Plínio Bortolotti

O principal inimigo foi abatido

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Reprodução do artigo publicado na editoria de Opinião, edição de 1º/2/2018 do O POVO.

O principal inimigo foi abatido

Parece óbvio que Lula, como qualquer outro presidente, foi conivente ou beneficiário da corrupção. Essa prática foi o modo de governar no pós-ditadura. “Eruditos”, a exemplo de FHC, apelavam para a “ética da responsabilidade”; os truculentos recitavam a oração de São Francisco: “É dando que se recebe”. Injustiça com o pobrezinho de Assis.

Para tocar programas de governo é preciso comprar o apoio do MDB e de dezenas de partidos, cujos deputados ficam de bico aberto e batendo as asinhas, esperando o petisco no confortável ninho do Congresso Nacional. Se todos agiram assim, Lula está desculpado? Não. Mas, no TRF-4 estava em julgamento um fato específico – que não restou provado – e não o “conjunto da obra”.

Assim, por que os outros presidentes, o atual incluso, seguem incólumes? Por que a “bolsa sobe e o dólar cai” a cada desgraça sofrida por Lula? Por que a prática do suborno, agora exposta em praça pública, passou a ser aceita? Resposta: porque a exigência ética por parte do “mercado” e da elite tem alvo específico.

Lula – menos pelo seu comportamento e mais pelo que representa – nunca foi aceito nos círculos do poder. Nos seus mandatos a elite temeu desafiá-lo cara a cara pela força de que dispunha. Mas minava-o à socapa. Um dos ataques preferidos, com apoio de certa imprensa do “sul”, era tachá-lo de “ignorante”, pois falava “errado”.

Luiz Inácio, por sua vez, pensava haver amansado o burro chucro que é a elite brasileira. Imaginou ter sido aceito na Casa Grande, mas era apenas tolerado. Os mínimos acenos em direção aos mais pobres foram violentamente contestados pelos bem-nascidos. Onde já se viu preto na universidade? E pobres infectando aeroportos? E o Bolsa Família para sustentar vagabundo?

Ao leitor, estas perguntas: Lula usou o suborno como como instrumento de governar e, eventualmente, beneficiou-se pessoalmente? Se a resposta for sim, responda à segunda pergunta: foi o único presidente a praticar tais atos? E a terceira: por que somente sobre ele desceu a marreta compacta do Judiciário?

A pesquisa do Datafolha, divulgada ontem, ajuda um pouco nas respostas. Veremos agora se, abatido o principal inimigo, a sanha justiceira continuará.

6 Comentários

  • Luciano de Andrade Filgueiras Filho disse:

    Essa elite política e econômica brasileira é tão gananciosa quanto burra e cega! Enquanto “ganha” dinheiro por diversos “meios” já conhecidos, com Lula ou sem ele, não vê ou não quer ver que as consequências do modelo econômico que defende e que há séculos produz vítimas na base da pirâmide social, cada vez mais, está também se tornando vítima…

  • Paulo Marcelo Farias Moreira disse:

    1. Assim, por que os outros presidentes, o atual incluso, seguem incólumes?
    Cito Reinaldo Azevedo comentando matéria da Folha
    “A ÚNICA DENÚNCIA APRESENTADA PELA PGR, CONTRA O SENADOR ROMERO JUCÁ(MDB-RR), ESTÁ DESDE AGOSTO SEM DECISÃO NO STF. O TRIBUNAL PRECISA DIZER SE HÁ INDÍCIOS MÍNIMOS DE AUTORIA PARA DAR INÍCIO A UMA AÇÃO PENAL, O QUE TORNARIA O SENADOR RÉU.”
    Daquela baciada de delações homologadas por Cármen Lúcia, certamente sem ler, só um caso se transformou até agora em denúncia. Se há morosidade, não é do STF, mas dos órgãos de investigação, incluindo o Ministério Público Federal — a PGR em particular.
    Há um parágrafo na reportagem da Folha que pode acrescentar uma baita confusão ao conjunto da obra:
    “A velocidade para o acolhimento de uma denúncia nos casos da Lava Jato é bem diferente na primeira instância. O juiz Sergio Moro, de Curitiba, por exemplo, gastou em média 3,5 dias para decidir sobre a abertura da ação penal em dez dos principais casos da operação.”
    Bem, dado o que se informou, não há dúvida de que Sérgio Moro é rápido…. Mas notem que ele só pode abrir ação penal com o oferecimento de uma denúncia. E, no caso do Supremo, o MPF (ou, se quiserem, a PGR) só ofereceu UMA DENÚNCIA.

    2. E pobres infectando aeroportos?
    Foi a concorrência e liberdade tarifária que permitiram isso.
    Matéria de Estúdio Folha,
    Depois de um período em que o governo controlava desde a compra de aeronaves e o número de companhias autorizadas a atuar no mercado, em quais rotas e quanto elas poderiam cobrar, o setor foi se abrindo gradualmente a partir de 1992, num movimento que durou até 2001, quando a liberdade tarifária passou a ser total. O ambiente cada vez mais competitivo levou a entrada de novas empresas. Para os passageiros, o resultado foi mais opções de serviços e queda no preço das passagens.
    Até 2001, as empresas tinham um teto para as tarifas estabelecido pelo governo, que também definia as regras de cancelamento e de remarcação de bilhetes. Praticamente todos os passageiros pagantes desembolsavam a mesma quantia para garantir um lugar no voo. Em caso de viagens com mais de uma classe (Primeira, Business e Econômica), havia uma única tarifa para cada seção.
    A desregulamentação tarifária permitiu às empresas praticar tarifas distintas, atendendo a diferentes perfis de consumidor. Isso levou à inclusão de passageiros de primeira viagem, em um mercado então dominado por viagens a negócio, com pouca gente viajando muitas vezes.

  • Diogo disse:

    Lula o pobre homem milionário.
    LILS foi condenado pelp que realmente é.
    Foi acisado por 71 crimes e condenado por 2.
    Mas como diz o poeta:
    O choro é livre.
    E como doz a poetisa:
    Chora mais

  • Diogo disse:

    Se os “intelectuais” conseguirem escrever um texto sem a palavra “elite” ou a expressão ” ricos odeiam pobres “. Eu também conseguirei.

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