contato com o poona e gostado da prática, resolveram levar o esporte para a Europa.”

Pouco afeito a esportes, não tinha a mínima ideia do que seria “badminton”, jogo no qual o Brasil destacou-se nos jogos Pan-Americanos, com duas medalhas de prata, uma delas garantida pela dupla de irmãs, Lohaynny (19 anos) e Luana Vicente (21 anos). As duas levaram o Brasil pela primeira vez ao pódio em Jogos Pan-Americanos na modalidade feminina do esporte. Resolvi pesquisar para saber que tipo de jogo era esse, quando li a história de Lohanny e Luana, criadas em favelas do Rio de Janeiro, e sobre dificuldades que encontraram até subir no pódio, em Toronto, no Canadá.

Filhas de um traficante que mandava no Chapadão, favela da zona norte do Rio de Janeiro, as meninas, acostumaram-se a acordar em meio a tiroteios e a uma vida nômade: em um ano, trocaram de casa 15 vezes, acompanhando as fugas do pai.

Quando Luana tinha oito anos, o pai foi morto em um confronto com a polícia. A mãe pegou as crianças e mudou-se para outra favela, a Chacrinha, onde conheceu um novo companheiro, e as meninas aproximaram-se do projeto Miratus, entidade criada por Sebastião Dias de Oliveira, que ensinava a modalidade esportiva a jovens da favela. Funcionário público na época (1998), Sebastião era egresso da Funabem, entidade predecessora da Febem, fundações criadas para cuidar do “bem estar” do menor, isto é, locais de internação de crianças pobres.

“Eu acho que o badminton foi a porta, a nossa única chance, eu não sei o que seria da gente se não fosse o badminton (…) Eu me sinto uma vitoriosa, se não fosse pelo badminton, eu não seria o que sou”, disse Luana em uma de suas entrevistas.

No entanto, pela história delas, não seria difícil ver qual seria o “lado B” da vida das irmãs se elas, em vez de encontrarem o esporte, tivessem topado com as alternativas nocivas mais comuns no mundo em que elas cresceram, como aquele seguida pelo pai.

Se assim fosse, se tivessem trilhado o caminho para o qual milhares de crianças pobres são empurradas – graças a todos os deuses que assim não foi – muita gente que hoje aplaude as irmãs talvez estivesse pedindo penas mais duras para elas e maldizendo o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Um documento vilipendiado e pouco conhecido. A maioria dos que atacam o Estatuto da Criança e do Adolescente nunca o leu. Se o lessem, em vez de estarem vociferando contra o estatuto, talvez estivessem pedindo que fosse cumprido na íntegra. Se isso fosse feito, isto é, se todas cláusulas do estatuto fossem respeitadas, talvez víssemos surgir mais Lohaynnys e mais Luanas, em todas as áreas do esporte e do conhecimento humano.

O que posso sugerir ao leitor é que leia o documento e faça uma análise do que ali está inscrito. Creio que, pelo menos um, há de mudar de opinião e, em vez de exigir a redução da maioridade penal, passará a defender que o Estatuto da Criança e do Adolescente seja aplicado em sua íntegra.

NOTAS

Clarear
Em entrevista, em 2011, ao portal do Ministério do Esporte, que passou a apoiar o projeto Miratus, Sebastião Dias de Oliveira disse que o seu objetivo era “clarear o caminho dos jovens para que não tropecem e consigam enxergar os obstáculos nos seus caminhos”.

Cidadãos
“Quero formar cidadãos”, disse ele em outra entrevista, em 2005. Mas já previa que surgiriam resultados esportivos, fruto de seu treinamento: “Não custa viajar (nos sonhos)”.

Créditos
Globo Esporte, de onde compilei histórias das irmãs; definição de badminton,  no portal oficial do governo federal sobre jogos olímpicos; Estatuto da Criança e do Adolescente; Facebook de Sebastião Dias de Oliveira, criador do projeto Badminton.

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