Plínio Bortolotti

Efeito Geddel: movimento contra a anistia ao caixa 2 ganha apoio de Temer

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Reprodução da coluna “Política”*, edição de 29/11/2016 do O POVO.

Efeito Geddel: movimento contra a anistia ao caixa 2 ganha apoio de Temer

Depois de ser surpreendido pela divulgação de sua conversa – no limite da responsabilidade – para resolver o problema particular de seu “homem de confiança”, o presidente Michel Temer está decidido a pôr-se resolutamente contra a corrupção.

Convidou jornalistas a uma entrevista coletiva ao meio-dia de domingo e, junto com os chefes do Legislativo – Rodrigo Maia (Câmara) e Renan Calheiros (Senado) – anunciaram um acordo para impedir a tramitação da proposta que prevê anistia ao caixa 2.

OPINIÃO VARIÁVEL
A opinião de Temer sobre o assunto variou de acordo com a natureza dos acontecimentos. Em entrevista ao programa Roda Viva, deu uma de Pôncio Pilatos: “Esta é uma decisão do Congresso. Eu não posso interferir nisso”. Na semana passada, disse a aliados que não teria problema em sancionar um artigo perdoando os políticos que receberam verbas via caixa dois.

Quando veio à tona que “altas autoridades da República perdiam o seu tempo em favor de um assunto paroquial” (Marcelo Calero, no Fantástico), resolveu ouvir a “voz das ruas”, também conhecida como “efeito Geddel Vieira Lima”, e passou a condenar a anistia ao caixa 2.

POLÍTICA TEM DESSAS COISAS
Mas Temer poderia ter evitado a entrevista coletiva de domingo, cujo objetivo foi pôr um band-aid em uma chaga aberta. Bastava ter marcado um jantar com a sua base aliada e orientá-la a inverter o sentido de seu trabalho, que hoje é dedicado a cabalar uma saída para livrar políticos da punição por receber recursos não contabilizados em suas caixas de campanha.

Mas, como se diz por aí, “a política tem dessas coisas”.

CUBA, O RATO QUE RUGE
Claro que será necessário um balanço dos feitos do mais importante e longevo líder da esquerda latino-americana, Fidel Castro – e a história o absolverá ou não.

No entanto, o mais instigante agora é saber o que acontecerá com Cuba, que vinha se aproximando dos Estados Unidos, por meio de Barack Obama. Porém, o presidente eleito, Donald Trump, entrou na conversa com a delicadeza de um hipopótamo em uma loja de louças.

HERÓI OU VILÃO?
Interessante ver o que diz o biógrafo de Che Guevara, Jon Lee Anderson, jornalista que viveu dois anos em Cuba (1993/1995). Ele chama a atenção para as interpretações “simplistas” que se seguiram à morte de Fidel: “Parece que a questão é julgar apenas se foi um vilão ou um herói. Mas creio que é preciso ir além. Fidel foi importante, é preciso entender seu papel histórico no enfrentamento das grandes potências, assim como todos os seus erros” (Folhapress, 26/11/2016).

MODELO VIETNÃ
Em entrevista mais antiga, ao ser perguntado se Cuba se aproximaria do modelo chinês, com o partido comunista continuando a ditar a política, mas com abertura para o modelo capitalista, Andersen disse que o mais provável seria um regime parecido com o do Vietnã “porque a China manteve muito pouco da rede de proteção social para seu povo; os cubanos gostariam de ver a essência do socialismo – educação, saúde, bem estar para os idosos e habitação – preservados, embora isso seja difícil, mesmo para democracias sociais na Europa” (Estado de S. Paulo, 20/4/2015).

NOVA ESQUERDA
Ainda para a Folhapress, o jornalista disse que “talvez o fim dessa era, que se encerra com a morte de Fidel, seja o surgimento de uma nova esquerda, livre do que havia de negativo nesse legado”.

A ver. O mesmo foi dito quando caiu o muro de Berlim.

A PROPÓSITO
O “Rato que ruge” é uma comédia britânica de 1959. O filme conta a história do “Grão-Ducado de Fenwick”, minúscula nação fictícia que declara guerra aos Estados Unidos. O objetivo é perder a guerra para obrigar os americanos a investirem na reconstrução do país. Por uma série de circunstâncias cômicas, Fenwick vence o combate, mas não sabe o que fazer da vitória.

