Plínio Bortolotti

Os assassinos e os cúmplices dos crimes de ódio

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Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 12/3/2016 do O POVO.

Os assassinos e os cúmplices dos crimes de ódio

No fim do mês passado, em Fortaleza, uma travesti, Dandara dos Santos, 42 anos, foi brutalmente assassinada e o vídeo de sua execução a pauladas, chutes, tapas e murros circulou na internet. O Ceará ocupa a 6ª posição no ranking de assassinatos LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais) no Brasil, segundo relatório do Grupo Gay da Bahia de 2016. Nesse ano, foram registrados 343 homicídios, os chamados de “crimes de ódio” em todo o País, 15 deles no Estado.

Muita gente chocou-se, talvez pela exposição crua das agressões, acompanhadas de xingamentos homofóbicos dirigidos à vítima, mas talvez menos pessoas tenham se perguntado por que isso acontece com tanta frequência – e qual o motivo de tamanho incômodo com a orientação sexual alheia, como se isso fosse uma ofensa pessoal para tantos imbecis.

Sim, porque existem aqueles que levam às últimas consequências o seu ódio e aqueles que somente condenam, sem perceber (ou percebendo) que seu comportamento os tornam espécie de cúmplices desses assassinatos, com os mais ousados agindo como braços armados dos partidários do ódio e do desprezo. (É o mesmo grupo que nega a existência do feminicídio.)

Uma explicação talvez esteja pelo fato de as religiões verem a homossexualidade como prática abjeta, uma perversão (mesmo o sexo heterossexual é mal visto pelos religiosos, a não ser quando praticado para dar continuidade à espécie). Mas pensemos um pouco: se Deus é o todo-poderoso, criador do Cosmo, do céu e da terra, por que ele estaria preocupado com a forma como seus filhos exercem a sexualidade, um presente que ele mesmo deu à humanidade?

Sendo todo-poderoso, ele poderia ter feito outra escolha, não?, inclusive criando uma forma de reprodução assexuada, sem repartir a humanidade em diferentes sexos. Talvez alguém lembre o pecado original, ok, mas se o houve é porque, mesmo no paraíso, já havia o homem e a mulher. E, qualquer um – mesmo não sendo Deus – poderia prever que eles acabariam por descobrir a diferença, por evidente.

Além disso, há aqueles sujeitos que se acham porta-vozes de Deus, como o pastor Silas Malafaia, que surge babando na internet para vociferar contra o primeiro desenho animado da Disney que mostra cena de beijo gay e contra o novo filme baseado no clássico do conto de fadas “A bela e a fera”, também da Disney. O que fez Malafaia subir nas tamancas foi a declaração do diretor Bill Condon (que não se perca pelo nome), afirmando que será o primeiro filme da Disney com um personagem homossexual e “um momento exclusivamente gay”.

Malafaia e muita gente boa (quer dizer, má) acusam a Disney de fazer “propaganda gay para crianças”, como se a sexualidade fosse uma escolha entre dois potes de margarina. Porém, até hoje, não se descobriu o que define a orientação sexual. O que se sabe – e somente isso já bastaria para considerar natural as diversas formas de sexualidade – é que as várias formas de exercê-la sempre existiram em qualquer agrupamento humano. Portanto, o fato de os heterossexuais serem maioria (pelo menos aparentemente) não significa que outros tipos de comportamento sejam desviantes, condenáveis ou “antinaturais”.

No mais, amigos, mesmo que a homossexualidade seja uma “opção”, como querem alguns, seria apenas isto: uma escolha. Ou seja, ninguém será obrigado a ser homossexual, lésbica ou travesti. Portanto, por favor, deixem cada um viver em paz e esqueçam esse papel ridículo de fiscais da sexualidade alheia.

NOTAS

Rússia contra os gays…
A Rússia também quer censurar “A bela e a fera” em seus cinemas com base em uma lei que proíbe “promoção de propaganda gay para menores de 18 anos”.

…e a favor da agressão às mulheres
O parlamento russo também aprovou em janeiro lei que descriminaliza a violência doméstica contra mulheres. Desde que não ocorram “lesões corporais graves”, o marido pode bater na mulher e nos filhos uma vez por ano. As ressalvas soam irônicas, não fossem sombrias. (A propósito, entre os autores da lei está uma mulher.)

Beijo
A primeira cena de beijo gay em um desenho animado da Disney – casais formados por duas mulheres e por dois homens – foi em um episódio da série “Star versus As Forças do Mal”, no Disney Channel, Estados Unidos.

