Política

Chico Alencar sobre Wyllys: “Era o único que assumia sua orientação, tem vários outros enrustidos lá”

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(Foto: Agência Brasil)

O deputado federal Jean Wyllys (Psol-RJ) anunciou nesta quinta-feira, 24, que não retornará ao Congresso Nacional para o terceiro mandato consecutivo. Alegou estar recebendo frequentes ameaças de morte. Assim, disse em entrevista a Folha de São Paulo, se dedicará exclusivamente à vida acadêmica. Amigo de Wyllys, o ex-deputado federal falou sobre o assunto com exclusividade

Em conversa com o Blog Política, Chico Alencar classifica Jair Bolsonaro (PSL) como “primário” e “moloque” em razão de supostos tuítes direcionados ao psolista.  Afirma ainda que, para o presidente da República, hoje pode ser “grande dia”, mas amanhã um dia “horroroso”, com as investigações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que rondam o filho, o senador eleito Flavio Bolsonaro (PSL).

Confira a íntegra da entrevista:

Blog Política – Como senhor recebeu a notícia?

Chico Alencar – Bom, desde a execução da Marielle Franco e do Anderson (motorista), o Jean, que também era um dos muito atacados, passou a ser mais alvo. Aliás, ele já havia recebido ameaças de morte mesmo antes da Marielle, além de preconceito. Ele nos falava que a pior coisa era você, no seu próprio País, estar tendo de viver escoltado. Era coisa muito ruim pra ele ter de viver quase que clandestinamente. Isso não o impediu de disputar eleição. Foi reeleito. (Entretanto) a gente tem que respeitar a decisão, porque só quem sofre esse tipo de discriminação e ameaça é que avalia o peso disso. Se se sentiu sem condições… Agora, é interessante que o suplente dele também é gay assumido e impunha as mesmas bandeiras que as dele.

BP – O deputado Jean Wyllys lhe relatava sensação de insegurança?

CA – A proteção que ele recebia não era suficiente. Ele se sentia muito inseguro, ainda mais com a gente vendo tantos policiais envolvidos com grupos mafiosos.

BP- E ele já vinha dando sinais de que não retornaria à Câmara dos Deputados?

CA – Ele jamais falou “não vou assumir o mandato”. Só falou da situação, estava andando muito triste, pediu pra passar o janeiro longe da política, das articulações, das reuniões do Psol, porque precisava respirar, como ele diz. Soubemos quase como vocês. Vai fazer muita falta uma figura como Jean no parlamento. Porque era o único que assumia sua orientação (sexual), tem vários outros enrustidos lá, pessoas pela metade. (Jean) era o único representante assumido e isso lhe custava um preço de preconceito e mentira. Não tem nenhum parlamentar tão agredido com fake news quanto ele. Já o acusaram de querer suprimir trechos da Bíblia, até…

BP – A vitória do Bolsonaro teve influência na decisão dele de não seguir?

CA – A vitória do Bolsonaro e da maioria conservadora também abalou bastante ele, a todos nós. Ele sabia que ia ser o alvo principal da ultra direita….

BP – Minutos após Wyllys anunciar que não assumiria o terceiro mandato, o presidente Jair Bolsonaro, pelo Twitter, publicou “Grande dia!”, acompanhado de alguns emojis. Após isso, internautas e opositores sugeriram relação entre o post e o anúncio do deputado. Ele desmentiu, alegando “missão concluída” e “reuniões produtivas com Chefes de Estado”.

CA – Chegamos a ter conhecimento disso. Bom, o Bolsonaro é um primário e, além de tudo, um mentiroso. É obvio que ele estava se referindo ao Jean, por quem tem uma gana. Ele não conseguia passar perto dele sem fazer uma piadinha de mau gosto, uma ofensa e o Jean não levava desaforo pra casa. Óbvio que esse comentário dele é sobre o Jean. É um presidente da República que às vezes age como um moleque da esquina que gosta de briga de rua. Hoje pode ser um “grande dia”, amanhã pode ser um dia horroroso, com as investigações que rondam o filho dele (o senador Flávio Bolsonaro (PSL)). 

BP – A decisão de Jean em relação a política partidária é definitiva? 

CA – Não! Ele tem grande apresso pelo Psol. Claro que ficando fora como ele vai ficar, vai ter uma atuação diferenciada, mas ele sempre conviveu muito bem com a bancada, uma divergência aqui e ali como é natural, mas o mandato não pode ser um limitador e ele vai continuar no Psol, mesmo sem ter mandato parlamentar. Vamos em frente!

 

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