*Em substituição ao titular Érico Firmo, que está de férias.

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3 Comentários

  • Paulo Marcelo Farias Moreira disse:

    1.
    Lamentável a inadequada intervenção de Temer.

    2.
    Donald Trump, entrou na conversa com a delicadeza de um hipopótamo em uma loja de louças.
    Mas até hoje, mesmo com as tentativas de Obama, Cuba não cede um milímetro para que as liberdades e a democracia sejam restabelecidas.
    Quem faz mais estragos aos cubanos?

    Transcrevo Arthur Fonseca:
    Após a doença e afastamento de Fidel, seu irmão Raul iniciou uma série de medidas para tentar melhorar a economia do país. Abriu pequenas brechas ao investimento estrangeiro e demitiu milhares de funcionários que não faziam absolutamente nada. Porém, devido a falta de liberdades civis e a ainda intensa repressão, essas medidas estão produzindo resultados pífios.

    3.
    Jon Lee Anderson
    Fidel foi importante, é preciso entender seu papel histórico no enfrentamento das grandes potências, assim como todos os seus erros.

    COMENTO:
    Importante apenas para alguns jornalistas e historiadores que também tem bandidos de estimação e tentaram mostrar que tudo é maravilhoso na ilha, apesar das constantes tentativas de fuga.
    Particularmente acredito que alguns temiam o JUSTIÇAMENTO que seus fãs faziam aqui.
    O CARISMA extraordinário que diziam ser possuidor pode ter sido conquistado pelos fuzilamentos de quem ousasse contestá-lo.

    François Hollande,
    Encarnou a revolução cubana, tanto nas esperanças que despertou como depois nas desilusões que provocou.

    Augusto Nunes,
    Em dez/1958, quando Fidel preparava a tomada de Havana, havia em Cuba uma ditadura a derrubar, uma economia asfixiada pela monocultura da cana e prostitutas demais. Em dez/1987, nada havia mudado. Passados quase 30 anos, ao anunciar a partida do chefe supremo dos carcereiros, o irmão herdeiro Raúl apossou-se da ilha-presídio congelada na primeira metade do século 20: agora como antes, há prostitutas demais, um oceano de canaviais asfixiando a economia e uma ditadura a sepultar.

    4.
    Andersen disse que o mais provável seria um regime parecido com o do Vietnã porque a China manteve muito pouco da rede de proteção social para seu povo; os cubanos gostariam de ver a essência do socialismo – educação, saúde, bem estar para os idosos e habitação – preservados, embora isso seja difícil, mesmo para democracias sociais na Europa.

    Socialismo e bem estar é um paradoxo.
    Transcrevo Rodrigo Constantino,
    No capitalismo, as pessoas são movidas pelo lucro e pelo auto-interesse, mas logo percebem que só conseguirão prosperar caso seu esforço e seu trabalho atendam às necessidades alheias. Não por acaso, a grande maioria dos homens que mais benefícios trouxeram à humanidade não eram movidos por ideais altruístas, mas pelo desejo de prosperidade individual.
    A imensa maioria das criações humanas são resultado não de intenções altruístas e benevolentes, mas pura e simplesmente de lucro e interesses próprios. Em resumo, como magnificamente descreveu Adam Smith, nas economias de livre mercado, os indivíduos, na busca de seus próprios ganhos, são levados, por uma espécie de mão invisível, a trabalhar pelo bem geral.

    OS POBRES NÃO TÊM QUALQUER CHANCE FORA DO CAPITALISMO!

  • DIEGO LUZ disse:

    Perfeita a análise de Michel Temer.

    Mas saibam que dia 4/12 vamos as ruas.

    Falar de bem estar social do povo cubano é tão sincero quanto Renan e Maia dizendo-se contra o caixa 2.

    A história será revelada e aí então veremos realmente se a educação e saúde cubana são realmente o que vende a propaganda.

    Alguns relatos dizem o contrário. Dizem até que está mais próximo do Brasil do que se imagina.

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