Plínio Bortolotti

Bolsonaro merece uma sapatada simbólica

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Reprodução do artigo publicado no jornal O POVO, edição de 12/3/2020, editoria de Opinião.

Bolsonaro merece uma sapatada simbólica

Pode-se dizer que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido e sem rumo) obteve pelo menos uma vitória contra a imprensa. Ele conseguiu pôr os jornais em uma espécie de sinuca de bico: como tratar o vomitório expelido por ele a cada encontro com jornalistas à saída do Palácio do Planalto?

Surgiram duas correntes que se confrontam em listas especializadas e pelas redes sociais. Alguns preconizam que os jornais deixem de enviar repórteres para ouvir o presidente; outros afirmam que os jornalistas não podem desertar de seus postos, tendo a obrigação de suportar as diatribes bolsonarianas em nome do dever profissional de bem informar à sociedade.

Afinal, as palavras de Bolsonaro repercutem na política e na economia, além de constituírem o motor principal das “polêmicas” nas redes sociai. Sem as performances presidenciais, provavelmente haveria uma debacle no Twitter e no Facebook, muito pior daquelas que acometem a Bolsa de Valores – e quem haveria de querer tamanha desgraça?

Jornalistas mais “radicais” veem mesmo como o cúmulo da humilhação o “cercadinho” destinado aos profissionais de imprensa, dividindo o espaço com a claque bolsonariana, especialmente convidada para apupar jornalistas e a aplaudir qualquer asneira que o presidente pronuncie ou faça.

Quanto a mim (que não sou da esquerda caviar apenas pela falta de dinheiro suficiente para inscrever-me em seus quadros) não fico nem de um lado nem de outro, nessa divisão que atinge a tribo jornalística. Procuro um “caminho do meio”.

A meu ver, os repórteres deveriam continuar encarando o cercadinho, mas deviam reagir quando fossem atacados. À primeira agressão de Bolsonaro, responderiam alto e bom som: “Alto lá, sr. presidente, nós cá estamos trabalhando, e exigimos respeito. Por favor, comporte-se como um verdadeiro presidente da República”. Seria uma espécie de sapatada simbólica para lembrar ao presidente que jornalista também é um ser humano igual aos demais terráqueos.

Haveria a vantagem adicional que poderia contentar a banda revolucionária que não quer jornalistas participando dessas ocorrências: é bem provável que o próprio Bolsonaro tomasse a iniciativa de fechar o cercadinho.