Política

Os bastidores da participação de Cid Gomes em evento de campanha do PT

Cid e Camilo (Foto: Tatiana Fortes/O POVO)

Participação de Cid Gomes durante ato do PT na última segunda-feira foi tumultuada (Foto: Tatiana Fortes)

Horas antes da confusão que marcaria a participação do senador eleito Cid Gomes (PDT) em encontro do PT na última segunda-feira, o clima entre os militantes da legenda já não era dos melhores.

No início da noite, pesquisa Ibope mostrara novamente o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) com 59% ante 41% do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT).

O cenário desfavorável aumentava ainda mais a expectativa em relação à presença de Cid, articulador político do ex-candidato Ciro Gomes, terceiro colocado na corrida presidencial.

Os pedetistas e outros aliados de Camilo, todavia, não se mostravam entusiasmados com a hipótese.

Sob anonimato, um deles descartou de pronto qualquer possibilidade de uma participação efetiva dos Ferreira Gomes no movimento pró-Haddad.

“Depois de tudo que houve, o estrago é muito grande. É impossível recompor essas relações”, disse, referindo-se às rusgas entre PT e PDT durante o primeiro turno, quando Ciro ainda tentava ampliar seu arco de alianças partidárias, mas esbarrou nas intervenções da sigla lulista.

Questionado sobre as chances de apoio do grupo cirista ao candidato do PT, o deputado federal eleito e ex-assessor econômico de Ciro, Mauro Filho, disse que não sabia.

Sobre a estratégia para garantir a transferência de votos do ex-presidenciável para Haddad no segundo turno, Mauro foi reticente: “Me faça essa pergunta daqui a 40 minutos”.

Nesse intervalo, porém, o ato petista, o primeiro no Estado na tentativa de construir uma frente democrática contra Bolsonaro, já estaria encerrado.

Prefeito de Sobral, Ivo Gomes, que chegou sozinho ao auditório do Marina Park Hotel, adotaria postura semelhante à de Mauro.

Ao O POVO, repetiu, em tom cauteloso, o que o correligionário já dissera: não sabia como seria a cota do PDT nessa articulação. “Estou aqui para descobrir isso”, acrescentou.

Após uma hora e meia de atraso – o evento havia sido marcado para as 19h, mas só começaria perto das 21h, quando o auditório já estava repleto e a militância, impaciente -, Cid entrou no hotel.

Veio acompanhado do governador e afilhado político Camilo Santana (PT), principal cabo eleitoral de Haddad no Ceará e elo mais forte do petista com o grupo de Ciro Gomes.

Por portas diferentes, Camilo e Cid encaminharam-se ao palco, onde os esperavam as cúpulas de PT e PDT no Ceará.

Ivo não subiu. Durante todo o discurso do irmão, manteve-se ao longe, entre a multidão.

Primeiro a falar, Cid disse cobras e lagartos a uma plateia integralmente petista. Suas declarações renderiam memes e chegariam ao topo dos assuntos mais citados no Twitter.

Entre as principais imprecações do senador eleito no encontro, uma se destacaria. Provocado por um militante do PT, que gritou “Lula livre” como resposta às cobranças de Cid para que a legenda fizesse um mea-culpa, o ex-governador do Ceará atalhou: “Lula tá preso, babaca”.

Os apupos, primeiro isolados e depois em volume, não tardaram.

O discurso do ex-ministro levaria dez minutos. Antes disso, porém, uma parcela dos pedetistas já havia deixado o auditório.

Apontado como um dos coordenadores da campanha de Haddad no Ceará – ele mesmo se mostraria surpreso com a informação –, Idilvan (PDT), ex-secretário da Educação do Estado, não estava mais na sala quando Camilo o mencionou em discurso após o de Cid.

A fim de amenizar a saia-justíssima deixada por Cid, o chefe do Executivo cearense gracejou: “Tá quente, aqui, né?” Em seguida, perguntou: “Quem é o coordenador disso aqui?”

Alguém soprou: é o Idilvan. Deputado federal eleito, o pedetista reapareceu no auditório.

Ivo, por sua vez, já se refugiara do lado de fora da sala, logo depois do encerramento da fala do irmão. Saiu discretamente pela porta lateral.

No palco, ao lado governador, permaneceria apenas o próprio Cid, que foi escoltado por seguranças depois de exigir à plateia de duas mil pessoas que o PT fizesse autocrítica antes de pedir qualquer apoio e vaticinar uma derrota da legenda no próximo dia 28.

Houve ainda empurra-empurra, choro e discussões. Novamente, Camilo sairia por uma porta e Cid, por outra.

Do lado de fora do hotel, encerrado o evento, um pedetista gracejaria: “Esse Cid dá um trabalho pra gente”. E saiu gargalhando.

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