Nilza Botelho Megale
[MEGALE, Nilza Botelho. Invocações da Virgem Maria no Brasil: História – Iconografia – Folclore. Ilustrações de Eduardo Paez. 3ª. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997, p. 17.]
A historiadora, museóloga e folclorista Nilza Botelho Megale teve despertado o interesse pelas invocações marianas no Brasil a partir de 1967, quando começou a lecionar a cadeira de Folclore no Conservatório Musical de Poços de Caldas. Ali ela começou a ter contato com um grande número de lendas acerca das diversas invocações à Virgem Maria. Decidiu escrever sobre o assunto no Diário de Poços de Caldas. Com a publicação dos artigos, leitores e irmandades de diversos lugares começaram a lhe enviar notícias de jornais, livros e folhetos sobre o assunto. Como se avolumasse cada vez mais o número de informações obtidas, a museóloga decidiu publicar um livro sobre o tema.
No livro Invocações da Virgem Maria no Brasil, publicado pela Editora Vozes, são apresentados 123 títulos de Nossa Senhora. A autora divide as invocações à Virgem Maria em três categorias, conforme a origem: Litúrgica, Histórica e Popular. As de origem Litúrgica seriam aquelas instituídas pela própria Igreja, estando, portanto, relacionadas à própria liturgia, como por exemplo: Conceição, Guia, Assunção etc. As de origem histórica seriam aquelas que foram sendo criadas ao longo da história do cristianismo, em geral associadas a um determinado lugar no qual teve início o culto: Caravvagio, Guadalupe, Lourdes, Fátima etc. Por fim, as de origem popular seriam aquelas cujas denominações foram sendo atribuídas à Virgem espontaneamente pelos devotos: Carpição, Boa Viagem, Bom Parto etc. Embora considere essa classificação para as invocações, Nilze Botelho preferiu apresentar a sequência de invocações em ordem alfabética.
Para quem gosta de mariologia, a leitura de Invocações à Virgem Maria é uma delícia. Nele o leitor tem contato com informações que mesclam história, lenda e crenças populares. Outro aspecto que merece ser destacado é fato de se dedicar especificamente às diversas invocações praticadas em nosso país.
Escolhemos para citar neste texto o que a autora escreveu a propósito de uma das invocações que sobressai pelos aspectos peculiares associados à respectiva devoção. Trata-se da Virgem do Leite. Quanto à origem dessa devoção, escreve a autora: A devoção à Virgem do Leite parece ter tido início na Palestina, onde Jesus Cristo passou a sua vida terrena até morrer numa cruz para salvar a humanidade. Perto de Belém, onde Ele nasceu, encontra-se uma gruta muito venerada pelo povo do lugar e visitada por inúmeros devotos e turistas, dentro da qual se pode ver uma pedra muito alva, já gasta de tanto ter sido raspada. As mães que estão amamentando usam o pó desta rocha misturado com água, para aumentar o seu leite ou para conservá-lo enquanto suas crianças necessitam de alimentação materna. Diz a tradição que, quando a Sagrada Família se retirou para o Egito, parou junto à lapa para descansar. Maria aproveitou então para amamentar seu Divino Filho e um pouco de leite espirrou sobre a pedra, que se tornou toda branca. Daí a origem da devoção popular (p. 254).
Mais peculiar que a origem da devoção é uma lenda que foi a ela incorporada
Gruta do leite em Belém
em terras brasileiras: O tema da amamentação de Jesus aparece também no lendário brasileiro. Contam que Nossa Senhora estava à beira-mar, cansada sob o sol causticante de verão, e precisava voltar para o seu rancho, onde o Menino Deus a esperava para mamar. Como ela não sabia as horas e com certeza Ele estava chorando de fome, perguntou a um linguado, que se aproximava da terra para fazer a sesta: “Linguado, podes me dizer que horas são?” O peixinho, aborrecido por ela vir perturbar a sua digestão, cheio de maldade arremedou-a entortando a boca. A Virgem, então, diante daquela ruindade, amaldiçoou-o dizendo que ficasse como estava ao imitá-la. E desde aquela ocasião o linguado ficou com a boca torta… (p.255).