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1 comentário

  • DIEGO LUZ disse:

    Tudo é crime de ódio?

    A primeira vista sim(?).

    O jornal o povo (http://link:opovo.com.br/jornal/cotidiano/2017/03/dandara-dos-santos-foi-alvo-de-linchamento-apos-boato-diz-policia.html) trusse reportagem que transcrevo, com a devida venha.
    “Dandara dos Santos foi alvo de linchamento após boato, diz Polícia” – não crime de ódio, conforme opinião pessoal.

    ““Pega ladrão”. O grito teria sido mais um agravante que motivou a morte brutal da travesti Dandara dos Santos, caracterizada pela delegada Arlete Silveira como crime de “preconceito, ódio e atordoamento”. Com a apreensão de um adolescente de 17 anos e a prisão de Rafael Alves da Silva Paiva, 21, a Polícia Civil colheu mais depoimentos e obteve a informação de que moradores seguiram falso alerta de roubo. Esse boato teria feito com que pessoas se reunissem para agredir e humilhar Dandara.
    Conforme a delegada, os suspeitos que prestaram depoimentos afirmaram que Dandara teria praticado roubos e furtos no bairro. Porém, conforme a delegada, a informação é falsa e teria servido para incitar a violência.
    “A vítima não tinha passagem pela Polícia, não tinha antecedente, era querida na comunidade. O que acontece é um atordoamento. Uma pessoa chega e diz ‘pega ladrão’. As pessoas começam a correr, entram no tumulto e começam a agredir a vítima”, descreve Arlete. As informações foram divulgadas ontem.”

    Alguns meses atrás um homossexual foi encontrado morto embaixo de um viaduto paulista. Logo se ventilou crime de ódio. Investigações posteriores confirmaram o suicídio da vítima.

    A retórica diria, então não há crime de ódio, para você?

    Para mim, sim há crime de ódio, mas nem todos os crimes sofridos são de ódio principalmente aqui no Brasil.
    A grande maioria dos homo, trans, bi, etc., são vítimas de parceiros de ocasião.De latrocídas.

    Um latrocina não mata um pai de família para roubar seu bem não por ódio, mas por maldade e crença na impunidade.
    Um corrupto desvia dinheiro não por ódio aos mais pobres, mas a certeza de impunidade e desprezo pelo dinheiro dos contribuintes.

    Muitas vezes apenas por ter uma visão diferentes somos pré-julgados.

    Dou dois exemplos.

    Recentemente a jornalista Adisia Sá foi “repreendida” de forma sutil quando levada ao opinar sobre agressões de alguns homens a mulheres. A jornalista simplesmente respondeu:”as vezes tiramos a paciência de um homem, vocês sabem que sim.” Pronto, para as colegas do momento Adisia foi homofóbica e não representava os valores do “O Povo”. Esta semana ouvia, como sempre, a CBN quando o discurso do Temer – no dia das mulheres – era debatido e analisado como machista Floriana. Como é política do jornal solicitar a opinião dos ouvintes ou leitores, alguém lembro a frase do Lula: “…mulheres de grelo duro”. Como também é política dos radialistas, opinar sobre perguntas e opiniões dadas, o ouvinte foi chamado de machista, homofóbico, fascista, que tratava mal as mulheres, etc. Pronto, foi pré-julgado e cortado a cabeça por lembrar que o espelho tem dois lados.
    Muitas vezes por ansiedade e por querer marca posição contra determinados valores, os jornalistas se exacerbam, não conferem os fatos (lembrem aí do “fack news” do Joselito Miller que o O Globo engoliu, o cara é ótimo).
    Contrário do que se propaga nas grandes mídias, as religiões majoritárias brasileiras não propagam o ódio aos gays. Pelo que eu me lembre, quem joga gay do alto de prédio são seguidores do Alcorão e não do catolicismo. Quem mais utiliza o ódio como arma de ataque são os partidos com viés socialistas. Os brancos contra os negros; os ricos (exploradores) contra os pobres (explorados); as feministas (tuto bona gente) contra não-feministas (malditas).O filho contra o pai opressor; o trabalhador contra o patrão, e por aí vai. Como exemplo cito no ultimo congresso da UNE que representação artistica tipicamente cearense, Maracatu, foi hostilizada por “representantes do coletivo negro afrodecedente de pele escura, por entenderem que era “apropriação cultural ou de cor dos atores. Intolerantes, não?

    Bem, o Criador fez as amebas assexuadas.

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