Plínio Bortolotti

Cuidado com os doces e com as pesquisas

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 9/10/2016 do O POVO.

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Estou entre os que nunca acreditam nos interditos ou nos poderes milagrosos que supostamente contêm determinados produtos alimentícios: enquanto alguns comestíveis viram “tendência”, outros são condenados em tribunais de exceção.

Assim, surgem alguns vilões: o ovo (“aumenta o colesterol”), café é ruim (deve ter sido campanha dos mórmons), a carne vermelha (faz mal – mas só pro boi, que a fornece a contragosto), o leite (adultos não devem tomá-lo) – e o proscrito da hora: o glúten. Todos já foram absolvidos. Parece que somente o glúten permanece como réu.

O que pouca gente sabe é que alguns heróis ou vilões surgem da guerra entre as poderosas indústrias de bebidas e de alimentos.

Por isso, levo sempre em consideração o infalível conselho da minha avó: nada faz mal se consumido com moderação (e quanto menos processado, melhor).

Falando em “moderação”, até bebidas já foram inocentadas. “Pesquisas” mostram que o consumo de álcool, “em pequenas doses”, pode fazer bem à saúde. Por exemplo, tomar um copo de vinho diariamente previne várias doenças, “diz pesquisa”. Achar-se-ão “cientistas” – principalmente a soldo dos fabricantes – para confirmar essa e qualquer outra assertiva – contra ou a favor. Álcool, leite, café, ovo saíram da lista de suspeitos depois de campanha dos produtores, baseados em “pesquisas científicas”, claro.

O arrazoado acima vem a propósito da notícia mostrando que a indústria do açúcar dos Estados Unidos pagou cientistas, nos anos 1960, para que subestimassem a conexão entre o açúcar e doenças cardíacas, ao mesmo tempo em que promoviam a gordura saturada como responsável pelo problema. A informação está em documentos recentemente divulgados pelo jornal New York Times.

(A propósito, já existem “estudos” mostrando que a gordura saturada não faz mal à saúde, mas observe que a matéria fala genericamente em “pesquisas”, sem apontar a origem de nenhuma delas. De todo modo, sempre existem “pesquisadores” para atestar qualquer coisa.)

Os documentos revelam que a Associação do Açúcar pagou a três cientistas da Universidade Harvard 50 mil em dólares (atualizados) para que publicassem revisão das pesquisas sobre açúcar, gordura e doenças cardíacas, em 1967. Os estudos minimizavam a ligação entre o consumo de açúcar e a saúde cardíaca, atribuindo muitos efeitos nocivos à gordura saturada.

Pois bem, a partir desse estudo, e durante cinco décadas, as prescrições nutricionais para evitar doenças cardíacas levaram em conta os interesses do setor açucareiro. E muitas dessas recomendações são seguidas até hoje.

Em outro caso, no ano passado, notícia publicada pelo New York Times revelou que a Coca-Cola havia destinado milhões de dólares em verbas em pesquisas que buscavam enfraquecer a relação entre bebidas açucaradas e a obesidade. Em junho, a Associated Press noticiou que indústrias pagaram estudos assegurando que crianças que comem doces tendem a pesar menos do que aquelas que não os consomem (é isso mesmo que você acabou de ler).

Pode parecer escandaloso que cientistas tenham se prestado a um papel enganador, prejudicando milhões de pessoas. Mas o pior é que coisas assim continuam acontecendo. No livro “Ciência picareta” (Bad science, em inglês, algo como “Ciência má”), o médico e colunista do jornal inglês The Guardian revela casos tão frequentes e aterradores quanto os aqui relatados.

NOTAS

Revistas
O estudo, favorável à indústria açucareira, dos três cientistas de Harvard, foi publicado pela revista científica “New England Journal of Medicine”, em 1967. Quem encontrou os documentos dos produtores de açúcar foi uma pesquisadora da Universidade da Califórnia, que publicou a descoberta na revista “JAMA Inernacional Medicine”, no mês de setembro.

Ciência
Pensei que já comentara o livro “Ciência picareta” nesta coluna. Dei uma busca nos meus arquivos e não encontrei. Se nada localizar, talvez volte ao tema.

Créditos
The New York Times (em português): Como a indústria do açúcar empurrou a culpa para a gordura;  O Globo: Novas pesquisas mostram que gordura saturada não faz mal à saúde .

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