Plínio Bortolotti

Cristovam e o “cheirinho de golpe”

Artigo para a editoria de Política, edição de 12/5/2016 do O POVO.

Cristovam e o “cheirinho de golpe”
Plínio Bortolotti
O discurso de Cristovam Buarque foi um dos mais interessantes da sessão do Senado. Exilado durante ditadura civil-militar, com passagem pelo PT, PDT e atualmente no PPS, Cristovam apelou para a biografia para reafirmar sua militância de esquerda. Nessa condição, fez duras críticas ao PT, afirmando que ele, Cristovam, não mudou, porém a esquerda “envelheceu”. Acusou o partido de preferir políticas assistencialistas, em vez de promover “transformações estruturais”, e de não ter feito reformas profundas no “fisco” e na educação.

Li comentários bem favoráveis ao discurso de Cristovam nas redes sociais, mas o senador pareceu confuso, incomodado em algumas ocasiões, na defensiva em outras e contraditório em várias.

Lembrou que na juventude mobilizara-se para defender o mandato do governador de Pernambuco, Miguel Arrais, cassado em 1964. E que, 50 anos depois, discutia o impeachment de uma presidente (“de esquerda” me pareceu embutido na frase).

Afirmou ter avisado a presidente Dilma dos problemas, alertando-a dos “riscos econômicos”, mas que ela não teria ouvido, por “arrogância”. Assim, ele teria sido forçado a votar pelo impeachment: “A presidente não nos deixou outro caminho”.

Por fim, declarou que votava pela continuidade do processo, deixando em aberto qual seria a sua decisão final, mas que votaria pelo impeachment, caso chegasse à conclusão de que houve crime de responsabilidade. “Se houve crime e de que eu vou saber explicar esse crime para o povo entender, porque se não formos capazes disso, de nenhuma maneira será golpe, está na Constituição, mas se não explicarmos bem, vai ter um ‘cheirinho de golpe’, e isso não é bom para a democracia”. (Reprodução literal)

Se entendi, o senador disse que haverá uma fumaça de golpe, caso o suposto crime da presidente não seja bem explicado. Portanto, devemos supor que o crime somente se configurá crime se for bem demonstrado, o que ele entende, não se conseguiu ainda. Mas, se até agora, o professor Cristovam não conseguiu explicar aos seus eleitores o que aconteceu, será difícil fazê-lo até o julgamento final.

PS. Para ver o discurso.

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