Política

Análise: Governo precisa de votos no Congresso, não de novas polêmicas

Boneco de Bolsonaro no Carnaval de Olinda (Foto: Divulgação)

Jair Bolsonaro (PSL) poderia estar articulando a sua base no Congresso, poderia estar afinando o projeto de reforma da Previdência, poderia estar melhorando a sua popularidade, mas está no Twitter polemizando.

Prioridades.

O presidente tinha cinco dias de Carnaval pela frente para colocar a casa em ordem. Deixar para trás o desgaste causado por sucessivas trapalhadas, denúncias de “laranjas” e arranca-rabos palacianos que ampliaram as dificuldades do Governo em tocar a sua agenda.

Construir um núcleo de apoio no Senado e Câmara, por exemplo, era tarefa primordial. Afinal de contas, a reforma da Previdência vem por aí, tão logo se encerre o Carnaval.

Bolsonaro também poderia ter ajudado todos a esquecer a fritura do ministro da Justiça Sergio Moro, desautorizado publicamente pelo mandatário.

Mas o que fez o presidente? A um dia do fim de uma folia transgressora e politizada, meteu-se numa arenga virtual da qual não extrai qualquer ganho político, apenas acena aos grupos que embalaram a sua eleição.

Isto sem falar na impropriedade que é compartilhar esse tipo de conteúdo afirmando que se trata um traço frequente do Carnaval brasileiro.

Como presidente, Bolsonaro não deveria atacar o Carnaval, um patrimônio imaterial brasileiro. É ruim para o País, cultural e economicamente. Sob esse ponto de vista, a postagem do gestor foi um tremendo gol contra.

O pano de fundo dessa polêmica é a incapacidade do presidente de descer do palanque. É ingenuidade supor que ele irá fazê-lo em algum momento, muito menos durante um evento no curso do qual ele se tornou alvo de protestos.

Pelo contrário, da manutenção dessa retórica beligerante, sobretudo envolvendo temas morais, depende alguma coesão ideológica no Planalto. É o que mantém a sua militância engajada.

O problema é que o chefe do Executivo tem um conjunto amplo de medidas para enviar ao Congresso, entre as quais a Previdência, cuja aprovação depende de pelo menos 150 votos ainda – numa perspectiva otimista.

O governo não tem esses votos. Bolsonaro poderia estar empenhado em conquistá-los para chegar ao pós-Carnaval com mais chances de ter sucesso na Câmara, por onde a medida começa a tramitar.

Para ele, no entanto, é mais urgente postar bobajadas nas redes sociais que alimentam o discurso de ódio contra minorias, sempre batendo na mesma e surrada tecla de uma suposta degenerescência social para a qual ele, o “mito”, seria a solução.

O pesselista não parece enxergar que, desde outubro de 2018, tornou-se presidente da República com o voto de 57 milhões de brasileiros, que esperam agora que ele passe a se comportar com o decoro e a seriedade que o cargo que ocupa requer.

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