Cinema às 8

Justiça em fatos reais

O perfil de Amanda Knox no Facebook é tal qual o de qualquer jovem com quase 30 anos. Com um namorado fixo, postagens sobre temas aleatórios e fotos de viagem. Não fosse a carga que seu nome carrega, a jovem estadunidense seria mais uma entre tantas. Protagonista de um dos julgamentos mais polêmicos da última década, o suposto assassinato cometido por ela em 2007 voltou aos holofotes em 2016, com o documentário Amanda Knox, disponível na Netflix.

Amanda não está sozinha. Além dela, tem casos como os de O.J Simpson, famoso jogador de futebol americano nos anos 1980, que conseguiu sair impune de um julgamento que poderia tê-lo condenado por um duplo assassinato. Sem conseguir fugir de uma culpa que jamais fora sua, Steven Avery, protagonista de Making a Murderer, mostrou ao mundo que nem sempre a honestidade é recompensada como se espera.

Casos de assassinatos baseados em fatos reais provocam grande empatia do público. Desde 2015, uma nova onde de documentários baseados em crimes polêmicos veem ganhando espaço nos grandes canais e distribuidoras. As obras citadas acima, no entanto, fogem do formuláico dos programas semanais sobre o tema, onde o que mais ocorre são reencenações de qualidade duvidosa. Aqui, os trabalhos dos diretores foca nas vítimas e no contexto onde cada caso ocorreu.

Além delas, outro destaque exibido no começo de 2015 foi The Jinx, da HBO. Dividida em seis episódios, a história desenvolve as estranhas mortes que rodeiam o multimilionário Robert Durst. A cena final, onde Durst confirma sua culpa nos crimes, foi considerada por muitos um dos pontos altos dentre os seriados do ano passado.

Jogada racial

Esquecido há anos pelo grande público, o caso de O.J Simpson retornou aos holofotes em 2016 com duas produções distintas. The People vs O.J Simpson: American Crime Story, um retrato fictício do caso, ganhou nove prêmios Emmy este ano, incluindo de Melhor Minissérie. Aclamado pela crítica, o documentário dividido em cinco partes, O.J: Made in America, exibida no Brasil pelo canal a cabo ESPN, conta com depoimentos dos reais protagonistas do caso.

Em 1994, O.J foi acusado de matar sua ex-esposa Nicole Brown e o amigo Ron Goldman. Apesar de todas as provas, o jogador foi inocentado. O que as duas obras procuram apresentar é o contexto social em que o crime foi cometido. Após atrocidades cometidas pela polícia contra a comunidade negra e o fato de um dos detetives responsáveis ser simpatizante da supremacia racial branca, o caso passou a parecer perseguição contra um homem negro bem sucedido. Em tempos onde o assunto de crimes racistas continua tanto em evidência quanto há 20 anos, as obras se tornam ainda mais atuais.

Falsos culpados

Lançada em dezembro de 2015, Making a Murderer logo se tornou um fenômeno na Netflix. Com as reviravoltas no caso de Steven Avery revoltando a audiência contra o sistema judiciário dos Estados Unidos, milhares de pessoas assinaram termos para que a sentença do norte-americano fosse revogada. Preso por uma acusação de estupro, Avery passou 18 anos encarcerado, até uma prova de DNA inocentá-lo. No decorrer dos episódios, uma nova acusação surge, abrindo margem para que Avery possa estar sendo incriminado pelos próprios investigadores.

Admirador de obras do gênero, Lucas Moura, do site Tapioca Mecânica, conta que, apesar de gostar, não conseguiu terminar sua maratona de Making a Murderer. “O fascínio por essas histórias parece ser algo que compartilhamos no inconsciente coletivo. Tanto a curiosidade de saber como os fatos aconteceram, como a vontade de entender as motivações do criminoso. Making… me pegou logo no primeiro episódio, mas ainda não tive estômago para assistir até o fim. Fui ficando muito nervoso com o passar dos episódios, sem conseguir acreditar com todos os absurdos que aconteceram”, diz.

Em seu caso, Amanda Knox também recebeu acusações falsas. Os responsáveis, no entanto, estavam por trás das câmeras e jornais responsáveis por noticiar o caso. Responsabilizada pela morte da colega de quarto durante uma viagem a Itália, Amanda foi julgada três vezes, tendo sido presa na primeira condenação. Inocentada após solicitação de recurso, continuou a ser apontada como predadora sexual pelos jornais e tabloides. O real culpado foi preso alguns anos depois, mas recebeu uma atenção irrelevante por parte da mídia.

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